A Morte de um Unicórnio, disponível no Prime Video, é o tipo de filme que começa com uma premissa absurda e vai ficando cada vez mais desconfortável justamente porque ela faz sentido no mundo real: se uma família bilionária encontrasse uma criatura mágica, qual seria a primeira reação? Cuidar? Respeitar? Ou transformar em produto? Alex Scharfman escolhe a terceira opção e faz disso uma sátira cruel, com humor sombrio, suspense e terror pontuados por fantasia.
Na história, Elliot (Paul Rudd) e a filha Ridley (Jenna Ortega) atropelam um unicórnio durante uma viagem a um retiro corporativo. Sem coragem de lidar com a consequência, eles levam o cadáver para o local onde está Dell Leopold, chefe de Elliot e CEO da indústria farmacêutica. A partir daí, o “acidente” vira laboratório: a família decide experimentar o corpo do animal e descobre propriedades curativas sobrenaturais no sangue, na carne e, principalmente, no chifre. É quando a ganância assume o volante e o filme revela sua intenção: mostrar como o elitismo e a exploração corporativa conseguem profanar até o impossível.
Aviso: a explicação abaixo entrega os principais acontecimentos do fim do filme, incluindo quem sobrevive, por que Elliot morre e como os unicórnios interferem no destino dos protagonistas.
O que acontece no final e por que tudo vira um massacre
Quando os Leopold entendem o potencial comercial do unicórnio, o filme deixa de ser “comédia estranha” e vira pesadelo. A família passa a tratar a criatura como matéria-prima, e isso atrai exatamente aquilo que eles ignoram: consequência. É nesse ponto que o filme acerta na crítica social. Não é um terror sobre monstros, e sim sobre pessoas ricas acreditando que tudo existe para servi-las. O resultado é um massacre, com os personagens mais ligados à ciência predatória e ao lucro pagando o preço mais alto. A violência é uma resposta do mundo mágico ao mundo corporativo, como se o filme da A24 dissesse que certos limites não podem ser otimizados por planilha.
As intenções reais dos unicórnios
Depois do caos, Elliot e Ridley acabam como os únicos sobreviventes e são presos pela polícia. A cena parece encaminhar para um final “realista”, em que os humanos pagam pelo que aconteceu. Mas o filme dá a guinada que muda tudo: os unicórnios seguem os protagonistas.
Quando eles atacam o carro da polícia e o jogam para fora da estrada, não é um ato de fúria cega. O próprio diretor indica que a ação tem um objetivo: ajudar pai e filha a escapar. Só que há um detalhe ainda mais perturbador e místico nessa intervenção. O filme sugere que os unicórnios não estão apenas salvando: eles estão controlando o limiar entre vida e morte, matando e ressuscitando quando convém, como se estivessem “reiniciando” o destino de Elliot e Ridley.
A morte e a volta de Elliot
O momento mais forte do desfecho é quando Elliot enfrenta Shepard, um dos responsáveis pela caça às criaturas místicas. Ele é ferido de forma fatal e morre nos braços de Ridley. A cena é seca, triste e íntima, porque tira o filme da sátira por alguns minutos e o coloca em luto puro: uma filha perdendo o pai depois de um erro que começou como pressa na estrada.
Só que o filme não deixa a morte “fechar” a história. Os unicórnios ressuscitam o personagem de Paul Rudd. E esse gesto revela o alcance real do poder deles: não é só cura, é reversão completa. O longa sugere que o elo emocional entre pai e filha, somado à presença de Ridley como uma espécie de chave de comunicação com esse mundo, cria as condições para o impossível acontecer. Também pesa o elemento do filhote restaurado, como se o equilíbrio tivesse sido refeito e, por isso, a vida pudesse ser devolvida.
O que significa o fim: os unicórnios somem, os gananciosos caem e sobra uma redenção amarga

No fim, os unicórnios parecem restaurar sua própria “família” e desaparecer novamente. Como as florestas onde vivem são áreas protegidas, existe a sensação de que eles podem voltar ao anonimato, reforçando o status de lenda viva: algo que passa perto do nosso mundo, mas não pertence a ele.
O saldo humano é coerente com a crítica do filme. Quem estava mais comprometido com a exploração científica e com o lucro morre. Quem demonstrou algum grau de empatia encontra um caminho de sobrevivência ou redenção, como acontece com Griff e, principalmente, com Elliot e Ridley.
Em 365 Filmes, dá para resumir A Morte de um Unicórnio assim: é um filme original da A24 que usa fantasia para falar do mundo real. No fundo, o unicórnio não morre apenas por causa de um atropelamento. Ele morre porque a ganância humana sempre acha que tem direito ao que não entende. E quando esse “direito” é contestado, o mundo mágico responde mostrando que a vida não é mercadoria, e que alguns milagres existem justamente para não serem vendidos.
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