Um ano do segundo mandato não consecutivo de Donald Trump já se passou, mas o eco do ataque ao Capitólio segue vivo em “Homegrown”.
O documentário de Michael Premo mergulha no universo dos Proud Boys e de aliados de extrema direita, mostrando bastidores até então inéditos.
Durante quase duas horas, Premo oferece acesso íntimo a líderes locais, esposas e simpatizantes que participaram das manifestações “Stop the Steal”.
A proposta é humanizar essas figuras, porém a execução gera debate, especialmente quando o foco se dispersa na segunda metade.
Quem são os personagens centrais de Homegrown
O documentário Homegrown acompanha principalmente Thad Cisneros, ex-líder da célula dos Proud Boys em Salt Lake City, e Chris Quaglin, carpinteiro de Nova Jersey que participou da invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
Quaglin recebeu pena inicial de 12 anos, reduzida para quatro após indulto de Trump, enquanto Cisneros foi expulso do grupo por dialogar com líderes locais do Black Lives Matter.
Thad Cisneros: o dissidente inconformado
Cisneros procura pontes com adversários ideológicos, algo visto como traição pela organização. Sua história evidencia as contradições de um grupo que nega supremacismo branco, mas flerta com facções neonazistas.
Chris Quaglin: a face do extremismo comum
Armado até os dentes, Quaglin demoniza imigração e antifa, repete slogans contra direitos civis e viajou à capital mesmo com a esposa grávida de oito meses. Ele ilustra a militância que transforma frustração econômica em ódio racial.
Da indignação ao extremismo político
Premo mostra como queixas legítimas, como o abismo de renda nos Estados Unidos, se convertem em discursos violentos. Cisneros, por exemplo, disse ter migrado para a direita após assistir ao documentário “Fahrenheit 9/11”, de Michael Moore.
O filme ressalta a lógica de “inimigos internos”: negros, comunidade LGBTQIA+ e migrantes viram alvo de um ressentimento que poupa bancos e grandes corporações.
Imagem: Imagem: Divulgação
Primeira metade envolvente
Nos 60 minutos iniciais, Homegrown brilha ao mostrar assembleias acaloradas, debates sobre alianças e o mantra “somos chauvinistas ocidentais” repetido pelos participantes.
Ver a ruptura interna — parte querendo dialogar, parte exigindo pureza ideológica — oferece um retrato nu e cru de como o extremismo se organiza e se vende como defensor de “valores tradicionais”.
Diálogos que prendem o espectador
Cenas de Cisneros negociando com Jacarri Kelley, dirigente do Black Lives Matter em Utah, expõem a tensão entre aproximação e ódio. Esse material raro entrega ao público do 365 Filmes a sensação de estar dentro da sala.
Quando o ritmo desaba
Após a marca da uma hora, o documentário Homegrown passa a repetir conversas e close-ups que não adicionam novas camadas. A proximidade vira desgaste: insultos homofóbicos e comentários racistas se acumulam sem análise que justifique o tempo de tela.
Mesmo a mudança de vida de Quaglin — divorciado após deixar a prisão — é mostrada de forma superficial, sem gerar reflexão sobre arrependimento ou transformação.
Falta de mensagem clara
Ao final, paira a dúvida: o que Premo deseja que o público conclua? O filme aponta as raízes caseiras do extremismo, mas não discute como erradicá-las. A ausência de direcionamento enfraquece o impacto.
Ficha técnica e datas importantes
Direção: Michael Premo
Produção: Jenny Raskin, Lauren Haber, Alysa Nahmias, Nina Sing Fialkow, David Fialkow e James Costa
Duração: 109 minutos
Lançamento inicial: 13 de setembro de 2024
Disponibilidade em streaming: exclusivo na plataforma GATHR a partir de 6 de janeiro de 2026
Mesmo irregular, o documentário Homegrown oferece material valioso sobre conflitos internos dos Proud Boys e sobre como a retórica de “chauvinismo ocidental” seduz pessoas comuns. Para quem busca compreender as raízes do 6 de janeiro, pode ser combustível para muitas reflexões.
