Uma única casa, uma única atriz em cena e uma avalanche de ruídos que parecem sair de dentro da cabeça do espectador. É dessa combinação minimalista que surge Undertone, longa da A24 programado para 13 de março de 2026. O filme já deixou plateias inquietas em sua première no Fantasia International Film Festival 2025 e agora tenta repetir o impacto nos circuitos comerciais.
A produção de 84 minutos coloca Nina Kiri no papel da podcaster Evy, filha que retorna à cidade natal para cuidar da mãe à beira da morte. A partir das gravações enviadas por ouvintes, a jovem descrente passa a questionar a própria sanidade. A premissa simples esconde um experimento ousado de linguagem, comparado pelo diretor Ian Tuason ao pavor primordial despertado por O Exorcista.
A ousada escolha de manter apenas uma atriz em cena
A maior aposta de Undertone está no desempenho solitário de Nina Kiri. Ela carrega todas as emoções do roteiro, já que é a única presença física diante da câmera. A decisão elimina a troca direta com outros atores, obrigando a intérprete a reagir a vozes gravadas, sombras de corredor e, principalmente, ao silêncio pesado da casa.
Kiri, conhecida da série The Handmaid’s Tale, trabalha nuances quase teatrais: o corpo encolhido, a respiração curta, o olhar que vive procurando por algo fora de quadro. Sem colegas contracenando, cada microexpressão torna-se mais evidente, o que potencializa o suspense. O formato lembra experiências recentes de um-personagem, mas aqui surge amarrado a um terror que depende do ponto de vista da protagonista para existir.
Direção intimista de Ian Tuason transforma a casa em armadilha
Filmado majoritariamente na residência do próprio Tuason, o longa traz uma mise-en-scène claustrofóbica. O lar que deveria oferecer aconchego converte-se em território hostil. Cômodos estreitos, corredores mal iluminados e portas que rangem ajudam a construir o temor de que algo — talvez nada além da imaginação — espreita cada canto.
O diretor aproveita o espaço reduzido para valorizar enquadramentos estáticos, permitindo que o olhar vagueie em busca de ameaças. Ao mesmo tempo, evita sustos fáceis: o horror nasce da expectativa, não de figuras monstruosas. Ao revelar em entrevistas que se inspirou no choque de inocência violada de O Exorcista, Tuason deixa claro que pretende “armazenar” o medo no lugar mais protegido possível: a própria casa.
Roteiro enxuto e fidelidade ao medo primário
Assinado também por Tuason, o roteiro economiza diálogos e descarta explicações extensas. O foco recai sobre a deterioração mental de Evy, que grava, edita e investiga áudios suspeitos enquanto cuida da mãe. Cada mensagem recebida amplia a dúvida: há fantasmas nas fitas ou é apenas cansaço extremo?
A simplicidade da narrativa, por vezes, lembra a eficiência de thrillers contidos que priorizam atuação, como o premiado Parasita — relembrado pelo artigo que destaca a força do elenco. Em Undertone, entretanto, a condução minimalista serve a um propósito específico: expor o terror como sensação mais do que como história. Tudo gira em torno da perspectiva de Evy, e o público descobre os segredos no mesmo instante que ela.
Imagem: Imagem: Divulgação
Design de som: herança de O Exorcista, experiência de fones no cinema
Se O Exorcista desconcertou gerações com vozes demoníacas e ossos estalando, Undertone tenta atualizar essa herança para tempos de podcasts e ruídos em alta definição. A proposta de Tuason é que o espectador sinta como se usasse fones com cancelamento de ruído, mergulhando nos chiados e sussurros que infernizam Evy.
Cada estalo de madeira, vibração de gravador ou interferência eletrônica é mixado para circular pela sala, criando a ilusão de que o som brota atrás da nuca. O resultado pede uma sala de cinema equipada, embora prometa causar impacto também no streaming. O procedimento tem paralelo com a montagem hipnótica de produções como Public Access, que usa áudio como fio condutor da narrativa.
Vale a pena esperar por Undertone?
Para quem acompanha a A24, conhecida por arriscar com vozes autorais, o filme Undertone surge como novo teste de limites. A combinação de ambiente único, atuação solo e som invasivo cria experiência que pode dividir plateias, mas dificilmente passará despercebida.
Fãs de terror psicológico devem encontrar aqui a mesma desconstrução de espaço seguro vista em clássicos como O Exorcista. Já os curiosos por narrativas minimalistas poderão observar como um roteiro curto, sustentado por performance intensa, gera tensão palpável sem recorrer a efeitos grandiosos.
No fim, Undertone reúne os elementos para se tornar sleeper hit de 2026: duração enxuta, conceito claro e campanha boca a boca fomentada desde a estreia no Fantasia. Resta aguardar o lançamento comercial e descobrir se o arrepio provocado pelos fones de Tuason poderá ser sentido por públicos além do circuito de festivais — inclusive pelos leitores que acompanham o 365 Filmes em busca de novidades arrepiantes.
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