Uma pilha de formulários sobre a mesa vira o verdadeiro antagonista de Tese Sobre uma Domesticação, drama argentino lançado em 2024 na HBO Max. Sem explosões nem vilões caricatos, o filme acompanha o desgaste físico e emocional de um casal que tenta adotar uma criança em meio a prazos impossíveis, salas de espera sem fim e um relógio que nunca perdoa.
O diretor Javier van de Couter foca sua câmera no ordinário: filas, assinaturas, viagens rápidas à casa da família. O resultado é um retrato incômodo, quase documental, de como a instituição familiar se constrói (ou se desmancha) nas entrelinhas da burocracia. A seguir, analisamos as escolhas de elenco, direção, roteiro e aspectos técnicos que fazem do longa uma experiência claustrofóbica — e surpreendentemente humana.
Elenco entrega naturalismo exaustivo
Camila Sosa Villada assume o centro da narrativa e pronto: é difícil lembrar que ela está atuando. Cada expressão de frustração, cada bocejo segurado à força, reforça a sensação de que a artista viveu todas as filas exibidas em tela. A atriz, celebrada na cena cultural argentina, traduz as dores específicas de uma mulher trans sem recorrer a discursos prontos; ela deixa que o acúmulo de pequenos gestos conte sua história.
Alfonso Herrera, no papel do noivo e advogado recém-formado, funciona como contraponto contido. Enquanto Camila externaliza ansiedade, ele mantém postura polida, quase petrificada, sugerindo tensão interna prestes a explodir. O choque entre estilos cria atrito dramático constante e entrega momentos de silêncio mais eloquentes que diálogos extensos.
Entre os coadjuvantes, María Luz Tremsal encarna a familiar que dispara cobranças passivo-agressivas durante a visita à cidade natal. Sua presença reafirma que as maiores feridas nem sempre vêm de desconhecidos; às vezes, surgem de quem deveria oferecer abrigo. A interação lembra outras produções em que o núcleo doméstico se torna campo de batalha, como o suspense escolar citado em “Alarme de Incêndio” drama de sobrevivência na Netflix.
Direção de Javier van de Couter aposta em claustrofobia cotidiana
Van de Couter transforma corredores de repartições em labirintos sem saída. A câmera se posiciona atrás dos protagonistas, colada ao ombro, ampliando a sensação de que o espectador também está preso na fila. Quando o casal finalmente chega ao balcão, o enquadramento aperta ainda mais, como se o teto baixasse alguns centímetros.
O diretor substitui grandes discursos por observação minuciosa. Uma porta que se fecha, um relógio marcando 17h01, um suspiro coletivo na sala de espera: a dramaturgia nasce desses detalhes. O efeito lembra o trabalho de cineastas que preferem secar a emoção até o osso, como os irmãos Dardenne. Mas Van de Couter injeta um humor irônico discreto, evitando que o filme se afogue no desespero.
Imagem: Imagem: Divulgação
Roteiro transforma burocracia em vilã palpável
Escrito pelo próprio Van de Couter em parceria com Malena Solarz, o roteiro divide a saga de adoção em dias, horários e deslocamentos. A estrutura linear reforça a percepção de que cada passo adiante carrega potencial de retrocesso. Não há grandes viradas: os personagens caminham em círculos, soterrados por cópias autenticadas e carimbos molhados.
O texto também escapa de moralismos fáceis. Em vez de denunciar “o sistema” em falas inflamadas, ele expõe a violência da espera. Quando Camila e o noivo encaram a sexta recusa na mesma semana, o espectador sente o peso da burocracia como se fosse um soco no estômago. Essa escolha narrativa ecoa, por exemplo, no modo como títulos como o venenoso romance “Amores à Parte” dissecam relações a partir de micromomentos.
Fotografia e ritmo reforçam ansiedade do casal
A fotografia de Soledad Rodríguez alterna tons frios em ambientes oficiais e cores quentes dentro do apartamento do casal. Essa chave visual sublinha a dualidade entre o sonho de uma família acolhedora e o universo gelado dos procedimentos legais. A cada retorno do cartório, as lâmpadas caseiras parecem mais opacas, como se o desgaste respingasse nas paredes.
Na montagem, Ernesto Félix assume cortes secos que tiram o fôlego. Uma cena pode terminar no abrir de uma porta e retomar no fechar de outra, horas depois, enfatizando lacunas de exaustão que o espectador preenche mentalmente. Quando o roteiro exige pausa, o editor recorre a planos longos que prolongam o desconforto. A trilha quase inexistente amplia o eco desses silêncios.
Tese Sobre uma Domesticação vale o play na HBO Max?
Com 8/10 na avaliação interna do 365 Filmes, Tese Sobre uma Domesticação se destaca como estudo de personagens e raio-X da burocracia que envolve a adoção por casais LGBTQIA+. O longa não oferece catarse fácil, mas recompensa quem encara o ritmo lento com atuações poderosas, direção precisa e roteiro sem concessões.
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