Depois de nove anos e 42 episódios, o fenômeno criado pelos irmãos Duffer alcançou o ponto final na Netflix. A conclusão, esperada com ansiedade pelos fãs, chegou prometendo riscos elevados, mas entregou uma despedida mais contida do que se imaginava.
Entre batalhas interdimensionais e reencontros emotivos, o final de Stranger Things alterna cenas de ação grandiosas com momentos intimistas, sem, entretanto, promover mudanças drásticas na lista de personagens centrais. A seguir, o 365 Filmes destrincha o que funcionou – e o que ficou devendo – em termos de elenco, direção e roteiro.
Elenco entrega intensidade, mas sem sacrifícios marcantes
O final de Stranger Things colocou Millie Bobby Brown novamente no centro da linha de fogo. A atriz exibe domínio sobre as nuances de Eleven, sobretudo nas sequências em que a personagem encara a possibilidade de morte. Ainda assim, o roteiro recua logo depois, mantendo a protagonista viva em circunstâncias ambíguas e enfraquecendo o peso dramático da atuação.
Do outro lado, Jamie Campbell Bower, como Vecna, mantém a presença ameaçadora vista na temporada anterior, mas tem menos espaço para explorar a complexidade do vilão. A batalha decisiva contra Eleven e Will soa enxuta demais, reduzindo a oportunidade de aprofundar o conflito entre criador e criatura.
Entre os humanos, Joe Keery (Steve), Maya Hawke (Robin) e Natalia Dyer (Nancy) aproveitam cada diálogo, embora o roteiro flerte com a possibilidade de uma despedida definitiva apenas para desistir segundos depois. A performance do trio evidencia química e senso de timing cômico, porém a falta de consequências robustas faz com que a adrenalina caia.
Winona Ryder, ícone desde o início da série, aparece limitada a reações de mãe protetora. Mesmo a cena em que Joyce decapita Vecna carece de construção prévia, tornando a conquista episódica. Com menos material em mãos, Ryder faz o possível para sustentar a relevância da personagem, mas a atriz merecia um arco mais substancial.
Direção equilibra espetáculo e nostalgia, mas evita ousadia
Matt e Ross Duffer conduzem o encerramento com a mesma estética que consagrou a série: trilha oitentista, contrastes de neon e criaturas grotescas orbitando a simpática Hawkins. A câmera alterna closes emotivos e planos abertos de caos, respondendo bem ao desafio de exibir dois mundos em colisão.
No entanto, a decisão de aparar riscos dramáticos impõe limites à direção. A invasão do Mind Flayer, por exemplo, perde urgência quando demogorgons e demobats ficam de fora da equação. A sensação de “tudo pode acontecer” se dilui, e o clímax visualmente impressionante não vem acompanhado de impacto narrativo equivalente.
O salto temporal de 18 meses na epílogo oferece aos Duffer a chance de revisitar a simplicidade do primeiro ano: conversas de porão, piadas internas e promessas de amizade eterna. O contraste com as explosões anteriores gera alívio cênico, mas também evidencia como a série passou a mirar em escalas cada vez maiores sem necessariamente fechar as pontas menores.
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Roteiro privilegia fan service e previsibilidade
Ao longo do final de Stranger Things, o texto mantém as marcas registradas: referências pop, doses de humor juvenil e camaradagem inabalável. Contudo, a ausência de mortes significativas cria a percepção de que o perigo nunca é absoluto. Kali sucumbe no Mundo Invertido, mas sua presença intermitente ao longo da série ameniza o choque.
Vecna, antagonista insistente, encontra o fim sem a catarse esperada. A origem de seus poderes, já exposta na peça “The First Shadow”, rouba surpresa da revelação apresentada na caverna. Além disso, a resolução rápida mina o potencial de conflito interno de Eleven e atrapalha o impacto das subsequentes cenas emotivas.
A epílogo cumpre o papel de mostrar destinos: Steve de volta à vida pacata, Robin investindo em novos planos, Lucas reencontrando o esporte e Will sugerindo recomeços. Apesar de tocantes, as decisões seguem um caminho pouco inventivo. A exceção fica por conta da referência ao “Mage” de Mike, insinuando que Eleven pode ter escapado de Hawkins com ajuda de Kali.
Atuações individuais salvam as melhores cenas do final de Stranger Things
Mesmo quando o roteiro se mostra conservador, o elenco arranca momentos de pura emoção. A troca de presentes entre Eleven e Hopper, por exemplo, remete ao vínculo paterno consolidado desde a segunda temporada. David Harbour, aliás, sustenta a mistura de dureza e ternura do xerife com naturalidade invejável.
Caleb McLaughlin, Sadie Sink e Gaten Matarazzo revivem a química infantil que lançou a série ao estrelato. A conversa no porão, repleta de lembranças, parece combinar nostalgia dos personagens com dos próprios intérpretes. A naturalidade dessa cena comprova o cuidado do elenco em honrar o passado sem cair em sentimentalismo barato.
Já Winona Ryder divide tela com Noah Schnapp sem repetir o brilho dos primeiros anos. Falta ao roteiro aquela conversa olhos nos olhos entre Joyce e Will, tão presente em temporadas anteriores. Mesmo assim, Schnapp domina o espaço ao retratar os conflitos de descoberta e pertencimento, garantindo um desfecho digno ao jovem Byers.
Vale a pena assistir?
Para quem acompanhou a jornada desde 2016, o final de Stranger Things entrega espetáculo visual, atuações inspiradas e a familiar sensação de aventura juvenil. A ausência de reviravoltas mais ousadas pode frustrar quem esperava por tragédias catárticas, mas o capítulo final mantém a essência nostálgica que consolidou a série como ícone pop.
