Exibido em 27 de janeiro no Festival de Sundance 2026, See You When I See You adapta as memórias de Adam Cayton-Holland para narrar a tentativa de um jovem de organizar o próprio luto após o suicídio da irmã. Sob direção de Jay Duplass, o longa de 102 minutos investe na terapia EMDR como ferramenta narrativa e apresenta um elenco encabeçado por Cooper Raiff e Kaitlyn Dever.
Com produção de Kumail Nanjiani, Emily V. Gordon e do próprio autor do livro, o projeto promete emoção bruta, mas encontra fissuras no caminho. A seguir, o 365 Filmes destrincha o que funciona — e o que emperra — na mais recente aposta dramática do cineasta texano.
Direção de Jay Duplass busca visceralidade, mas tropeça no compasso
Duplass adota câmera inquieta, closes longos e cortes abruptos para espelhar a mente em turbulência do protagonista. A escolha cria momentos íntimos, principalmente nas sessões de EMDR, quando vibrações táteis e ruídos alternados simulam o esforço de arquivar lembranças dolorosas sem apagá-las. Em vez de verbalizar teorias terapêuticas, o diretor prefere instigar sensações — recurso que evita didatismo e insere o espectador dentro do procedimento clínico.
Essa mesma urgência, porém, cobra seu preço. Saltos temporais aparecem sem transição, subtramas surgem e desaparecem antes de maturar e algumas resoluções parecem apressadas. O resultado lembra dramas que entregam impacto emocional, mas deixam pontas soltas, caso de Pieces of a Woman, embora lá o foco recai sobre o parto traumático e não sobre o suicídio.
Roteiro adapta memórias e expõe fraturas familiares
Assinado por Duplass ao lado de Adam Cayton-Holland, o texto investe no conflito interno de Aaron — culpa, horror e o desejo de eternizar a irmã artista. Cada familiar carrega estratégia própria para suportar a ausência: o pai, vivido por David Duchovny, coleciona objetos de Leah; a mãe, interpretada por Hope Davis, mergulha em causas ambientais; já a irmã mais velha transforma dor em listas e planilhas.
O material biográfico fornece autenticidade, mas nem sempre converte memória em drama cinematográfico coeso. Há diálogos que soam transcritos da página e não lapidados para a tela. Além disso, o romance entre Aaron e a enfermeira Camila (Ariela Barer) serve de alívio, mas carece de tempo para respirar. Quando a narrativa pede imersão plena no luto, surgem cenas leves que quebram a tensão — cortesia de um ritmo que oscila entre contemplação e urgência.
Elenco entrega sinceridade desigual, com lampejos de força
Cooper Raiff domina a tela em trechos cômicos, onde a naturalidade do ator — conhecida desde Cha Cha Real Smooth — se impõe sem esforço. Ao encarar explosões de raiva ou crises de pânico, entretanto, o intérprete escorrega em excesso de teatralidade, diluindo a dor que o roteiro pede. Kaitlyn Dever, vista apenas em flashbacks como Leah, aproveita pouco tempo de cena para criar a aura vibrante que justifica o impacto da ausência.
No núcleo familiar, Duchovny e Hope Davis concentram o maior peso dramático. Ele transita entre ressentimento e ternura, enquanto ela equilibra ativismo e vulnerabilidade, especialmente quando paira a suspeita de câncer. Ambos constroem rachaduras conjugais verossímeis, mas as resoluções chegam rápidas demais. Já Ariela Barer injeta carisma espontâneo, embora sua química com Raiff pareça prensada por um cronômetro invisível.
Imagem: Imagem: Divulgação
Construção sonora e visual reforça a experiência da terapia EMDR
Um dos trunfos de See You When I See You reside na maneira como traduz tecnicamente o EMDR. Duplass usa metades da tela piscando em cores alternadas, sons que pulam de um fone a outro e vibrações registradas pelo design de som para representar as “pontes” neurais redesenhadas durante a sessão. A estratégia amplia o entendimento do público sem recorrer a longos monólogos explicativos.
Apesar da criatividade, a repetição do recurso em diferentes pontos do filme provoca leve sensação de déjà-vu. A cada nova sessão, diminui o impacto e aumenta a percepção de fórmula. Ainda assim, a tentativa de colocar o espectador dentro da cabeça traumatizada de Aaron merece reconhecimento, sobretudo em comparação com produções que abordam saúde mental de forma puramente expositiva.
Vale a pena assistir a See You When I See You?
Para quem busca um retrato direto da dor pós-suicídio, o longa oferece honestidade rara. A direção não romantiza o luto nem propõe atalhos fáceis, e a estética das sessões de EMDR traz frescor a um tema que costuma cair em clichês. Os fãs de dramas familiares encontrarão ecos de obras que exploram culpa e reparação, ainda que o filme não atinja o mesmo refinamento de títulos premiados.
Por outro lado, o ritmo irregular pode afastar espectadores que preferem arcos fechados e progressão constante. As idas e vindas sem aviso, somadas a resoluções apressadas, provocam sensação de quebra — como se pedaços importantes tivessem ficado na sala de edição. Quem valoriza coesão narrativa talvez sinta falta de lapidação adicional.
No balanço, See You When I See You se sustenta mais pelo tema potente e pela tentativa criativa de visualizá-lo do que pelo conjunto inteiro. Se o assunto luto, performances emotivas e experimentação formal lhe atraem, vale reservar 102 minutos. Caso prefira dramas de construção meticulosa, talvez seja melhor procurar outras opções no catálogo de 2026.
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