Em 2002, um dos longas mais caros da história do cinema chinês estreava quebrando recordes locais. Mesmo assim, o épico permaneceria dois anos engavetado nos Estados Unidos.
Esse cenário só mudou graças à insistência de Quentin Tarantino, que viu no filme Hero uma obra-prima do gênero wuxia e peitou o estúdio Miramax para mantê-lo intacto.
Como “Hero” surgiu e virou fenômeno na China
Dirigido por Zhang Yimou, Hero apresenta Jet Li como um guerreiro sem nome que relata a tentativa de assassinar Ying Zheng, futuro primeiro imperador da China. A produção reuniu um elenco estrelado: Tony Leung, Maggie Cheung, Donnie Yen e Zhang Ziyi.
Com orçamento nunca visto no país, o longa arrecadou US$ 11,8 milhões na primeira semana em cartaz, estreando em 200 salas e batendo recordes em todas elas. Rapidamente, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria da China.
Reconhecimento internacional imediato
O desempenho impulsionou a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2003. Embora a estatueta tenha ficado com “Nowhere in Africa”, o reconhecimento internacional reforçou o potencial do filme Hero fora da Ásia.
Miramax trava o lançamento nos EUA – e Tarantino entra em cena
Apesar da onda positiva, a Miramax, responsável pelos direitos norte-americanos, decidiu adiar a estreia e cogitou cortes drásticos para “adequar” a obra ao público ocidental. Foi nesse impasse que Quentin Tarantino apareceu.
Cinéfilo formado em locadora, o diretor nutria paixão por artes marciais e havia acabado de homenagear o gênero em “Kill Bill”. Ao assistir Hero, declarou o longa “um absoluto clássico” e prometeu brigar para mantê-lo intacto.
Uma proposta irrecusável
Tarantino negociou diretamente com os executivos: a Miramax manteria a duração original se ele “apresentasse” oficialmente o filme. Zhang Yimou aprovou o plano, e a parceria foi selada. Assim, o filme Hero enfim ganhou data de estreia: 27 de agosto de 2004, quase dois anos após chegar aos cinemas chineses.
Estreia histórica: primeiro filme em língua chinesa no topo do box office americano
A aposta deu resultado imediato. No fim de semana de lançamento, Hero arrecadou US$ 18 milhões e tornou-se a primeira obra em língua não inglesa a liderar a bilheteria norte-americana. Manteve a posição por mais uma semana, somando US$ 8,8 milhões adicionais.
No total, o filme acumulou US$ 176 milhões no mundo. Embora fique atrás dos US$ 213 milhões de “O Tigre e o Dragão” em faturamento global, o feito de liderar o ranking doméstico dos EUA permaneceu inédito até então.
Imagem: Everett Collecti
Comparação com “O Tigre e o Dragão”
Enquanto o longa de Ang Lee alcançou, no máximo, a quarta posição nas bilheterias norte-americanas, Hero quebrou essa barreira. O feito reforçou o impacto cultural do filme Hero e consolidou Tarantino como defensor de produções estrangeiras.
Por que “Hero” é considerado um dos melhores wuxia já filmados
Além do elenco de estrelas, “Hero” combina narrativa mítica, estética de cores marcantes e coreografias refinadas. Cada versão da história contada pelo protagonista utiliza paleta diferente, reforçando a natureza subjetiva da memória e da honra.
As lutas, coreografadas por Ching Siu-tung, equilibram realismo e poesia, distinguindo o filme Hero de outros títulos wuxia que apostam em fantasia extrema. Essa abordagem rendeu 94% de aprovação no Rotten Tomatoes, quase empatado com os 98% de “O Tigre e o Dragão”.
Elenco que dispensa apresentações
Ver Jet Li em duelo com Donnie Yen, ou Tony Leung medindo forças com Maggie Cheung, garante magnetismo raramente repetido. Somada à direção de Zhang Yimou, essa constelação transformou o filme Hero em referência para novos realizadores.
Legado e influência após duas décadas
O sucesso norte-americano abriu portas para que produções asiáticas alcançassem distribuição mais ampla, influenciando tendências de mercado e inspirando cineastas ocidentais. Hoje, plataformas de streaming exibem catálogos recheados de wuxia, reflexo direto dessa conquista.
Para o público do 365 Filmes, entender a trajetória do filme Hero mostra como a paixão de um diretor pode alterar o destino de uma obra, preservando sua integridade artística e ampliando seu alcance global.
Tarantino como patrono de cinema internacional
A história ilustra a influência de Tarantino além das câmeras. Ao usar seu prestígio para defender “Hero”, ele provou que filmes estrangeiros podem cativar plateias ocidentais sem adaptações bruscas, bastando respeito à visão original.
Vinte anos depois, “Hero” segue citado em listas de melhores filmes de artes marciais, enquanto fãs e críticos reconhecem a importância de Tarantino na vitória contra o corte de tesouras. Se você ainda não viu, vale procurar essa joia e conferir por que ela mudou a forma como Hollywood olha para o cinema wuxia.
