“Kokuho” chega aos cinemas brasileiros apenas em 6 de fevereiro de 2026, mas já carrega o prestígio de uma indicação ao Oscar e a reputação de teste de resistência. Com 174 minutos, o longa de Lee Sang-il acompanha três décadas de rivalidade, admiração e destruição entre dois atores de kabuki.
Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama interpretam, respectivamente, Kikuo Tachibana e Shunsuke Ogaki, artistas dedicados a papéis femininos dentro de uma tradição centenária. É sobre eles, sobre o diretor e sobre o roteiro que esta análise se debruça, mantendo o foco na performance e nos bastidores dramáticos que movem a produção.
Kabuki como campo de batalha emocional
Logo na abertura, “Kokuho” insere o espectador em Nagasaki, 1964, quando o pequeno Kikuo assiste ao assassinato do pai, um chefão da yakuza. A sequência gelada — neve branca cortada por sangue vermelho — se transforma em memória-símbolo, repetida ao longo da narrativa como gatilho psicológico. Lee cria, assim, uma atmosfera em que palco e vida real se confundem.
Esse ponto de partida permite que o roteiro de Satoko Okudera discuta o kabuki como rito de passagem. Os longos takes enfatizam o quão física é a arte: manter poses, controlar o peso do figurino e dos gestos. Quando o veterano Hanjiro Hanai (Ken Watanabe) decide acolher Kikuo e Shunsuke em sua companhia, fica evidente que o teatro será, para ambos, um misto de lar e campo de batalha. A tradição exige sucessão rígida; o talento natural do pupilo ameaça o herdeiro biológico. O filme usa essa tensão para questionar se a linhagem vale mais que a vocação.
Duelo de interpretações eleva a temperatura
Ryo Yoshizawa domina a câmera com um Kikuo impetuoso, disposto a sacrificar a própria saúde para alcançar o título de “tesouro vivo”. Seu olhar sustentado, quase sem piscar, traduz a concentração extrema exigida pelo kabuki. Cada inflexão de voz ou inclinação de punho revela controle técnico refinado, mas também uma fúria interna que o personagem mal consegue conter.
Ryusei Yokohama, por outro lado, opta por sutilezas que crescem com o tempo. Shunsuke parece recatado na infância, mas adota postura cada vez mais competitiva diante da ascensão do irmão postiço. O ator trabalha o ciúme como ferida aberta, nunca uma caricatura. No clímax, quando as carreiras se invertem em popularidade, ele posiciona ombros e queixo de maneira que evidencia a deterioração emocional.
É inevitável lembrar rivalidades de bastidores retratadas em filmes como “O Diabo Veste Prada”, que voltou recentemente ao topo do streaming. Aqui, porém, o jogo de poder está impregnado de tradição e hierarquia familiar, o que adiciona camadas culturais à disputa. O resultado são atuações que prendem a atenção mesmo nas repetições de ensaios, transformando micro-gestos em explosões dramáticas.
Imagem: Imagem: Divulgação
Direção e roteiro: precisão cirúrgica nos bastidores do kabuki
Lee Sang-il estrutura o filme em blocos temporais, sempre ligados a grandes encenações dentro do repertório kabuki. Essa escolha realça a evolução dos protagonistas sem recorrer a elipses abruptas. Ele mantém a câmera a uma distância que permite ler o corpo dos atores, mas registra closes pontuais para sublinhar a exaustão.
Satoko Okudera, roteirista de “Kokuho”, esmiúça temas espinhosos como masculinidade e sexualidade na arte, embora apenas arranhe alguns deles. A informação de que mulheres foram banidas do kabuki até meados do século XX surge logo numa cartela, preparando terreno para discussões sobre identidade que o filme menciona, mas não aprofunda. Ainda assim, a dupla direção-roteiro se equilibra entre demonstrar o espetáculo e mergulhar na intimidade dos artistas, lembrando que o palco é extensão da vida.
Forma e duração: virtudes e tropeços de um épico de três horas
A fotografia de Sofian El Fani replica a exuberância dos cenários kabuki, com cores vibrantes e iluminação frontal que reforça a artificialidade do palco. Há momentos em que a fusão entre cena teatral e cena cotidiana é tão fluida que não se sabe onde termina a performance. Essa abordagem remete a leituras contemporâneas sobre metalinguagem, conceito explorado também em cinebiografias recentes — basta lembrar algumas das produções listadas em 10 cinebiografias imperdíveis dos últimos dez anos.
Por outro lado, a duração estendida traz riscos. O roteiro ocasionalmente repete a dinâmica “treino, apresentação, briga” sem adicionar novas nuances. Há certa sobrecarga de diálogos expositivos sobre valores tradicionais japoneses, o que desacelera a trama. Mesmo assim, a cadência cansativa cede espaço a pequenas explosões de genialidade, principalmente quando os irmãos dividem o palco — ou a dor.
Vale a pena assistir Kokuho?
Para quem se interessa por filmes sobre obsessão artística, “Kokuho” oferece uma experiência intensa, sustentada por performances cheias de vigor físico e emocional. A direção de Lee Sang-il mostra domínio formal, ainda que nem sempre consiga escapar da repetição. Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama entregam um estudo de personagens que ressoa muito além das cortinas do kabuki. É cinema de fôlego, que desafia tanto os protagonistas quanto o público. 365 Filmes recomenda reservar uma tarde — e a mente — para encarar esse mergulho na alma de quem vive para o palco.
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