George Clooney volta às telas em Jay Kelly, longa original da Netflix escrito e dirigido por Noah Baumbach. O filme, que chega com elogios da crítica, acompanha um astro fictício às voltas com um escândalo prestes a arruinar sua carreira.
A produção se soma a títulos como Birdman e La La Land ao mirar a própria indústria do cinema. Mas o desfecho inesperado deixou parte do público confusa, reacendendo o debate: será que Hollywood já falou demais de si mesma?
Enredo de Jay Kelly contrapõe escândalo pessoal e homenagem na Toscana
No thriller dramático, Clooney interpreta Jay Kelly, ator veterano cuja trajetória lembra a do próprio artista: oriundo do Kentucky, dono de sucessos em múltiplos gêneros e ainda requisitado aos 60 anos. A semelhança para por aí. Na ficção, Jay fracassou no casamento após um caso com colega de set e vive afastado da família.
Dois eventos movem a narrativa. O primeiro ocorre em Los Angeles, durante o velório do diretor que lançou Jay ao estrelato. Lá ele reencontra Tim (Billy Crudup), amigo de juventude que se ressente desde que o protagonista “roubou” a oportunidade que lhe renderia fama. A conversa amistosa degringola numa briga de rua, filmada por um transeunte e transformada em combustível para tabloides.
Noah Baumbach expõe bastidores do estrelato enquanto brinca com a percepção do público
O segundo arco leva Jay à Europa. Preocupado com a filha caçula Daisy (Grace Edwards), ele decide segui-la de trem durante férias com amigas e, de quebra, aceitar um prêmio honorário em um festival da Toscana. No caminho, frustra-se ao receber, como de costume, uma fatia de cheesecake que detesta — capricho constante em sua lista de exigências, mantido apenas para alimentar o mito em torno de sua imagem.
Sequência no trem garante momento heroico que muda o rumo da história
Durante a viagem, um ladrão furta a bolsa de uma idosa, puxa o freio de emergência e salta dos vagões em movimento. Jay reage instintivamente, persegue o rapaz pelos trilhos e devolve o pertencer à vítima, conquistando os passageiros. Horas depois, já na Itália, celulares pipocam com a notícia do “ato heroico”, abafando o vídeo da briga em Santa Mônica que ameaçava vazar à imprensa.
Em meio às celebrações, flashbacks mostram o teste de elenco que lançou Jay, sua primeira cena de sexo com a atriz do affair e tentativas frustradas da filha mais velha, Jessica (Riley Keough), de induzi-lo à terapia. Esses recortes revelam as contradições do personagem e sugerem cansaço diante de quatro décadas sob os holofotes.
Imagem: Peter Mountain/Netflix
Apesar de toda a tensão, o clímax é inesperado: na hora de discursar, o astro encara a câmera e pede “mais uma tomada”, ecoando frase dita na gravação de seu último filme. Sem catarse pública, o arrependimento fica implícito — e a legião de assessores, gerentes e advogados resolve a crise nos bastidores para que tudo siga como antes.
A decisão criativa de Baumbach dividiu opiniões. Alguns críticos enxergam metalinguagem sofisticada; outros consideram um final anticlimático que reforça a ideia de impunidade para celebridades. A discussão retomou a velha pergunta sobre a relevância de histórias que giram em torno de artistas que, diferentemente da maioria, dispõem de “exército” de profissionais para apagar problemas.
Produções recentes, como Tropic Thunder, The Fabelmans e a série The Studio, provaram que o público ainda consome narrativas autorreflexivas. Mesmo assim, o desfecho de Jay Kelly alimenta a sensação de esgotamento do subgênero, sobretudo quando evita consequências reais para seu protagonista.
Em entrevista de divulgação, Clooney ressaltou que o longa “mostra engrenagens invisíveis” que mantêm astros em órbita. Já Baumbach declarou interesse em “questionar o custo da fama aos olhos de quem a vivencia”. Nenhum deles, porém, confirmou planos para sequências ou extensão do universo do filme.
No catálogo da Netflix desde esta semana, Jay Kelly tem 2h12 de duração, classificação indicativa de 16 anos e reúne, além de Clooney e Sandler, nomes como Jim Broadbent, Stacy Keach e Grace Van Patten. Para quem segue o 365 Filmes, a estreia oferece mais um capítulo no debate sobre até que ponto Hollywood deve — ou não — continuar falando de si mesma.
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