Em 2015, o diretor alemão Sebastian Schipper lançou “Victoria” e sacudiu o circuito de festivais com um feito técnico raro: um thriller em plano-sequência que não corta a câmera durante 138 minutos. Além da ousadia formal, o filme coloca o espectador ao lado da protagonista, vivendo em tempo real uma sucessão de decisões desastrosas que escala do flerte inocente ao crime.
O resultado é uma experiência imersiva que divide o público entre a adrenalina da ação e a frustração pelos rumos escolhidos pelos personagens. A seguir, 365 Filmes destrincha os principais aspectos que fazem de “Victoria” um thriller em plano-sequência digno de atenção.
A façanha técnica do plano-sequência
Filmar um longa-metragem inteiro sem cortes exige precisão cirúrgica de elenco, equipe e direção de fotografia. Em “Victoria”, a câmera de Sturla Brandth Grøvlen percorre ruas, boates, telhados e becos de Berlim acompanhando a protagonista como uma sombra. Qualquer deslize seria perceptível, mas o filme mantém a ilusão de continuidade graças a coreografias milimetricamente ensaiadas e ao domínio do espaço urbano como cenário vivo.
Essa escolha estética não é mero exibicionismo. Ao eliminar a edição tradicional, Schipper faz com que o tempo interno da narrativa coincida com o tempo do espectador. Cada minuto de diversão, tensão ou pânico é compartilhado em sincronia, aumentando a sensação de urgência. O thriller em plano-sequência “Victoria” usa a forma para amplificar o conteúdo, transformando o espectador em cúmplice involuntário das atitudes impensadas que propulsionam a trama.
Direção de Sebastian Schipper: controle e espontaneidade
Sebastian Schipper, também ator de formação, mostra domínio incomum ao equilibrar planejamento e improviso. Antes da filmagem definitiva, a equipe executou três tentativas completas. A versão que chegou aos cinemas foi a terceira tomada, filmada na madrugada de 27 de abril de 2014. Essa repetição proporcionou segurança para que os atores arriscassem nuances e reações genuínas, mantendo o frescor de algo acontecendo “agora”.
A condução de Schipper cria um arco que começa com encontros triviais em uma boate e termina em um assalto de alto risco. O realizador dosa momentos de euforia, respiro e tensão crescente sem recorrer a trilha musical invasiva ou a montagens paralelas. Assim, o thriller em plano-sequência “Victoria” prova que a direção firme pode coexistir com a espontaneidade do elenco, reforçando a verossimilhança do pesadelo noturno.
Atuações que sustentam o terror crescente
Laia Costa carrega o filme nas costas. A espanhola interpreta Victoria como uma jovem solitária, recém-chegada a Berlim, que busca pertencimento. Sua naturalidade ao alternar inglês, espanhol e um alemão hesitante reforça o estranhamento da personagem em um ambiente que não domina. À medida que a situação degringola, Costa desliza da curiosidade ao puro terror sem perder credibilidade, permitindo que o público sinta cada batimento cardíaco.
Imagem: Imagem: Divulgação
Frederick Lau, Franz Rogowski, Burak Yiğit e Max Mauff completam o grupo masculino que seduz Victoria para a aventura. Lau dá vida a Sonne, o primeiro elo de ligação com a protagonista, equilibrando charme e vulnerabilidade. Rogowski, com seu físico inquieto, injeta imprevisibilidade às cenas, enquanto Yiğit e Mauff funcionam como aceleradores do conflito. O entrosamento entre eles é tão orgânico que o espectador acredita estar diante de amigos reais, fator crucial para o impacto emocional do thriller em plano-sequência.
Roteiro e ritmo: como as decisões erradas constroem tensão
Schipper escreve o argumento ao lado de Olivia Neergaard-Holm e Eike Frederik Schulz. A espinha dorsal do roteiro é simples: a personagem-título conhece um grupo de berlinenses e aceita acompanhá-los, sem imaginar que acabará envolvida em um assalto. O diferencial está na recusa deliberada de fornecer exposições prolongadas. Em vez de longos diálogos explicativos, o texto prioriza a ação direta, apostando no efeito cumulativo das escolhas ruins.
Cada bifurcação narrativa apresenta a Victoria uma chance clara de recuar. Porém, seja por empatia, carência ou impulso de aventura, ela segue adiante. O thriller em plano-sequência “Victoria” transforma a teimosia da protagonista na mola-mestra do suspense: a plateia fica presa ao dilema de torcer por sua segurança e, ao mesmo tempo, censurar seus atos. O ritmo é mantido com micro-pausas estratégicas, como cenas de fumo no terraço, que servem para baixar a guarda antes de nova virada.
Vale a pena assistir Victoria hoje?
Para quem busca um thriller em plano-sequência que una proeza técnica a um retrato visceral de más decisões, “Victoria” continua obrigatório. A atuação magnética de Laia Costa, aliada ao controle milimétrico de Sebastian Schipper, entrega um estudo de personagem embalado em tensão contínua. Mesmo quase uma década após a estreia, o longa permanece relevante como exemplo de como forma e conteúdo podem se fundir para criar cinema de pura imersão.
Este conteúdo foi publicado originalmente no 365Filmes. A reprodução total ou parcial é permitida apenas mediante a citação da fonte, com link direto (dofollow) para o artigo original, garantindo a correta atribuição de autoria e a credibilidade da informação.
Não perca as novidades do 365 Filmes no Google News!



