O Directors Guild of America Awards (DGA) acaba de alterar o tabuleiro rumo ao Oscar de Melhor Diretor. Paul Thomas Anderson saiu consagrado pela primeira vez na premiação, enquanto Ryan Coogler viu a chance de quebrar um jejum de 97 anos para cineastas negros praticamente escorrer pelos dedos.
Com o domínio de One Battle After Another nas últimas semanas, a temporada ganhou contornos de duelo direto contra Sinners, longa que lidera as indicações à estatueta. A vitória de Anderson reforça um favoritismo que pesa sobre todo o restante do circuito e diminui, ao menos por ora, a probabilidade de uma surpresa na cerimônia do Oscar.
A força de Paul Thomas Anderson em One Battle After Another
Entre os votantes do DGA, Anderson paradoxalmente concilia imagem de veterano consagrado com a narrativa de “ainda sem prêmio”. São 11 indicações anteriores ao Oscar, três delas como diretor, sem nenhuma vitória. Esse histórico se converteu em combustível emocional para a campanha de One Battle After Another.
No longa, Anderson dirige com pulso firme um épico de duelos morais ancorado por atuações contidas e cheias de subtexto. Ele aposta em planos prolongados, montagem que valoriza o silêncio e fotografia de paleta terrosa, criando contraste entre violência latente e humanidade frágil. A abordagem lembra o rigor encontrado nas colaborações de David Lynch e Laura Dern, analisadas pelo 365 Filmes em matéria sobre parcerias marcantes (confira aqui).
Ryan Coogler disputa narrativa histórica com Sinners
Enquanto Anderson capitaliza o rótulo de “nunca premiado”, Coogler carrega o peso de ser o primeiro diretor negro indicado desde Spike Lee, em 2019. A Academia jamais entregou a estatueta principal a um cineasta negro, e Sinners parecia a oportunidade perfeita para isso.
Coogler constrói o filme em camadas: roteiro próprio, ritmo ágil e elenco que se equilibra entre figuras novatas e veteranos respeitados. O diretor explora temáticas de culpa e redenção sem recorrer a maniqueísmos, recurso que valorizou a entrega emocional dos atores. Nos bastidores, comenta-se que a química entre o protagonista e o antagonista se tornou um dos pontos mais fortes da produção, gerando comparações com dramas de guerra recentes como War Machine, liderado por Alan Ritchson e já analisado em nosso portal (saiba mais).
DGA como termômetro do Oscar de Melhor Diretor
Nos últimos 14 anos, DGA e Oscar coincidiram em 11 ocasiões. A exceção de 2020, quando Bong Joon Ho levou a estatueta após Sam Mendes vencer no sindicato, serve de lembrete de que zebra é possível, mas rara. Para Coogler, seria necessário repetir o fenômeno de Parasite: forte apoio nos votos internacionais, divisão acirrada entre os concorrentes e impacto cultural incontornável.
Imagem: Imagem: Divulgação
A matemática, porém, não ajuda. One Battle After Another soma prêmios de crítica, bom desempenho de bilheteria e narrativa de “pagamento de dívida” para com Anderson. Sinners, apesar de recordista em indicações (16 no total), tem sido analisado como azarão nas principais casas de aposta e deve concentrar suas fichas em Roteiro Original — categoria em que Coogler também concorre.
Ainda sem Oscar de Melhor Diretor para cineastas negros
Até hoje, sete diretores negros receberam indicação e todos saíram de mãos vazias. A lista vai de John Singleton em 1992 a Spike Lee em 2019, atravessando nomes como Steve McQueen, Barry Jenkins e Jordan Peele. Nem mesmo temporadas em que seus filmes levaram Melhor Filme — caso de Moonlight e 12 Years a Slave — mudaram esse panorama.
Com a reformulação de membros após o movimento #OscarsSoWhite, a Academia ampliou representatividade de gênero, etnia e nacionalidade. Ainda assim, o recorde incômodo persiste e ameaça chegar ao centenário da premiação. Se o Oscar 2026 — o 98.º da história — mantiver a tendência, a marca negativa completará um século.
Vale a pena assistir aos dois concorrentes?
Para o espectador, a disputa deixa um saldo positivo: dois filmes potentes, com estéticas opostas e temas universais. One Battle After Another oferece estudo de personagem em tom quase operístico, sustentado pelo elenco que entrega nuance a cada corte. Sinners, por sua vez, alia direção inventiva a diálogos que reverberam fora da sala de cinema, mérito de um roteiro que não subestima o público.
Independentemente de quem saia vitorioso, a temporada reafirma a força autoral de Paul Thomas Anderson e coloca Ryan Coogler no radar definitivo da indústria. Para quem acompanha o 365 Filmes, o conselho é simples: não perca nenhuma das duas produções e acompanhe o desfecho dessa corrida histórica.
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