Magellan, novo longa dirigido pelo filipino Lav Diaz, revisita a figura de Fernão de Magalhães a partir de um olhar contundentemente anticolonial. Gael García Bernal assume o papel do explorador português, expondo um personagem dominado pelo próprio ego e pelo impulso de conquista.
O filme, de 160 minutos, foi exibido pela primeira vez no AFI Fest 2025 e chega aos cinemas em 10 de setembro do mesmo ano. Com fotografia de Artur Tort, Magellan prefere imagens contemplativas à narrativa tradicional, reforçando o tom crítico sobre a herança colonial nas Filipinas e em todo o Sul Global.
Uma lenda desconstruída no cinema
Lav Diaz desafia o mito ocidental de Magalhães ao contrapor o navegador à figura de Lapulapu, líder de Mactan. Embora Lapulapu seja celebrado nas Filipinas como herói nacional, o diretor apresenta o guerreiro como possível invenção estratégica de Rajah Humabon (Ronnie Lazaro) para atrair as tropas espanholas ao campo de batalha.
A estratégia narrativa evidencia a tese central de Diaz: histórias também podem ser armas. Ao questionar a existência de Lapulapu, o cineasta sugere que mitos de resistência são capazes de enfrentar, no plano simbólico, a hegemonia europeia, minando o orgulho de conquistadores como Magalhães.
Estilo visual marcado pelo 4:3
Filmado com uma câmera Panasonic J7 no formato quadrado 4:3, o longa evoca a pintura holandesa do século XVI. Cada quadro, fixo em tripé, apresenta riqueza de detalhes que transformam cenários naturais em testemunhas silenciosas de invasões, batalhas e cadáveres.
Esse tratamento de imagem ecoa influências de cineastas como James Benning, acentuando a ideia de que a natureza permanece imutável diante da fúria humana. Nas telas do 365 Filmes, a experiência promete conquistar quem busca um cinema mais contemplativo, sem pressa de explicar cada evento.
A força da fotografia
Artur Tort, colaborador frequente de Albert Serra, constrói cenas em que a luz suave contrasta com a violência histórica. Um exemplo marcante mostra Magalhães, diminuto, encarando um castelo colado à praia: metáfora visual do desejo desmedido de dominar territórios muito maiores que ele próprio.
Da conquista de Malaca ao fim em Mactan
Magellan cobre o período entre 1511, quando o português capturou a cidade de Malaca para a coroa espanhola, e 1521, ano em que foi decapitado. A trama avança sem pressa, pontuada por datas e lugares que surgem na tela como lembretes objetivos, quase notas de rodapé.
Nesse intervalo, vemos a crueldade do protagonista, sua flexibilidade moral e a facilidade em abandonar valores cristãos quando eles atrapalham suas ambições. O resultado é o retrato de um anti-herói cuja queda decorre, sobretudo, da própria arrogância.
Enrique, o contraponto humano
Logo na abertura, Magalhães compra seu escravo cebuano, batizado de Enrique (Amado Arjay Babon). O roteiro acompanha o olhar apavorado desse personagem até o plano final, em que suas mãos ensanguentadas sinalizam o preço violento da busca por liberdade. Enrique funciona como espelho das contradições coloniais: ele só conquista autonomia por meio da guerra.
Imagem: Imagem: Divulgação
Amor distante, dor constante
Para humanizar o navegador sem absolvê-lo, Diaz introduz Beatriz (Ângela Ramos) por meio de aparições etéreas. O explorador sonha com o nascimento e a morte do filho, além da possível perda da esposa. Esses vislumbres, envoltos em filtros suaves, pontuam a narrativa com uma melancolia que contrasta com o sangue derramado nas batalhas.
A presença quase fantasmal de Beatriz reforça a solidão de Magalhães nas rotas marítimas e sublinha o abismo entre seu desejo íntimo e seus atos impiedosos.
Produção robusta, duração “curta” para Lav Diaz
Conhecido por obras que ultrapassam facilmente as seis horas, Diaz entrega aqui um filme relativamente breve, mas não menos ambicioso. A reconstrução completa da nau Victoria, figurinos de época e cenários minuciosos evidenciam um orçamento superior ao da maioria de seus trabalhos anteriores, tradicionalmente mais enxutos.
Mesmo assim, o diretor permanece fiel à própria estética: longos planos fixos, diálogos econômicos e confiança absoluta no poder de sugestão das imagens.
Elenco e bastidores
Além de Bernal, o elenco traz Ângela Ramos, Ronnie Lazaro e Amado Arjay Babon. A produção é assinada por Joaquim Sapinho, Montse Triola, Albert Serra, Bianca Balbuena, Paul Soriano e Bradley Liew, garantindo suporte internacional ao projeto.
Estreia e recepção
Com exibição de gala no AFI Fest 2025, Magellan chamou atenção pela mistura de espetáculo histórico e crítica feroz ao colonialismo. A recepção inicial destaca a beleza das imagens e o caráter provocativo do roteiro.
Para quem acompanha lançamentos, o drama histórico chega aos cinemas no início de setembro. Interessados em épicos reflexivos, anticoloniais e visuais de tirar o fôlego encontram em Magellan filme obrigatório.
Magellan, dirigido por Lav Diaz, estreia em 10 de setembro de 2025. Distribuição no Brasil ainda não foi confirmada.
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