Em 1982, Steven Spielberg lançou E.T. o Extraterrestre e, em poucas semanas, mudou o rumo da ficção científica no cinema. O longa não só quebrou recordes de público como também influenciou – e até prejudicou – o desempenho de concorrentes lançados no mesmo período.
Quatro décadas depois, fãs e críticos ainda discutem como o alienígena amigo de Spielberg eclipsou obras que só seriam reconhecidas anos mais tarde. A equipe do 365 Filmes revisitou dados de bilheteria e críticas para entender esse efeito dominó.
O fenômeno de 1982: E.T. o Extraterrestre invade os cinemas
Sucesso de crítica e público
Lançado em junho de 1982, E.T. o Extraterrestre estreou como uma aventura familiar sobre a amizade entre um garoto, Elliott, e um alienígena deixado para trás por engano em plena tentativa de coleta científica na Terra. A simplicidade emocional atraiu plateias de todas as idades, que buscavam leveza em meio às tensões da Guerra Fria.
Críticos elogiaram a sensibilidade de Spielberg e a trilha sonora de John Williams, consolidando o longa como o “evento” cinematográfico do ano. O índice de aprovação chegou a 99% em grandes agregadores de reviews.
Números impressionantes de bilheteria
Em apenas doze meses, o filme acumulou US$ 619 milhões globalmente – quantia que, corrigida pela inflação, ultrapassa US$ 2,3 bilhões. O resultado tirou de Star Wars o posto de maior arrecadação da história até então.
O impacto foi sentido também fora das salas. O simples destaque aos confeitos Reese’s Pieces gerou aumento de 65% nas vendas da Hershey. Havia clubes de fãs, discos de vinil com falas do longa e uma avalanche de produtos licenciados.
Como a chegada de E.T. impactou outros lançamentos de ficção científica
Blade Runner e o desafio do público
Duas semanas após E.T., Ridley Scott levou aos cinemas Blade Runner, filme noir futurista estrelado por Harrison Ford. A proposta, mais sombria e filosófica, contrastava com a ternura alienígena de Spielberg. Resultado: US$ 41,8 milhões de bilheteria mundial diante de um orçamento de US$ 30 milhões.
Parte da imprensa criticou o ritmo considerado lento, e o público, ainda sob o encanto do alienígena amável, mostrou pouco apetite por androides existencialistas em uma Los Angeles decadente.
O terror gelado de O Enigma de Outro Mundo
No mesmo mês de junho, John Carpenter entregou O Enigma de Outro Mundo (The Thing). Ambientado na Antártica, o longa exibia um alien hostil capaz de imitar qualquer forma de vida. As cenas gráficas de horror corporal chocaram espectadores que buscavam esperança após o contato “fofinho” com E.T.
Imagem: Imagem: Divulgação
O resultado foi um faturamento de US$ 19,6 milhões, pouco acima do orçamento de US$ 15 milhões, além de críticas majoritariamente negativas na época. Carpenter chegou a perder a direção do projeto Firestarter, adaptação de Stephen King, devido ao desempenho fraco.
Reabilitação crítica: dos fracassos aos clássicos cult
A virada de Blade Runner
Anos 1990 adentro, Blade Runner ganhou status de obra-prima graças a exibições em VHS, reprises na TV e ao lançamento de cortes alternativos que aprofundaram sua discussão sobre humanidade e tecnologia. Atualmente, detém 89% de aprovação em sites especializados e figura em listas de melhores ficções científicas de todos os tempos.
A redescoberta de O Enigma de Outro Mundo
Também pelo mercado de home video, O Enigma de Outro Mundo foi revisitado e reavaliado. Hoje, soma 85% de aprovação crítica e 92% de aprovação do público. Os efeitos práticos, antes considerados excessivos, passaram a ser celebrados como referência em horror e maquiagem.
Ainda há espaço para todos os extraterrestres
Com E.T. o Extraterrestre mantendo 99% de aprovação e dois concorrentes transformados em clássicos cult, o saldo histórico mostra que o sucesso de Spielberg não “matou” Blade Runner nem O Enigma de Outro Mundo. O que ocorreu foi um deslocamento temporário, corrigido pelo interesse tardio de cinéfilos e críticos.
Ainda assim, é inegável que a maré otimista impulsionada por E.T. moldou o gosto do público naquele ano, dificultando a vida de narrativas pessimistas ou violentas. Quatro décadas depois, todos coexistem no panteão da ficção científica, lembrando que o gênero comporta tanto abraços interplanetários quanto caçadas sombrias em becos chuvosos ou bases polares.
Com a previsão de Disclosure Day para 2026, Steven Spielberg sinaliza um retorno ao terreno alienígena que lançou sua lenda. Se a recepção repetirá o feito de 1982, só o tempo dirá, mas a história registra que um pequeno ser de dedos luminosos foi capaz de mudar para sempre o curso da ficção científica no cinema.
