Uma equipe de mídia norte-americana desembarca na Argentina atrás de um “viral” de internet e descobre, tarde demais, que errou de cidade — e até de país. Para salvar a pauta, decide transformar moradores locais em personagens de um reality improvisado. Esse é o ponto de partida de Magic Farm, segundo longa-metragem da diretora Amalia Ulman.
Lançada com apoio da plataforma Mubi e agendada para 2025, a produção mistura comédia e drama ao satirizar a cultura do clickbait. A proposta, porém, vem sendo criticada por repetir o mesmo olhar colonial que pretende desconstruir, situação que remete aos estudos de Edward Said sobre orientalismo.
Enredo de Magic Farm: equipe cai no país errado e inventa “documentário”
No filme, uma equipe formada pela apresentadora Edna (Chloë Sevigny), pela produtora Elena (Amalia Ulman) e pelos assistentes Justin (Joe Apollonio) e Jeff (Alex Wolff) desembarca num vilarejo chamado San Cristóbal. A cidade escolhida, entretanto, não é a que aparece no vídeo viral que motivou a viagem — várias localidades da América do Sul dividem o mesmo nome.
Sem tempo nem verba para retornar aos Estados Unidos de mãos vazias, o grupo decide fabricar situações e recrutar moradores excêntricos. A intenção é gravar episódios falsos de uma série sobre fenômenos de internet, garantindo cliques e engajamento quando voltarem para casa.
Personagens destacam conflitos culturais e geram situações cômicas
Enquanto Edna, a suposta âncora da atração, quase desaparece da narrativa, outros arcos ganham espaço. Elena é a única que fala espanhol e passa a mediar as negociações com os habitantes. Justin inicia um flerte platônico com o recepcionista do hotel, homem mais velho e solitário. Já Jeff se apaixona por Manchi (Camila Del Campo), adolescente que, ao lado da mãe, apresenta possíveis “estrelas” para o programa.
Ainda assim, parte dessas relações se perde na correria da trama. Dave (Simon Rex), marido de Edna e produtor-executivo, surge como peça importante nos bastidores, mas pouco influencia na ação principal.
Sátira mira colonialismo, mas reforça estereótipos latino-americanos
Magic Farm pretende ridicularizar a ignorância estrangeira, porém escorrega ao retratar a América Latina com os clichês de sempre: ruas de terra, vacas atravessando cenas, caos pitoresco e senso de misticismo. A narrativa simula o que Said definiu como “discurso do poder benevolente”, no qual o Ocidente se coloca como observador que supostamente documenta e educa.
Essa ambiguidade faz a piada perder força. A obra tenta ironizar o olhar colonial, mas a lente olho-de-peixe e a caricatura de personagens locais acabam reforçando o preconceito. O resultado é um humor que, segundo parte da crítica, não diverte nem cumpre a promessa de desconstrução.
Produção independente e parceria com a Mubi
Filmado com orçamento modesto, o projeto conta com suporte financeiro e distribuição garantida pela Mubi, que deve exibir o título em seu catálogo global logo após o circuito de festivais de 2025. A escolha por um formato de “falso documentário” dialoga com a estética de vídeos curtos e virais que dominam a internet.
Imagem: Imagem: Divulgação
Para Ulman, também responsável pelo papel de Elena, o foco era mostrar como a urgência de produzir conteúdo a todo custo pode distorcer realidades. A diretora, entretanto, declarou em entrevistas que não queria abandonar o tom leve de comédia, mesmo tratando de temas sensíveis como colonialismo midiático.
Recepção: avaliação mediana e comentários sobre humor ineficaz
Com estreia limitada em mostras de cinema, Magic Farm recebeu nota 6/10 de veículos especializados. Críticos apontam ritmo irregular e piadas que raramente arrancam risadas. O subaproveitamento de Chloë Sevigny e Simon Rex também foi mencionado como desperdício de talento.
Em contrapartida, o trio formado por Ulman, Apollonio e Wolff garante alguns momentos de energia caótica que lembram bastidores reais de gravações. Mesmo assim, o filme não escapa da impressão de que satiriza um estereótipo enquanto o reforça.
Magic Farm e o debate sobre representação no cinema
A comparação com as críticas de Edward Said surge porque o vilarejo imaginário de San Cristóbal serve apenas como pano de fundo para confirmar expectativas ocidentais sobre o “Sul Global”. Para o público interessado em discussões sobre representação, a obra pode funcionar como ponto de partida, ainda que sem respostas definitivas.
No fim, Magic Farm levanta a pergunta: é possível ironizar a exploração cultural sem replicá-la? O longa de Ulman não entrega uma solução clara, mas coloca o tema em evidência — e, de quebra, oferece um retrato dos dilemas de quem busca engajamento a qualquer preço.
Para leitores do 365 Filmes que acompanham novelas, doramas e outras narrativas seriadas, a produção mostra como bastidores fictícios podem se tornar matéria-prima para analisar mídia, poder e identidade, mesmo quando o humor não alcança todo o seu potencial.
