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Jimpa emociona ao expor feridas familiares e confirma talento de Olivia Colman e John Lithgow

Por Matheus Amorim5 Minutos de leitura

Exibido pela primeira vez no Festival de Sundance de 2025, Jimpa reúne Olivia Colman, John Lithgow e o estreante Aud Mason-Hyde em um drama que foca na colisão entre três gerações. Ao longo de 123 minutos, o longa examina as marcas deixadas por um abandono antigo e a forma como diferentes vivências queer se chocam — ou se abraçam.

Dirigido por Sophie Hyde, que assina o roteiro ao lado de Matthew Cormack, o filme acompanha a visita de Hannah e seu adolescente não binário Frances à casa do patriarca Jim, em Amsterdã. A estadia desencadeia um turbilhão de questionamentos sobre afeto, lealdade e liberdade, impulsionados por atuações que evitam artificialidade e privilegiam a vulnerabilidade.

Conflitos geracionais dão o tom de Jimpa

O ponto de partida do roteiro é simples: Frances pede para passar um ano ao lado do avô recém- reencontrado. Esse desejo coloca Hannah diante do trauma que ela jura não existir: a saída de Jim da família, ainda nos anos 1980, para viver abertamente como homem gay em Amsterdã. O texto de Hyde e Cormack utiliza a tensão desse triângulo para expor rachaduras deixadas pelas escolhas de cada um.

Mesmo quando a narrativa se debruça sobre temas amplos — como direitos LGBTQIA+ ou mudanças na linguagem de gênero —, o foco permanece na intimidade. A montagem alterna pequenas explosões de humor com silêncios desconfortáveis, lembrando a estrutura emocional de dramas familiares contemporâneos, a exemplo de produções que, como King Kong de Peter Jackson, conjugam escala e emoção sem perder de vista o núcleo humano.

Olivia Colman transforma a contenção em drama

No papel de Hannah, Olivia Colman confirma sua reputação de extrair camadas mesmo de gestos contidos. A atriz opta por olhares evasivos e leves tremores de voz para mostrar uma mulher acostumada a evitar conflitos. Quando a personagem tenta convencer colegas de trabalho de que o abandono paterno “não mexeu” com ela, Colman deixa transparecer o oposto em microexpressões breves, mas cortantes.

É nessa ambiguidade que surge a força da performance: a mãe que se considera progressista vê sua moral ser testada quando precisa confiar no homem que a feriu — e, sobretudo, abrir mão do controle sobre o futuro de Frances. A entrega da atriz faz lembrar o delicado equilíbrio entre emoção e técnica visto em papéis celebrados de Hollywood, como o solo dramático de Scarlett Johansson em Lucy.

John Lithgow e Aud Mason-Hyde elevam o debate queer

John Lithgow abraça a excentricidade de Jim, professor e ativista que exibe uma vida hedonista, repleta de amantes e livros empilhados. O ator, porém, evita o estereótipo do “velho libertário” ao revelar fraquezas: a dificuldade em entender termos mais recentes sobre identidade de gênero e a culpa tardia por ter abandonado as filhas em Adelaide.

Já Aud Mason-Hyde, filhe da própria diretora, surge como grande revelação. Seu Frances oscila entre a audácia adolescente e a insegurança de quem ainda descobre o mundo. Nas cenas compartilhadas com Colman e Lithgow, o jovem intérprete serve de ponte — às vezes pacificadora, às vezes bomba-relógio — entre dois polos de uma mesma luta por autenticidade. É um trabalho de escuta e resposta que confere frescor à dinâmica de um elenco veterano.

Vale notar como Hyde filma esses encontros: close-ups prolongados, câmera à altura do olhar e movimentos suaves que permitem ao espectador perceber nuances de desconforto. A estratégia repete virtudes vistas em outros sucessos independentes que priorizam performances, como o terror Iron Lung, em que a economia de cortes favorece o mergulho psicológico.

Direção de Sophie Hyde sustenta a honestidade do roteiro

Além de cultivar atmosferas íntimas, Sophie Hyde injeta humor pontual para evitar que o drama pese demais. Piadas sobre relacionamentos heterossexuais ou pequenas confusões de pronome servem para ilustrar o abismo — e simultânea proximidade — entre os três protagonistas. A própria diretora extrai da vida pessoal elementos que conferem autenticidade, mas não transforma Jimpa em autobiografia pura: suas escolhas visuais se impõem como comentário artístico.

Há, porém, espaços que o roteiro deixa em aberto. Certos arcos — como a relação de Hannah com a irmã ou o projeto documental que ela filma — se encerram com menos ênfase que o espectador poderia esperar. Ainda assim, Hyde prefere acolher a desordem emocional a oferecer respostas fáceis, decisão que mantém a coerência com a proposta de mostrar personagens lidando com questões que não se resolvem em um único verão europeu.

Vale a pena assistir a Jimpa?

Para quem busca um drama centrado em atuação, Jimpa entrega um trio interpretativo capaz de carregar a narrativa mesmo nos trechos em que o texto dispersa. Olivia Colman domina o desconforto, John Lithgow confere carisma agridoce ao avô libertário e Aud Mason-Hyde prova ser nome a acompanhar.

A direção de Sophie Hyde conjuga ternura e urgência, propondo um diálogo entre diferentes fases da experiência queer sem recorrer a discursos panfletários. Embora alguns subtemas fiquem apenas insinuados, a honestidade emocional compensa qualquer excesso de ambição.

Em resumo, Jimpa se destaca como uma reflexão sensível sobre família e identidade, sustentada por performances que merecem atenção. Não à toa, o longa fortalece a reputação do Festival de Sundance como vitrine de obras que aliam representatividade e rigor artístico — e garante ao público do 365 Filmes um título que deve deixar conversa para depois da sessão.

Matheus Amorim

Sou Matheus Amorim Paixão, redator, crítico e fundador do 365Filmes. Com trajetória consolidada no mercado digital desde 2021, especializei-me em crítica cinematográfica e análise de tendências no streaming. Minha autoridade foi construída através de passagens por portais de referência como Cultura Genial, TechShake e MasterDica, onde desenvolvi um rigor técnico voltado à curadoria estratégica e experiência do espectador. No 365 Filmes, meu compromisso é entregar análises fundamentadas e honestidade intelectual, conectando audiências às melhores narrativas da sétima arte.

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