Gregg Araki voltou aos longas depois de mais de uma década longe dos holofotes e, como era de se esperar, causou falatório em Sundance 2026. Em I Want Your Sex, o diretor mira na liberdade sexual da geração Z, mas acerta em cheio em um retrato confuso onde crítica social e fetichização do abuso caminham lado a lado.
O resultado é um filme visualmente vibrante, repleto de performances corajosas, porém incapaz de decidir se quer provocar gargalhadas ácidas ou levantar um debate real sobre consentimento. O público sai dividido: alguns enxergam uma sátira pop-art bem-humorada; outros veem um exercício perigoso de banalização da violência sexual.
Elenco se entrega a personagens extremos
Olivia Wilde é o centro gravitacional da trama como Erika Tracy, artista performática que ostenta peças gigantes inspiradas em brinquedos eróticos e fotografa amantes em cores berrantes. A atriz abraça o exagero da personagem sem medo de soar caricata, desfilando figurinos dignos do Met Gala e uma arrogância quase cartunesca. Esse comprometimento mantém a atenção do espectador mesmo quando o roteiro força situações que beiram o nonsense.
Contraponto perfeito, Cooper Hoffman interpreta Elliot, assistente e “brinquedo humano” de Erika. Sua postura permanentemente confusa e a expressão de cachorro molhado garantem empatia imediata, transformando o personagem em alvo fácil para os jogos de poder da patroa. A química entre Wilde e Hoffman sustenta o primeiro ato, ainda que o arco de ambos perca fôlego conforme os choques se repetem.
O elenco de apoio, no entanto, recebe menos espaço. Johnny Knoxville e Margaret Cho surgem como investigadores encarregados de esmiuçar a relação entre Erika e Elliot, mas o texto lhes entrega apenas piadas pontuais. Já Mason Gooding, escalado como um bon vivant de impulsos sexuais tão radicais quanto os de Erika, parece preso a um estereótipo datado, lembrando como certos clichês sobre homossexualidade resistem em roteiros supostamente progressistas.
Direção aposta na estética pop, mas o conteúdo não acompanha
Araki filma tudo em tons neon, lembrando videoclipes dos anos 1990. A fotografia candy-color conversa com o discurso de Erika sobre vender artifícios como se fossem grandes verdades artísticas. Visualmente, o diretor segue afiado: cada quadro exibe composições geométricas e figurinos extravagantes que reforçam a ideia de arte como espetáculo.
O problema está na coerência temática. Ao questionar “por que os jovens fazem menos sexo?”, o cineasta emula um boomer invertido, indignado porque a geração atual prefere limites claros a rompantes de promiscuidade. Entretanto, em vez de investigar razões sociais ou afetivas, o roteiro de Araki e da especialista em sexualidade Karley Sciortino se contenta em transformar abuso em gag recorrente. Erika, por exemplo, desperta prazer ao humilhar Elliot, e o longa raramente mostra as consequências psicológicas desse padrão.
Esse distanciamento crítico faz o espectador se perguntar se o diretor quer satirizar a romantização da toxicidade ou simplesmente reproduzi-la. A dúvida prejudica a construção de tensão, deixando a narrativa sem bússola moral — algo que já aconteceu em outras produções que tentam equilibrar choque e comentário social, como o mockumentary The Moment, estrelado pela mesma Charli XCX que aqui interpreta a namorada científica de Elliot.
Roteiro mistura crítica ao mercado de arte e fábula sexual
A estrutura se desenrola em flashbacks a partir de um possível crime: Erika é encontrada desmaiada na piscina, enquanto Elliot desperta coberto de sangue e lingerie. A investigação policial serve de gancho para revisitar nove semanas e meia de relacionamento, ecoando o clássico erótico dos anos 1980. Porém, a sátira ao círculo de galerias e colecionadores, que às vezes beira o brilhante, perde foco diante do tratamento leviano da violência.
Imagem: Imagem: Divulgação
Quando a dupla invade vernissages ou recebe críticas entusiasmadas de curadores que “compram” qualquer provocação, o texto mostra a verve venenosa que o público espera de Araki. O espectador ri do cinismo mercadológico e identifica semelhança com documentários recentes sobre bastidores artísticos, como The Oldest Person in the World, que também questiona a fronteira entre arte e espetáculo. No entanto, basta a narrativa voltar ao relacionamento Erika-Elliot para que a crítica esmoreça e vire repetição de abuso mascarado de libertinagem.
Outro ruído está na abordagem à diversidade sexual. Apesar de envolver personagens queer e discursos de amor livre, I Want Your Sex não explora nuances de poliamor ou consentimento — temas caros à geração Z. Ao preferir o choque ao aprofundamento, a obra soa paradoxalmente careta, quase conservadora, algo que o site 365 Filmes já apontou em outras produções que confundem provocação com substância.
Atuações salvam o clima de festa decadente
A energia do elenco evita que o filme desande por completo. Olivia Wilde transforma Erika em uma vilã magnética, reminiscente de figuras pop como Madonna na fase BDSM. Cooper Hoffman reforça a imagem de voz dissonante de sua geração: ele ri, chora e se entrega às ordens mais bizarras com um misto de ingenuidade e resignação que potencializa o absurdo.
Mesmo subaproveitados, Knoxville e Cho criam momentos de humor físico que lembram esquetes de TV, enquanto Charli XCX, em participação pequena, comprova a versatilidade já demonstrada em outros projetos audiovisuais. Essa soma de talentos sustenta o ritmo, porém evidencia que a maior falha reside no texto, não nas interpretações.
Quando o longa se inclina ao escracho total, a sensação é de assistir a um carnaval erótico à beira de um precipício. Contudo, sempre que tenta “dizer algo importante” sobre juventude e sexo, falta estofo. Essa instabilidade faz alguns críticos lembrarem produções recentes que tentaram renovar mitos de terror ou fantasia e acabaram dividindo plateias, a exemplo de Return to Silent Hill.
Vale a pena assistir a I Want Your Sex?
Para quem acompanha a filmografia de Gregg Araki, I Want Your Sex funciona como curiosidade visual: 90 minutos de cores fluorescentes, trilha pulsante e performances que abraçam o ridículo. Os amantes de sátiras sobre o mundo da arte talvez encontrem momentos inspirados. Já o público atrás de discussões sérias sobre limites e consentimento pode sair frustrado com a superficialidade do roteiro.
Em resumo, o filme se mantém na zona morna: divertido em lampejos, indignante em outros, nunca tão ousado quanto promete. A técnica de Araki salva imagens impactantes, mas a mensagem flutua sem ancoragem, como Erika adormecida na piscina — bonita de se ver, porém perigosamente rasa.
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