M. Night Shyamalan é, sem dúvida, o cineasta mais polarizante de Hollywood nas últimas três décadas. Sua carreira oscila vertiginosamente entre obras-primas do suspense psicológico e desastres narrativos inexplicáveis, criando uma espécie de roleta russa cinematográfica a cada novo lançamento. Ao assistir Armadilha (Trap), percebi que o diretor decidiu abraçar o caos de uma premissa absurda com um sorriso no rosto.
O longa chegou na Netflix recentemente e, como era de se esperar pelo apelo comercial e pelo nome do diretor, escalou rapidamente para o top 5 das produções mais assistidas da plataforma. A trama nos apresenta Cooper, vivido por um Josh Hartnett em pleno renascimento profissional, um pai suburbano aparentemente perfeito que leva sua filha adolescente, Riley, ao show da pop star Lady Raven. O que deveria ser uma noite de celebração paternal se transforma em um pesadelo logístico quando Cooper descobre que o evento inteiro é, na verdade, uma gigantesca operação policial montada especificamente para capturá-lo.
A dualidade de Josh Hartnett e o palco como prisão em Armadilha
O grande trunfo de Armadilha reside quase inteiramente na escalação e na performance de Josh Hartnett. O ator, que passou anos afastado dos grandes holofotes, retorna com uma energia magnética, equilibrando com maestria a persona do “pai bobão” que faz piadas ruins com a frieza reptiliana de um psicopata.
Hartnett consegue transmitir, muitas vezes apenas com um micro-movimento facial ou um sorriso que não chega aos olhos, a mudança de chave entre o homem que ama a filha e o monstro que calcula rotas de fuga.
É fascinante observar como ele navega pela claustrofobia da arena, usando sua filha como escudo humano emocional sem que ela perceba. A câmera de Shyamalan, operada pelo talentoso Sayombhu Mukdeeprom, abusa dos close-ups no rosto de Cooper, forçando-nos a ser cúmplices de sua ansiedade e de sua sociopatia.
Quando a conveniência substitui a inteligência
O filme começa a desmoronar quando a lógica precisa entrar em cena. Para que um thriller de “homem em fuga” funcione, o antagonista (neste caso, a polícia e a perfiladora do FBI) precisa ser tão inteligente quanto o protagonista. Infelizmente, Shyamalan opta por emburrecer drasticamente as forças da lei para fazer Cooper parecer um gênio.
As soluções encontradas pelo roteiro para que o personagem escape das situações mais impossíveis beiram o insulto à inteligência do espectador. Vemos Cooper roubar rádios da polícia, causar explosões, acessar áreas restritas e manipular funcionários com uma facilidade que transformaria qualquer esquema de segurança real em piada.
O roteiro falha ao transformar a tensão em uma sequência de conveniências absurdas. Em vários momentos, eu me peguei questionando como ninguém notou as atitudes suspeitas de um homem adulto correndo suado pelos bastidores, invadindo salas de controle ou falando sozinho em cantos escuros.
A “armadilha” do título parece ter buracos grandes o suficiente para passar um caminhão, quanto mais um serial killer. A perfiladora do FBI, apresentada como uma mente brilhante que estudou o Açougueiro por anos, acaba servindo apenas como uma expositora de trama, narrando o que o público já sabe e tomando decisões táticas questionáveis.
Essa facilidade com que o protagonista supera os obstáculos drena a adrenalina do filme, transformando o que poderia ser um suspense Hitchcockiano em uma fase fácil de videogame onde os inimigos têm a inteligência artificial desligada.
Aspectos técnicos
Shyamalan é um diretor formalista, e isso fica evidente na decupagem das cenas. Mesmo quando o roteiro é fraco, ele sabe onde colocar a câmera. O uso de lentes que distorcem levemente as bordas da imagem e o foco seletivo ajudam a criar a atmosfera de desorientação.
A trilha sonora não diegética (a que não faz parte do show) tenta intensificar o suspense, mas muitas vezes compete com o barulho excessivo das canções pop de Lady Raven, gerando uma cacofonia que, embora proposital, pode ser cansativa.
É interessante notar como o filme tenta satirizar a cultura das celebridades e o fanatismo jovem, mas essa crítica social é superficial. O foco permanece na habilidade quase sobrenatural de Cooper de prever o comportamento humano.
Se encararmos o filme não como um retrato realista de uma operação policial, mas como uma fantasia de poder distorcida de um narcisista, ele funciona melhor. A visão de mundo de Cooper é a que impera: todos ao redor são peças de xadrez ou gado, e ele é o único jogador consciente.

Veredito
Armadilha é um filme que exemplifica o cinema “pipoca” em sua forma mais pura e, por vezes, mais frustrante. Vale a pena conferir se você busca um entretenimento descompromissado que o prenda pela curiosidade mórbida de ver como o vilão vai se safar da próxima enrascada.
Josh Hartnett entrega uma performance que eleva o material, criando um assassino carismático que carrega o filme nas costas mesmo quando o roteiro decide pular no abismo da incoerência.
Contudo, se você espera um suspense rigoroso, com roteiro amarrado e reviravoltas inteligentes típicas do auge da carreira de Shyamalan, sairá decepcionado. O filme tropeça na própria ambição de ser esperto, entregando soluções fáceis para problemas complexos.
É uma obra que diverte pela tensão situacional e irrita pela lógica quebrada, resultando em uma experiência mista: você torce para Cooper escapar, não porque ele merece, mas porque a polícia que o persegue é incompetente demais para merecer a vitória. No fim, é um “filme B” com orçamento de luxo, ideal para uma noite de streaming onde o senso crítico pode tirar uma folga.
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