Uma fazenda no interior da Alemanha serve de palco para quatro gerações de meninas que carregam segredos, traumas e silêncios. Sound of Falling chega como a segunda incursão de Mascha Schilinski na direção de longas, mesclando drama histórico e experimentações narrativas para investigar como a violência atravessa o tempo.
Com roteiro assinado pela própria cineasta ao lado de Louise Peter, o filme estreou em maio de 2025 no Festival de Cannes e tem previsão de lançamento nos cinemas em 11 de setembro de 2025. Ao longo de extensos 149 minutos, Schilinski alterna épocas sem aviso, força o espectador a montar um quebra-cabeça emocional e faz da câmera uma bisbilhoteira que observa tudo por frestas, portas entreabertas e buracos de fechadura.
Estrutura narrativa fragmentada intensifica a sensação de instabilidade
Sound of Falling abandona a linha temporal linear logo nos primeiros minutos. A diretora intercala cenas de Angelika, Erika, Lenka e Alma em fases distintas da história alemã, criando um mosaico que exige atenção redobrada. Ao optar por cortes abruptos, Schilinski acentua a confusão sentida pelas próprias personagens, fruto de perdas, doenças e segredos familiares.
Esse emaranhado cronológico pode afastar quem espera um arco tradicional, mas reforça o tema central: no universo do filme, o passado não fica para trás; ele se dobra sobre o presente, tal qual o gesto inicial em que Angelika “remonta” a perna ausente com a fita que a prende à cintura. A recusa em explicar cada evento em detalhe faz com que detalhes importantes só se revelem em cenas posteriores, estimulando novas interpretações a cada revisão.
Direção e fotografia criam atmosfera de vigilância constante
A câmera de Constantin Campe reproduz o olhar clandestino de uma criança tentando decifrar o mundo adulto. Grande parte dos quadros surge parcialmente encoberta – a lente espreita sob a mesa, por trás do batente ou entre as frestas do assoalho. O recurso converte o espectador em cúmplice involuntário, reforçando o clima de apreensão que acompanha as protagonistas.
Schilinski evita soluções vistosas e prefere a austeridade dos cenários rurais. O rangido das tábuas, o vento cortando os campos e pequenos ruídos domésticos compõem uma trilha diegética que amplia a sensação de ameaça. Quando a violência finalmente se manifesta – seja na figura do tio que perdeu a perna, seja nos episódios de abuso – o golpe é seco, sem apelações gráficas, mas impossível de ignorar.
Elenco juvenil sustenta a crueza do material
Lena Urzendowsky (Angelika) comanda a abertura com uma mistura de ingenuidade e obsessão que define o tom incômodo do longa. Sua forma de oscilar entre a curiosidade científica e a idolatria pelo tio Fritz oferece a primeira pista de como a dor se perpetua entre gerações. Já Lea Drinda (Erika) traduz a rigidez da década em que vive, carregando nos ombros a expectativa familiar e o fardo de um segredo mortal.
Imagem: Imagem: Divulgação
Hanna Heckt, intérprete da pequena Alma, alcança talvez o ponto mais sensível do elenco. Seus olhos arregalados registram cada omissão dos adultos, revelando que a inocência é terreno fértil para medos sem nome. Por fim, Laeni Geiseler, na pele de Lenka, evidencia a passagem para a juventude em plena era de transformações sociais, mas ainda cercada pelos mesmos fantasmas. Juntas, as quatro atrizes confirmam a preocupação da diretora em extrair performances nuançadas, ainda que o roteiro lhes ofereça mais fragmentos do que arcos completos.
Roteiro expõe violência estrutural sem recorrer ao sensacionalismo
Assinada por Schilinski e Louise Peter, a escrita deixa claro que o alvo não é um vilão específico, mas o tecido social que normaliza agressões. Um vizinho que se diz confiável, um parento permissivo, um tio predatório: todos contribuem para perpetuar feridas que atravessam décadas. Mesmo assim, o longa não se entrega ao grotesco. Ao contrário, a maior parte das agressões é sugerida – um close em uma porta trancada, o ranger de uma cama, o choro contido no escuro.
Essa abordagem recatada reforça a temática da transmissão silenciosa de traumas. Os fatos ficam subentendidos, mas as consequências se gravam nos corpos das meninas, como no membro ausente de Fritz ou na doença não nomeada da mãe. A dupla de roteiristas também insere pequenas pistas históricas – mudanças de figurino, objetos e sotaques – para localizar cada geração, sem recorrer a legendas explicativas.
Sound of Falling vale a pena?
Para quem aprecia narrativas desafiadoras, Sound of Falling oferece um mergulho denso na relação entre memória, violência e amadurecimento. A duração extensa e a estrutura não linear exigem atenção, mas o trabalho de direção, fotografia e elenco compensa o esforço. No catálogo de 365 Filmes, o longa deve atrair espectadores em busca de experiências autorais que ecoam depois da sessão.
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