Quando Labyrinth chegou às salas em 1986, o público saiu confuso com a mistura de fábula infantil, humor ácido e desejos adolescentes. Quatro décadas depois, o longa retorna aos cinemas entre 8 e 11 de janeiro, disposto a provar que o tempo apenas deixou seu labirinto mais hipnótico.
Dirigido por Jim Henson e estrelado por David Bowie e Jennifer Connelly, o filme custou US$ 25 milhões e arrecadou modestos US$ 12,9 milhões nos Estados Unidos. O fracasso inicial deu lugar a uma legião de fãs, sessões especiais e incontáveis análises acadêmicas — panorama que o 365 Filmes acompanha de perto.
Jim Henson mistura humor e surrealismo em “Labyrinth”
Depois do sombrio The Dark Crystal, Henson queria algo menos sisudo. A solução foi abraçar referências diversas, de Alice no País das Maravilhas a Salvador Dalí, criando um mosaico de imagens pop e citações literárias. Dentro do quarto da protagonista, Sarah, livros e pôsteres viram pistas visuais dessa colagem.
A metalinguagem começa no próprio prólogo: o nome do livro que a adolescente recita é “Labyrinth”, sugerindo que realidade e ficção caminham lado a lado. Esse efeito se estende ao design dos cenários, onde escadas impossíveis emulam gravuras de M. C. Escher e criaturas de Maurice Sendak parecem ganhar vida.
A comédia como alicerce
Henson deixou claro que não queria “competir” com O Mágico de Oz, mas dialogar com ele. Por isso, cada obstáculo no caminho de Sarah é pontuado por piadas rápidas ou trocadilhos visuais. O diretor acredita que a graça ajuda a digerir temas sérios como responsabilidade e amadurecimento.
David Bowie e Jennifer Connelly roubam a cena
Vestido com collant cinza e um generoso adorno na região da virilha, Bowie criou um vilão carismático, quase andrógino, que oscila entre mentor e ameaça. Seus números musicais, compostos pelo próprio cantor, adicionam camadas de charme e deixam claro por que Jareth, o Rei dos Duendes, virou ícone fashion.
Já Jennifer Connelly, então com 14 anos, segura a narrativa ao interpretar Sarah como uma adolescente contrariada, presa entre brincadeiras de infância e o peso de se tornar adulta. A química entre os dois — especialmente na sequência do baile de máscaras — introduz subtexto psicossexual sem jamais perder o tom de conto de fadas.
Destaques de atuação
• Bowie alterna sussurros e grandiloquência, reforçando a aura de rockstar alienígena.
• Connelly entrega fragilidade e coragem em igual medida, evitando que Sarah soe mimada demais.
• Fantoches como Hoggle, Ludo e Sir Didymus complementam o elenco com vozes marcantes e timing cômico preciso.
Roteiro abraça a metalinguagem e questiona a realidade
Escrito por Henson, Terry Jones e Dennis Lee, o texto propõe logo de início: o que é imaginação e o que é concreto? Não há resposta clara, e o filme prefere sugerir que ambas as esferas se alimentam. A cada enigma, Sarah precisa “fazer a pergunta certa”, evidenciando que autoconhecimento é chave.
Frases como “o caminho à frente às vezes é o caminho de volta” funcionam tanto como instrução prática dentro do labirinto quanto como conselho filosófico para a vida adulta. Esse jogo de espelhos aproxima Labyrinth de obras modernas que falam sobre amadurecer através da fantasia.
Temas recorrentes
• Responsabilidade familiar: Sarah só compreende o valor de Toby depois de quase perdê-lo.
• Percepção versus verdade: muros “sólidos” desaparecem quando olhados de outro ângulo.
• Progesso não linear: retrocessos fazem parte da jornada, ideia explicitada pelo relógio que acelera nos momentos de dúvida.
Imagem: Imagem: Divulgação
Efeitos práticos x computação nascente: parceria improvável
Labyrinth foi filmado num momento em que CGI ainda engatinhava. O resultado é um choque estético: marionetes complexas dividem cena com animações de computador simples, como o pássaro da sequência de créditos. A alquimia nem sempre é elegante, mas passou a ser vista como charme retrô.
O exemplo mais citado é a música Chilly Down, em que criaturas de cabeças destacáveis dançam sobre fundo verde fosforescente. O segmento parece datado, porém ilustra a ousadia de Henson em experimentar ferramentas que, anos depois, se tornariam padrão na indústria.
Por que os bonecos continuam convincentes
A textura tátil dos fantoches, aliados a mecanismos animatrônicos, transfere peso e gravidade às figuras fantásticas. Ludo, por exemplo, move cada músculo facial graças a cabos e motores escondidos na máscara, permitindo expressões sutis que convencem até o público atual.
Reestreia de 40 anos: programa obrigatório para fãs e curiosos
De 8 a 11 de janeiro, Labyrinth retorna às telonas em cópia restaurada de 102 minutos. A ação faz parte das comemorações de 40 anos do lançamento original, ocorrido em 27 de junho de 1986. Para muitos, será a primeira oportunidade de ver o filme em projeção grande, com trilha de Bowie reverberando em som digital.
Cinemas selecionados já abriram pré-venda, e exibições costumam incluir debates ou distribuições de brindes. A iniciativa reforça a posição de Labyrinth como um Rocky Horror Picture Show da década de 80, famoso por sessões temáticas e plateias fantasiadas.
Razões para não perder
• Revisitar performance de Bowie em resolução nítida.
• Notar detalhes de cenário que passam despercebidos em telas pequenas.
• Compartilhar a experiência com novos espectadores, perpetuando o status cult.
Legado cultural supera bilheteria modesta
Embora tenha saído dos cinemas sem cobrir o orçamento, Labyrinth transformou-se no título mais celebrado de Jim Henson. A influência aparece em videoclipes, coleções de moda e até parques temáticos. Jareth inspira cosplays mundo afora, enquanto frases do filme viram legendas em redes sociais.
Estudiosos de cinema destacam a capacidade do longa de introduzir questões adultas sob embalagem infantil, prática comum em animações contemporâneas, mas rara nos anos 80. Assim, o fracasso financeiro virou caso de estudo sobre como o tempo pode reescrever a história de um filme.
Perspectivas futuras
Ainda que rumores de sequência ou série circulem há anos, nenhum projeto saiu do papel. Por ora, fãs celebram a remasterização e a chance de ver cada pedra do labirinto com cores vibrantes. A jornada de Sarah permanece intocada, lembrando que às vezes precisamos nos perder para descobrir o caminho de casa.
