Timothée Chalamet voltou a causar barulho em Hollywood com “Marty Supreme”, longa dirigido por Josh Safdie que já desponta como potencial concorrente ao Oscar de 2026. O drama esportivo, repleto de humor ácido e tensão, acompanha a obstinação de Marty Mauser rumo ao topo do tênis de mesa mundial. Pouca gente, porém, sabia que o corte inicial trazia um final digno de filme de terror.
Safdie revelou, em conversa para o podcast da A24, que o desfecho original incluía uma virada sobrenatural: o empresário Milton Rockwell, vivido por Kevin O’Leary, se revelaria vampiro e atacaria o protagonista em plena década de 1980. A cena foi rodada parcialmente, com próteses preparadas para Chalamet, mas acabou excluída após objeções do estúdio. Ainda assim, o diretor defende que a ideia dialogava com temas centrais da narrativa, como a sensação de atemporalidade presente na trilha sonora.
Atuações que sustentam a tensão constante em “Marty Supreme”
Do primeiro ao último minuto, “Marty Supreme” se apoia na entrega de Chalamet. O ator explora nuances do personagem: o olhar alucinado durante as partidas contrasta com a fragilidade exposta nas cenas pessoais. Ele traduz o triplo conflito de Marty — ambição, culpa e vaidade — sem recorrer a melodrama; pequenos gestos e silêncios surgem como extensão do texto de Safdie e Ronald Bronstein.
Kevin O’Leary, já conhecido do público pela persona de “Mr. Wonderful” no mundo dos negócios, assume Milton Rockwell com surpreendente desenvoltura. Seu momento mais marcante, a fala “nasci em 1601, sou vampiro”, nasceu de improviso e se tornou metáfora para o poder que atravessa séculos. Ao lado dele, Gwyneth Paltrow interpreta Kay Stone, atriz em crise profissional que se envolve com Marty. Paltrow conjuga charme e amargura, reforçando o abismo entre fama e relevância.
Direção de Josh Safdie: caos controlado e energia pulsante
Josh Safdie, metade da dupla responsável por “Uncut Gems”, emprega aqui a mesma câmera inquieta, mas adapta o ritmo ao microcosmo do tênis de mesa. Planos fechados sobre a bolinha em alta velocidade criam uma atmosfera quase claustrofóbica, enquanto cortes abruptos colocam o espectador dentro da mente obsessiva de Marty. O resultado é um filme que faz o público suar mesmo fora da quadra.
Safdie também articula com precisão a passagem do tempo. A sequência do show do Tears for Fears — que sobreviveria mesmo sem a mordida vampírica — situa Marty numa era de reverência à juventude. A música “Everybody Wants to Rule the World” pontua a contradição: ele alcança fama, mas parece distante da vocação verdadeira. Essa escolha musical acentua o conceito de “passado perseguindo o futuro” citado pelo diretor.
Roteiro de Ronald Bronstein e Josh Safdie: humor sombrio e comentários sociais
A dupla de roteiristas transforma o universo aparentemente banal do tênis de mesa em arena de simbolismos. A proposta de Rockwell para Marty perder o jogo no Japão ilustra a exploração de talentos em nome do capital. Quando o plano fracassa, o protagonista descobre que a vitória não garante autonomia — crítica sutil ao esporte como espetáculo corporativo.
Imagem: Imagem: Divulgação
Ainda que o final oficial traga reconciliação familiar, o roteiro faz questão de deixar arestas. O retorno de Marty para ver a filha recém-nascida fecha o arco emocional, mas não dissolve as consequências de suas escolhas. Essa ambiguidade evita o tom edificante e preserva a melancolia que corre por todo o filme.
O final alternativo com vampiros: por que foi descartado?
O universo de “Marty Supreme” já abraça exageros: cenas em Tóquio lembram videogames neon, e diálogos cheios de tiradas hiperbólicas. Mesmo assim, a A24 considerou a virada sobrenatural um passo além. Safdie admitiu que o estúdio temia a reação do público — a mistura de drama esportivo com horror poderia desviar o foco das atuações e da crítica social.
Contudo, os elementos do roteiro que aludem à imortalidade permanecem. A frase improvisada de O’Leary sobre ter séculos de vida ecoa a sensação de que certos poderes, financeiros ou políticos, parecem eternos. Ao suprimir a mordida final, Safdie não abandona o subtexto; apenas confia que o espectador fará as conexões sem precisar de sangue na tela.
Vale a pena assistir?
Com 93 % de aprovação no Rotten Tomatoes e presença garantida em premiações, “Marty Supreme” justifica a expectativa. A direção de Safdie mantém a adrenalina, o roteiro provoca reflexão, e Timothée Chalamet entrega uma das performances mais intensas da carreira. Para leitores do 365 Filmes que buscam um drama esportivo fora do convencional — com pitadas de comédia sombria e ameaças vampíricas que flertam com o absurdo — o ingresso está mais que recomendado.
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