As adaptações de romances contemporâneos vivem um dilema constante. Ao mesmo tempo em que precisam respeitar o material original, também precisam justificar sua existência em uma nova mídia. Depois Daquele Ano, nova aposta do Prime Video baseada no best-seller Depois Daquele Verão, de Carley Fortune, tenta equilibrar essas duas necessidades.
O resultado é uma série sensível e emocionalmente honesta, capaz de capturar a nostalgia do primeiro amor e a dor das oportunidades perdidas. Ainda assim, algumas mudanças importantes na adaptação acabam alterando justamente aquilo que tornou o livro tão marcante para muitos leitores.
O passado é onde a série encontra sua força
A trama acompanha Percy Fraser e Sam Florek ao longo de duas linhas temporais. De um lado, vemos os verões da adolescência que transformaram uma amizade em romance. Do outro, acompanhamos o reencontro dos dois após uma década de afastamento. É nos flashbacks que Depois Daquele Ano encontra sua melhor versão.
As cenas ambientadas na juventude dos protagonistas possuem calor, espontaneidade e uma sensação genuína de descoberta. A série entende que o público precisa acreditar naquela conexão antes de se importar com suas consequências.
A fotografia ajuda bastante nesse processo. Os lagos, as florestas e as paisagens da Colúmbia Britânica criam uma atmosfera quase idealizada, como se aqueles verões existissem apenas na memória dos personagens.
Ao assistir à temporada, a impressão que tive foi que os episódios do passado carregam uma energia emocional que raramente aparece na narrativa contemporânea. Existe uma leveza ali que torna cada despedida mais dolorosa. O problema é que essa diferença acaba expondo a principal fragilidade da série.
O presente sofre com falta de intensidade
Quando a história retorna aos dias atuais, o ritmo desacelera de forma perceptível.
Percy volta para Barry’s Bay após a morte de Sue Florek, mãe de Sam e Charlie. A partir desse ponto, a série passa a explorar os traumas e ressentimentos acumulados ao longo dos anos. A proposta é interessante. A execução, nem sempre.
Grande parte da tensão depende da relação entre Percy e Sam adultos. No entanto, a química entre os personagens demora a se consolidar. Em vários momentos, o romance parece preso em uma espera prolongada que não encontra recompensas proporcionais.
Sam, especialmente, surge como um personagem excessivamente passivo durante boa parte da temporada. Em vez de conduzir os acontecimentos, frequentemente reage a eles. Isso faz com que alguns conflitos pareçam artificiais, não porque sejam mal escritos, mas porque a narrativa demora demais para movimentá-los.
As mudanças da adaptação criam um novo tipo de drama
Uma das decisões mais comentadas da série é a quantidade de alterações em relação ao livro.
Algumas delas funcionam muito bem dentro do formato televisivo. A mudança na profissão de Percy, por exemplo, fortalece a ligação da personagem com os temas de luto e memória que atravessam toda a narrativa.
Já a decisão de fazer Sam descobrir a traição durante os acontecimentos do presente aumenta imediatamente a tensão dramática. Para a televisão, é uma escolha compreensível.
Mas existe um preço.
No romance original, a culpa de Percy é construída de forma mais dolorosa e complexa. O leitor acompanha anos de arrependimento antes do reencontro acontecer. Na série, parte desse peso é substituída por conflitos mais imediatos.
O mesmo acontece com a questão do anel de noivado. No livro, esse elemento carrega um significado profundamente ligado ao passado dos protagonistas. Na adaptação, ele se torna uma ferramenta para criar obstáculos românticos no presente.
Revisitando os principais acontecimentos do livro após terminar a série, fica evidente que a produção trocou parte da melancolia reflexiva por um drama mais acessível ao grande público. A estratégia torna a narrativa mais dinâmica, mas também menos devastadora emocionalmente.
Os coadjuvantes acabam roubando a cena
Curiosamente, quem mais se beneficia dessas mudanças são os personagens secundários.
Charlie ganha camadas que o tornam uma das figuras mais interessantes da trama. Sua presença atravessa praticamente todos os conflitos centrais, adicionando ambiguidades que enriquecem a história.
Delilah, Chantal e Jordie também ajudam a ampliar o universo da série. Eles oferecem perspectivas diferentes sobre amizade, amadurecimento e pertencimento.
Em alguns episódios, essas histórias paralelas acabam despertando mais interesse do que o romance principal.
Isso não significa que Percy e Sam deixem de funcionar. Apenas demonstra que a série encontrou riqueza dramática em lugares que o livro explorava de forma mais limitada.

Vale a pena assistir Depois Daquele Ano?
Apesar das falhas, Depois Daquele Ano entende perfeitamente o sentimento que deseja transmitir.
A série fala sobre arrependimentos, memórias e sobre a dificuldade de seguir em frente quando uma parte importante da vida ficou presa no passado. São temas universais que continuam funcionando independentemente das mudanças realizadas na adaptação.
Nem todas as escolhas de roteiro agradarão os leitores mais fiéis de Carley Fortune. Algumas modificações realmente reduzem a complexidade emocional de certos acontecimentos.
Ainda assim, a produção encontra qualidades próprias ao investir em uma estética envolvente, bons personagens secundários e uma atmosfera nostálgica que permanece até depois do último episódio.
Talvez não seja a adaptação definitiva que alguns fãs esperavam. Mas é uma série que entende o coração da história e consegue emocionar mesmo quando escolhe caminhos diferentes dos do livro.
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Depois Daquele Ano
Depois Daquele Ano funciona melhor quando abraça a nostalgia e a força de suas memórias. Mesmo perdendo parte da complexidade do livro, entrega uma adaptação sensível, bonita e emocionalmente envolvente para o público do Prime Video.
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