A Netflix lançou Primeiro as Damas apostando em uma premissa provocativa: um mundo onde homens e mulheres trocaram completamente de posição social. Nesse universo, mulheres ocupam os espaços de poder enquanto os homens enfrentam assédio, preconceito e humilhações diárias dentro do ambiente corporativo e da própria sociedade. A ideia imediatamente chama atenção porque tenta transformar desigualdade de gênero em sátira social contemporânea.
O problema é que Primeiro as Damas rapidamente esgota seu conceito. Mesmo contando com nomes fortes como Rosamund Pike e Sacha Baron Cohen, o filme prefere apostar em exageros e piadas repetitivas ao invés de realmente desenvolver uma crítica mais inteligente. O resultado é uma comédia que começa curiosa, mas perde força muito rápido conforme insiste nos mesmos mecanismos narrativos durante praticamente toda a duração.
Rosamund Pike tenta salvar um roteiro de Primeiro as Damas que gira em círculos
O maior destaque do filme acaba sendo Rosamund Pike. A atriz consegue transformar sua executiva fria e dominante em alguém minimamente interessante mesmo quando o roteiro não oferece profundidade suficiente para sustentar a personagem.
Pike entende perfeitamente o tom absurdo da proposta e consegue arrancar alguns dos melhores momentos do longa através de pequenos gestos e diálogos carregados de ironia.
Já Sacha Baron Cohen parece completamente desconectado da narrativa. O ator, conhecido justamente por humor desconfortável e sátiras mais afiadas, aqui nunca encontra ritmo cômico realmente eficiente. Seu protagonista não possui carisma suficiente para conduzir a trama, e a relação central entre os personagens quase nunca gera impacto emocional ou humor genuíno.
A grande falha de Primeiro as Damas está justamente na forma como o roteiro entende sua própria premissa. O filme acredita que simplesmente inverter comportamentos masculinos e femininos já basta para criar uma sátira inteligente. Depois das primeiras cenas, praticamente todas as piadas seguem exatamente a mesma estrutura: homens sofrendo situações historicamente associadas ao machismo feminino.
Inicialmente isso até funciona como provocação, mas rapidamente se torna cansativo. Em vez de aprofundar a discussão ou construir novas camadas narrativas, o longa insiste nos mesmos exageros e transforma sua proposta em algo previsível e superficial.
Filme tenta discutir machismo, mas escolhe sempre o caminho mais fácil
O longa claramente tenta misturar crítica social com humor absurdo, seguindo uma linha parecida com produções como What Women Want. A diferença é que aqui quase nunca existe equilíbrio entre sátira e comédia. O filme oscila entre momentos caricatos, romances artificiais e discursos excessivamente explicativos sem conseguir encontrar uma identidade própria realmente consistente.
A direção de Thea Sharrock também contribui para essa sensação artificial. O universo criado pelo filme parece montado apenas para servir às piadas, sem qualquer preocupação em construir um ambiente minimamente crível. Escritórios, reuniões e conflitos corporativos funcionam mais como sketches isolados do que como parte orgânica daquela sociedade invertida.
Mesmo com apenas 84 minutos de duração, o filme transmite sensação constante de repetição. Os personagens praticamente não evoluem, os conflitos giram em círculos e a narrativa parece incapaz de apresentar algo novo depois da primeira meia hora. Em vários momentos, fica evidente que a premissa renderia melhor como episódio curto de série antológica do que como longa-metragem.
O desperdício do elenco torna tudo ainda mais frustrante. Rosamund Pike claramente tenta elevar o material, mas nem mesmo sua presença consegue compensar um roteiro que prefere insistir em piadas fáceis ao invés de explorar o potencial crítico da própria ideia.

Veredito final
Primeiro as Damas tinha em mãos uma premissa forte e atual, mas transforma sua sátira social em uma comédia repetitiva, superficial e pouco inspirada.
O filme até encontra alguns momentos divertidos graças ao elenco, especialmente Rosamund Pike, porém nunca consegue desenvolver uma crítica realmente afiada sobre desigualdade e relações de poder.
No fim, sobra a sensação de uma produção que queria parecer provocativa, mas que escolheu o caminho mais seguro e previsível possível para discutir um tema muito maior do que o roteiro consegue sustentar.
Veredito final: uma ideia promissora desperdiçada em uma comédia que repete a mesma piada até perder completamente o impacto.
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