A guerra de aquisições em Hollywood ganhou um capítulo inesperado. Antes de balançar o mercado com a proposta de US$ 82,7 bilhões pela Warner Bros. Discovery, a Netflix chegou a avaliar seriamente a compra da Disney, segundo fontes próximas à diretoria.
O movimento, revelado por reportagem da Bloomberg, mostra que a gigante do streaming analisou vários alvos — de estúdios a empresas de games — mas recuou diante do risco de desagradar investidores. A informação explica a cautela que a companhia adota enquanto disputa ativos estratégicos com concorrentes como a Paramount.
Netflix compra Warner Bros. Discovery: como a oferta foi construída
A proposta de US$ 82,7 bilhões tornou-se pública poucas semanas antes do encerramento de 2025 e colocou a Netflix no centro das atenções. O valor cobre a dívida da Warner Bros. Discovery e promete entregar ao streaming franquias de peso, como DC, Harry Potter e Looney Tunes, além de um vasto catálogo televisivo.
Segundo fontes internas, Ted Sarandos e Greg Peters trabalharam em sigilo por meses para alinhar a oferta. Ambos sabiam que uma contraproposta era provável, mas confiavam na atratividade do pacote fechado com o conselho da Warner. “Temos um acordo pronto e estamos muito felizes com ele”, declarou Sarandos após o anúncio.
Paramount reage com lance hostil de US$ 108,4 bilhões
A resposta não demorou. A Paramount, em parceria com a Skydance, apresentou uma proposta de US$ 108,4 bilhões, considerada hostil por tentar dificultar a aprovação do negócio com a Netflix. O movimento reacendeu debates sobre a consolidação de estúdios tradicionais em torno das plataformas de streaming.
Em comunicado, o conselho da Warner Bros. Discovery prometeu analisar a oferta da Paramount “de acordo com seus deveres fiduciários” e emitir recomendação a acionistas em até dez dias úteis. Nos bastidores, porém, fontes apontam que a preferência inicial ainda recai sobre a proposta da Netflix pela menor complexidade regulatória.
Por que a Disney entrou no radar — e saiu dele
Antes de mirar a Warner, a cúpula da Netflix realizou simulações de aquisição envolvendo diversos ativos. Entre eles estavam a Electronic Arts, a Fox e, surpreendentemente, a Disney. A discussão interna, entretanto, travou em dois pontos: o tamanho da transação e o impacto potencial sobre o preço das ações da própria Netflix.
Executivos temiam que um acordo dessa magnitude exigisse emitir tantas novas ações que o múltiplo da empresa despencaria. Além disso, havia receio de sinalizar ao mercado que o crescimento orgânico do streaming estaria perto do limite. Por essas razões, o plano de comprar a Disney foi arquivado antes mesmo de avançar para negociações preliminares.
Compromisso com o cinema tradicional
Um dos temores em Hollywood é que a Netflix, famosa por privilegiar lançamentos diretos na plataforma, reduza estreias nos cinemas caso conclua a compra da Warner Bros. Discovery. Sarandos rechaçou a hipótese. “Não compramos a empresa para destruir valor. Pretendemos lançar os filmes exatamente como eles saem hoje”, afirmou.
O co-CEO citou títulos como Minecraft, Superman e Weapons para argumentar que todos continuariam recebendo janelas robustas nas salas de exibição. Na visão dele, manter o modelo híbrido é essencial para preservar empregos e receitas de toda a cadeia do entretenimento.
Imagem: Grae Guttmann
Repercussão no mercado e obstáculos regulatórios
Analistas enxergam o negócio como o maior teste antitruste dos últimos anos. A junção poderia criar um conglomerado com poder significativo de negociação com talentos, exibidores e anunciantes. Apesar disso, especialistas lembram que o Departamento de Justiça dos EUA tem sinalizado maior flexibilidade desde a aprovação da união entre Discovery e Warner em 2022.
No curto prazo, o principal entrave é a oferta superior da Paramount. Caso a Netflix deseje igualar ou aumentar a proposta, precisará demonstrar que o prêmio adicional não comprometerá sua saúde financeira — um equilíbrio delicado após sucessivas altas de juros globais.
O que está em jogo para assinantes e acionistas
Para os 270 milhões de assinantes da Netflix, a aquisição significaria acesso a um catálogo ainda mais amplo. Séries históricas da HBO e blockbusters da Warner poderiam chegar ao streaming sem custos extras, fortalecendo a retenção de usuários em tempos de concorrência acirrada.
Já os acionistas aguardam esclarecimentos sobre sinergias. A projeção interna indica que a fusão geraria economias anuais substanciais em marketing e tecnologia, mas o valor exato não foi divulgado. A integridade das marcas, especialmente o selo HBO, também é tema sensível.
Perspectivas e próximos passos
O conselho da Warner Bros. Discovery deve se pronunciar sobre a oferta rival da Paramount nas próximas duas semanas. Se mantiver a preferência pela Netflix, o acordo entrará em análise por reguladores nos EUA e em mercados internacionais importantes, como União Europeia e Brasil.
Enquanto isso, a disputa coloca pressão em outros estúdios independentes. Analistas ouvidos pelo 365 Filmes apontam que empresas como Lionsgate e AMC Networks podem virar alvo de consolidação caso a tendência de megafusões se confirme.
Resumo rápido
• Netflix ofertou US$ 82,7 bi pela Warner Bros. Discovery.
• Paramount respondeu com proposta de US$ 108,4 bi.
• Antes disso, Netflix discutiu internamente a compra da Disney, mas desistiu pelo risco à ação.
• Conselho da Warner analisará a oferta da Paramount em até 10 dias úteis.
• Sarandos garante que manterá lançamentos de cinema caso a aquisição seja concluída.
Com o desenrolar desse embate corporativo, o mercado de streaming se prepara para mudanças profundas que podem redefinir a experiência do público nos próximos anos.
