“Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe” chegou à Netflix em 2017 e logo se tornou referência quando o assunto é drama familiar contemporâneo. Na superfície, a produção dialoga com o humor agridoce típico de Noah Baumbach; no fundo, carrega a crueldade íntima que remete a Ingmar Bergman, sem perder o tom levemente cômico que o diretor norte-americano domina tão bem.
Com Dustin Hoffman no centro de uma família disfuncional, o longa reúne também Emma Thompson, Adam Sandler, Ben Stiller e Grace Van Patten para expor feridas herdadas de uma convivência turbulenta. O elenco alinhado à direção precisa de Baumbach resulta em um filme que, mesmo minimalista, provoca reflexões profundas sobre afeto, fracasso e identidade.
A performance de Dustin Hoffman eletriza o retrato de um patriarca em crise
Aos 80 anos, o personagem Harold Meyerowitz vive do prestígio passado que sua obra de escultor nunca consolidou. Hoffman traduz esse homem em negação com gestos sutis: um olhar demorado no espelho, a rabugice cortante diante dos filhos, a voz que alterna arrogância e fragilidade na mesma frase. O ator cria um veterano vaidoso que, mesmo antipático, desperta pena exatamente por ser real.
Baumbach usa planos fechados para destacar o desconforto que o patriarca gera. Hoffman preenche cada um deles com insegurança mascarada de superioridade, lembrando o espectador de que o filme é, em essência, um estudo sobre ego e frustração. O resultado é um desempenho que, sem recorrer a grandes explosões de emoção, sustenta o eixo dramático da narrativa.
Emma Thompson e Grace Van Patten iluminam o caos familiar
Emma Thompson surge quase irreconhecível como Maureen, a quarta esposa de Harold. Entre taças de vinho e comentários fora de hora, a atriz constrói uma figura excêntrica, porém sensível, que observa a briga do clã como quem vigia um incêndio doméstico. A leveza aparentemente etérea de Maureen contrasta com o rancor enrijecido dos enteados, rendendo momentos de humor que impedem o filme de descambar para o desespero puro.
Já Grace Van Patten, como Eliza, conduz a narrativa a um ponto de esperança. A jovem diretora de curtas decide sair de casa para estudar cinema, gesto que espelha o sonho sufocado do pai Danny. Van Patten dosa inocência e maturidade, funcionando como bússola moral da história; seu olhar de quem ainda acredita no futuro oferece descanso ao espectador em meio a diálogos repletos de acusações veladas.
Adam Sandler e Ben Stiller mostram versatilidade fora do território da comédia
Conhecido por papéis pastelões, Adam Sandler entrega aqui um Danny vulnerável, músico falido que nunca se libertou da sombra paterna. O ator aposta em silêncio e melancolia, evitando o histrionismo que marcou boa parte de sua carreira. A sensibilidade de Sandler faz o público sentir o peso de cada concessão que o personagem precisou fazer.
Imagem: Imagem: Divulgação
Ben Stiller, por sua vez, interpreta Matthew, corretor de imóveis que tentou distância do pai a todo custo. Diferente das neuroses expansivas de seus filmes anteriores, Stiller assume contenção. Em uma das melhores cenas – o jantar em que Harold o humilha – o ator reage com olhos marejados e respiração pesada, sem levantar a voz. A tensão é quase física, provando que Stiller também domina o drama quando a piada sai de cena.
Noah Baumbach afia roteiro e direção para dissecar laços familiares
O cineasta, que assina texto e direção, emprega estruturas capitulares para acompanhar cada filho, criando episódios que funcionam como curtas interligados. A abordagem reforça a ideia de que, embora compartilhem o sobrenome, os Meyerowitz vivem realidades paralelas, colidindo apenas quando o ego do pai os puxa de volta à órbita dele.
Baumbach utiliza diálogos sobrepostos, interrupções e pausas incômodas, recurso que aproxima o espectador da sensação de estar à mesa junto com a família. A fotografia de Robbie Ryan recusa glamour; opta por tons neutros, quase lavados, sublinhando a falta de idealização. A trilha minimalista de Randy Newman aparece em momentos estratégicos, realçando o humor mordaz sem abafar o desconforto.
Vale a pena assistir a “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe”?
Para quem procura um drama que combina humor ácido, personagens complexos e atuações inspiradas, a resposta é sim. A crueldade íntima à la Bergman encontra-se aqui filtrada pela ironia de Baumbach, em um filme que lembra que nenhum laço familiar é simples. Disponível na Netflix, “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe” também reforça a versatilidade de Adam Sandler, Dustin Hoffman e Emma Thompson, e confirma o diretor como cronista afiado da vida cotidiana. No 365 Filmes, a produção ganha destaque justamente por expor, sem pudor, o que tantas vezes preferimos esconder.
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