Kathleen Kennedy confirmou que deixará o comando da Lucasfilm em 2026. A produtora acumulou mais de uma década coordenando a franquia Star Wars, colecionando sucessos, tropeços e muita discussão online.
Com Dave Filoni assumindo o posto de Chief Creative Officer, vale recapitular como cada longa e série lançado sob a batuta de Kennedy se comportou em tela – da atuação do elenco à condução de diretores e roteiristas. A seguir, o 365 Filmes reúne um panorama crítico que coloca cada projeto em perspectiva.
As decepções: “A Ascensão Skywalker” e “O Livro de Boba Fett”
Dirigido por J.J. Abrams, “Star Wars: A Ascensão Skywalker” encerrou a Saga Skywalker apostando alto em nostalgia. Visualmente impecável, com fotografia de Dan Mindel e trilha vibrante de John Williams, o filme trouxe boas performances de Daisy Ridley, Adam Driver e Ian McDiarmid. Ainda assim, o roteiro assinado por Abrams e Chris Terrio não sustentou o peso dramático: a ressurreição do Imperador Palpatine soou como recurso emergencial, enquanto arcos de personagens foram resolvidos às pressas.
O resultado foi uma experiência superficial, guiada pela pressa em agradar fãs antigos. Mesmo o carisma de John Boyega e Oscar Isaac mal conseguiu compensar a sensação de remendo. A decepção colocou o longa na lanterna do ranking, tornando-se exemplo de como decisões criativas apressadas podem minar um elenco afiado.
Já “O Livro de Boba Fett”, série conduzida por Robert Rodriguez e roteirizada por Jon Favreau, prometia explorar o lendário caçador de recompensas vivido por Temuera Morrison. Morrison entrega presença e vulnerabilidade, mas o foco narrativo se perde. Metade da temporada destaca Din Djarin (Pedro Pascal), Luke Skywalker e Ahsoka Tano, desviando a atenção do protagonista.
A direção de Rodriguez exibe momentos de ação competentes, como o assalto ao trem, porém cenas como a perseguição de motos em Mos Espa evidenciam ritmo irregular. A participação de personagens queridos atiça a memória afetiva, mas, sem desenvolvimento consistente, o resultado flutua entre fan-service e falta de propósito.
Zona intermediária: “O Acólito”, “Obi-Wan Kenobi” e “Ahsoka”
Ambientado na Alta República, “O Acólito” chega com Leslye Headland no comando e acerta ao introduzir o misterioso Qimir de Manny Jacinto, um vilão magnético que rouba a cena. A química com o Mestre Sol, interpretado por Lee Jung-jae, cria tensão genuína. As lutas coreografadas lembram o frescor de “A Ameaça Fantasma”. O obstáculo é um enredo fragmentado que hesita em escolher foco, diluindo revelações e impactando atores coadjuvantes.
“Obi-Wan Kenobi”, minissérie capitaneada por Deborah Chow, funciona sempre que coloca Ewan McGregor frente a frente com Hayden Christensen. A jornada do jedi exilado é convincente, resgatando o charme de McGregor e a fúria contida de Christensen. Contudo, subtramas como o sequestro da jovem Leia alongam a narrativa e a inquisidora Reva, vivida por Moses Ingram, recebe desenvolvimento apenas satisfatório. Quando se concentra no duelo emocional entre mestre e aprendiz, a produção mostra o que poderia ter sido um longametragem enxuto.
Dave Filoni assumiu o leme de “Ahsoka” levando ao live-action personagens de “Rebels”. Rosario Dawson incorpora a serenidade da togruta, mas a protagonista demora a expressar empatia. Em contrapartida, Ray Stevenson (Baylan Skoll) e Ivanna Sakhno (Shin Hati) brindam o público com antagonistas complexos. A direção mantém o visual de animação com transições elegantes, embora algumas batalhas pareçam coreografadas em velocidade inferior. Ao fim, o vilão se mostra mais interessante que a heroína, deixando espaço para evolução em eventual segunda temporada.
Imagem: Walt Disney Studios Moti Pictures via MovieStillsDB
Aventuras sólidas: “Solo” e “Skeleton Crew”
“Solo: Uma História Star Wars” passou por turbulências nos bastidores, trocando Phil Lord e Chris Miller por Ron Howard já em filmagem avançada. Mesmo assim, Alden Ehrenreich entrega um Han Solo espirituoso, equilibrando reverência ao clássico de Harrison Ford e charme próprio. O roteiro de Lawrence Kasdan e Jon Kasdan dosa bem ação, humor e referências, apoiado pelos vigorosos Donald Glover (Lando) e Emilia Clarke (Qi’ra). Se falta urgência ao enredo, sobra carisma ao elenco e elegância à trilha de John Powell.
“Skeleton Crew”, criação de Jon Watts e Christopher Ford, conquista ao misturar espírito Amblin anos 80 com o universo Star Wars. Jude Law lidera o elenco juvenil sem roubar cena, permitindo que as descobertas dos garotos conduzam a trama. A série, ambientada durante a Nova República, não carrega o peso de expandir lendas canônicas, mas oferece aventura leve e espaço para futuras conexões. A boa direção de fotografia evidencia paisagens inéditas, reforçando que é possível contar histórias menores sem perder identidade.
No topo: “O Despertar da Força”, “The Mandalorian” e “Rogue One”
“Star Wars: O Despertar da Força”, dirigido por J.J. Abrams, precisava reiniciar a saga para um novo público sem alienar fãs antigos. O feito foi alcançado com equilíbrio entre nostalgia e novidades. Daisy Ridley assume o protagonismo com vigor, John Boyega humaniza o stormtrooper desertor e Adam Driver reinventa o vilão atormentado. A roteirização de Abrams e Lawrence Kasdan prioriza ritmo e humor, enquanto a fotografia de Dan Mindel devolve textura orgânica à franquia. A familiaridade com “Uma Nova Esperança” existe, mas não impede a construção de personagens sedutores.
Quando Jon Favreau lançou “The Mandalorian”, a expectativa era modesta; rapidamente, a dupla Din Djarin e Grogu explodiu no imaginário pop. As duas primeiras temporadas apresentam direção precisa, alternando capítulos por Rick Famuyiwa, Deborah Chow e Bryce Dallas Howard, entre outros. Pedro Pascal imprime nuances ao caçador de recompensas, mesmo sob o capacete, e o uso extensivo de cenários virtuais via StageCraft redefiniu padrão técnico para séries de streaming. Embora o terceiro ano tenha escorregado em coerência, o impacto cultural permanece inegável.
Completa o pódio “Rogue One: Uma História Star Wars”, comandado por Gareth Edwards. O longa transforma uma simples citação do Episódio IV em epopeia de guerra. Felicity Jones lidera o elenco como Jyn Erso, cercada por Diego Luna, Donnie Yen e Riz Ahmed em atuações que equilibram gravidade e leveza. O roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy abraça tons sombrios, culminando no sacrifício coletivo do grupo. A sequência final, com Darth Vader, intensifica a tensão sem eclipsar o protagonismo humano. Para muitos, é a obra que melhor conjuga tom adulto e respeito à mitologia.
Vale a pena assistir aos títulos da era Kennedy?
Apesar de oscilações, a gestão de Kathleen Kennedy ofereceu experiências marcantes. Enquanto “A Ascensão Skywalker” e “O Livro de Boba Fett” dividem opiniões, produções como “Rogue One” e “The Mandalorian” expandiram o universo de maneira inventiva. Para quem busca panorama completo da saga – seja fã veterano ou novato curioso –, revisitar cada obra revela os caminhos criativos que definiram Star Wars na última década.
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