Chegou aos cinemas The Mortuary Assistant, longa que transpõe o game viral de 2022 para a tela grande. Dirigido por Jeremiah Kipp, o projeto tem roteiro assinado pelo criador do jogo, Brian Clarke, em parceria com Tracee Beebe, e promete replicar a sensação de desconforto que consagrou a obra original.
Com apenas 91 minutos, a produção investe em efeitos práticos e na performance contida de Willa Holland para evocar tensão. Ainda assim, a opção por detalhar cada minúcia da demonologia apresentada pelo game acaba minando parte do susto. O 365 Filmes assistiu à sessão e organiza, a seguir, os principais pontos para quem cogita encarar essa noite no necrotério.
Enredo preserva a essência do game
O filme acompanha Rebecca Owens nos últimos dias de estágio no River Fields Mortuary, sob a supervisão do enigmático Raymond Delver (Paul Sparks). Como no material de origem, a trama dispara quando Rebecca é chamada às pressas para um plantão noturno e descobre ter sido trancada no prédio. Do outro lado da linha, Raymond avisa: ela está possuída e precisa identificar o demônio certo antes do amanhecer.
Clarke e Beebe transportam quase quadro a quadro o arco principal do jogo, incluindo as sinistras sequências de embalsamamento e as manifestações que corroem a sanidade da protagonista. Há, porém, ajustes: o roteiro amplia traumas pessoais de Rebecca, sobretudo sua batalha contra o vício, para dar mais volume dramático à personagem — recurso semelhante ao que James Cameron planeja para aprofundar relações em Avatar 4 e 5.
Direção de Jeremiah Kipp aposta no desconforto
Kipp, habituado ao horror independente, abraça soluções de baixo orçamento para criar atmosfera. A fotografia de Kevin Duggin valoriza corredores estreitos e luzes frias, enquanto a câmera passeia lentamente, convidando o público a caçar entidades ao fundo do quadro. A escolha por efeitos práticos em vez de CGI reforça a textura macabra dos cadáveres e torna o vilão Mimic particularmente repulsivo.
Entretanto, quando precisa entregar choques frontais, o diretor encontra limitações. As possessões, marcadas por vozes guturais e caretas exageradas, beiram o kitsch. Falta o timing imprevisível que games como o original ou o recente Five Nights at Freddy’s dominam com maestria. Alguns sustos, por permanecerem tempo demais em foco, perdem frescor e lembram o desgaste que Steven Spielberg comentou ao revisitar Tubarão décadas depois.
Atuações dão sustentação emocional
Willa Holland carrega o filme nos ombros. A atriz dosa medo, raiva e vulnerabilidade sem jamais cair na caricatura, sobretudo quando o roteiro a coloca frente a visões ligadas ao passado com drogas. Cada microexpressão — um tremor no canto dos lábios, um olhar fixado em porta entreaberta — mantém o espectador ancorado na experiência sensorial da personagem.
Imagem: Imagem: Divulgação
Paul Sparks, por sua vez, injeta ambiguidade em Raymond. O intérprete sustenta o suspense sobre as verdadeiras intenções do mentor; seu tom calmo contrasta com procedimentos grotescos, reforçando desconfiança. É uma dinâmica que lembra, em escala menor, o peso dramático que Glen Powell alcançou no recente How to Make a Killing.
Excesso de mitologia compromete os sustos
Para atender quem nunca jogou, o roteiro despeja regras sobre possessão, selagem de sigilos e hierarquia demoníaca. São diálogos longos, inseridos no meio da tensão, que atrasam a narrativa e exigem atenção redobrada do público. Quando finalmente se entende o mecanismo do ritual, resta pouco tempo para a escalada de terror puro.
Alguns cortes também soam estranhos a quem conhece o game. A ausência de qualquer menção à mãe de Rebecca, que no original morre de overdose, reduz o impacto trágico da história. Além disso, o filme elimina o passado acadêmico que ligava Raymond e Rebecca, enfraquecendo a confiança que ela deposita nele. Mudanças pequenas, mas suficientes para abalar a lógica interna.
Vale a pena assistir a The Mortuary Assistant?
A adaptação garante atmosfera opressiva, boas atuações e respeito ao enredo do jogo, mas sacrifica parte do medo ao privilegiar explicações. Quem busca um estudo de personagem encontrará nuances interessantes; já quem procura sustos incessantes pode sair menos impressionado. Com 91 minutos enxutos, o longa entrega experiência competente, embora aquém do potencial sugerido pelo game.
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