Uma morte acidental no meio de uma vernissage transforma a nova comédia dramática de Cathy Yan em um estudo sobre ambição, moralidade e curtidas. Com 88 minutos, The Gallerist estreou no Festival de Sundance de 2026 prometendo cutucar o elitismo das artes plásticas.
O filme reúne Natalie Portman, Jenna Ortega, Catherine Zeta-Jones, Da’Vine Joy Randolph e Daniel Brühl, mas a química entre eles se perde em um tom que oscila entre farsa e melodrama. A seguir, o 365 Filmes destrincha o que funciona e o que emperra na produção.
Enredo e ambientação: humor negro em temperatura morna
Polina Polinski (Portman) administra uma galeria instalada onde antes funcionava um Jiffy Lube, metáfora óbvia da gentrificação. O vernissage de uma mostra assinada por Stella Burgess (Randolph) vira palco de desastre quando o influenciador Dalton Hardberry (Zach Galifianakis) escorrega em uma goteira e se empala em uma escultura de emasculador bovino.
Em vez de acionar a polícia, Polina decide “incorporar” o cadáver à instalação e vendê-lo como arte radical para bilionários colecionadores. A premissa abraça o absurdo, porém Yan prefere a exposição direta dos fatos a piadas viscerais. Falta o sarcasmo corrosivo que, por exemplo, Gregg Araki tentou alcançar na colorida, porém problemática, I Want Your Sex.
Atuações em registro desigual entre o camp e o minimalismo
Natalie Portman aposta em gestos largos e voz sempre um tom acima, flertando com o exagero teatral. A escolha até dialogaria com a estética de Pedro Almodóvar, mas o roteiro não sustenta essa intensidade, deixando a performance solta no vazio.
Jenna Ortega, como a assistente Kiki, espelha o mesmo nervosismo, enquanto Catherine Zeta-Jones surge rígida, quase apática, como a negociante Marianne Gorman. Daniel Brühl diverte ao compor um comprador espanhol de moral frouxa e bolsos profundos; é o único que parece ter entendido a comédia. Já Da’Vine Joy Randolph, dona de uma presença carismática, é subaproveitada, situação parecida com a de personagens importantes em obras recentes como o documentário Silenced.
Direção de Cathy Yan oscila entre sátira e melodrama
Yan entrega enquadramentos inclinados — a câmera de Federico Cesca vive em “Dutch angle” — para sugerir um navio que afunda, metáfora eficiente para a falência moral do ambiente. No entanto, a cineasta se mostra menos segura ao conduzir o elenco: cada ator parece atuar em um filme diferente.
Imagem: Imagem: Divulgação
As melhores sequências surgem quando Yan abraça o ridículo, como na negociação clandestina para esconder o “novo protótipo” de Burgess em uma coleção privada. São momentos que lembram o tom distópico que o elenco de Worldbreaker tentou sustentar, mas que aqui ganham ritmo mais dinâmico, embora sem chegar a causar impacto.
Roteiro mira alvos fáceis no mundo da arte contemporânea
Assinado por Yan e James Pedersen, o texto atira no oportunismo de galeristas que lucram com discursos antirracistas, mas evita mergulhar no desconforto real. Burgess, artista negra cuja obra dialoga com heranças de escravidão, acaba relegada a coadjuvante, enfraquecendo as interrogações políticas.
Os diálogos preferem alfinetadas sobre preços inflacionados e colecionadores que veem relevância social como investimento. O problema é que essas piadas já são conhecidas de qualquer visitante de feira de arte. Falta atrevimento para escalar o cinismo, algo que documentários mais contundentes conseguem, como “Who Killed Alex Odeh?”, que expõe violência anti-palestina de forma mais incisiva (confira aqui).
Vale a pena assistir ‘The Gallerist’?
Para quem se interessa pelas engrenagens do mercado de arte e gosta de observar grandes elencos em registros díspares, The Gallerist oferece curiosidade e estética polida. Contudo, quem busca sátira afiada encontrará humor diluído e personagens pouco explorados. O longa funciona como vitrine de vaidades, mas não sustenta o espelho que promete erguer diante do público.
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