A nova série Vladimir, lançada hoje no catálogo da Netflix, chega cercada de curiosidade. Adaptando o romance homônimo de Julia May Jonas, publicado em 2022, a produção aposta em uma mistura de drama psicológico, ironia e desconforto moral para contar uma história sobre obsessão, poder e autoengano. São oito episódios que acompanham a vida de uma professora de meia-idade que desenvolve uma fixação cada vez mais intensa por um colega muito mais jovem.
Logo de início, a série deixa claro que não pretende seguir caminhos convencionais. A narrativa parece interessada em provocar o espectador o tempo todo, desmontando qualquer expectativa de romance tradicional. Em vez disso, a trama mergulha em um território mais ambíguo, onde desejo, frustração e vaidade intelectual se misturam.
A protagonista passa a observar Vladimir, personagem vivido por Leo Woodall, como se ele fosse uma espécie de escape para a própria crise existencial. Porém, à medida que a obsessão cresce, fica claro que a história não é apenas sobre atração. Ela também fala sobre envelhecimento, vaidade e o medo silencioso de perder relevância.
Grande parte da força da série vem da atuação de Rachel Weisz. A atriz carrega praticamente toda a narrativa nas costas e transforma a protagonista em uma figura ao mesmo tempo fascinante e desconfortável de acompanhar. Há momentos em que ela parece completamente lúcida; em outros, mergulha em uma autoilusão quase trágica.
Enquanto assistia aos episódios, a sensação era de observar alguém tentando desesperadamente manter o controle da própria narrativa. A personagem se apresenta como uma mulher segura e intelectualmente superior, mas pequenas situações revelam rachaduras nessa imagem.
Um dos exemplos mais simples e eficazes acontece logo no primeiro episódio. Em determinado momento, ela afirma que todos os colegas adoraram a salada que levou para uma reunião do departamento. Porém, segundos depois, a câmera mostra a tigela completamente intacta. É um detalhe pequeno, mas resume bem o tom da série: a protagonista sempre tenta nos convencer de algo que a própria imagem desmente.
Essa escolha narrativa se reforça quando a personagem quebra a quarta parede e conversa diretamente com o público. O recurso inevitavelmente lembra o estilo usado em Fleabag, mas aqui ele funciona de forma diferente. Em vez de criar cumplicidade imediata com o espectador, a série usa esse diálogo direto para mostrar o quanto a protagonista é prisioneira das próprias fantasias.
Ao longo da temporada, essa dinâmica vai ganhando camadas mais complexas. A obsessão por Vladimir se mistura com frustrações profissionais, tensões dentro do casamento e um sentimento crescente de inadequação.
Tudo isso conduz ao episódio final, que aposta em uma conclusão deliberadamente ambígua. A protagonista, o marido e Vladimir acabam em uma cabana isolada. Depois de uma noite marcada por discussões intensas, o local pega fogo.
O que acontece a seguir é deixado em aberto.

A protagonista afirma ter salvado todos, mas a última imagem mostra apenas ela diante da casa em chamas. Em seguida, pergunta diretamente ao público se acreditamos em sua versão da história.
A série nunca confirma se o incêndio foi real ou se ele representa apenas o final dramático que ela decide escrever para o próprio livro dentro da narrativa. Essa escolha transforma o desfecho em algo abrupto e provocador.
Nem tudo, no entanto, funciona com a mesma força. Em alguns momentos, Vladimir parece hesitar em explorar totalmente seus temas mais sensíveis. A trama flerta com discussões sobre poder, sexualidade e hipocrisia acadêmica, mas às vezes recua antes de mergulhar completamente nesses conflitos.
Ainda assim, a produção se mantém envolvente do começo ao fim.
Existe algo quase hipnótico na forma como a série acompanha o declínio emocional da protagonista. Cada episódio acrescenta um pequeno elemento de desconforto, fazendo com que o espectador continue assistindo mesmo quando as decisões da personagem se tornam cada vez mais caóticas.
Para quem acompanha produções do universo do streaming, Vladimir funciona como aquele tipo de minissérie perfeita para maratonar. Não necessariamente porque tudo seja resolvido de forma satisfatória, mas porque o roteiro sabe criar tensão suficiente para manter a curiosidade viva.
No fim das contas, talvez essa seja a maior qualidade da série. Mesmo quando não aprofunda todas as ideias que apresenta, ela permanece inquietante e imprevisível.
E muito disso se deve ao trabalho de Rachel Weisz. A atriz equilibra humor ácido, constrangimento e fragilidade emocional com uma naturalidade impressionante. É uma atuação que transforma uma personagem potencialmente antipática em alguém impossível de ignorar.
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