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Dustin Hoffman brilha em “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe”, o retrato familiar afiado de Noah Baumbach

Por Thaís Amorim4 Minutos de leitura

“Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe” chegou à Netflix em 2017 e logo se tornou referência quando o assunto é drama familiar contemporâneo. Na superfície, a produção dialoga com o humor agridoce típico de Noah Baumbach; no fundo, carrega a crueldade íntima que remete a Ingmar Bergman, sem perder o tom levemente cômico que o diretor norte-americano domina tão bem.

Com Dustin Hoffman no centro de uma família disfuncional, o longa reúne também Emma Thompson, Adam Sandler, Ben Stiller e Grace Van Patten para expor feridas herdadas de uma convivência turbulenta. O elenco alinhado à direção precisa de Baumbach resulta em um filme que, mesmo minimalista, provoca reflexões profundas sobre afeto, fracasso e identidade.

A performance de Dustin Hoffman eletriza o retrato de um patriarca em crise

Aos 80 anos, o personagem Harold Meyerowitz vive do prestígio passado que sua obra de escultor nunca consolidou. Hoffman traduz esse homem em negação com gestos sutis: um olhar demorado no espelho, a rabugice cortante diante dos filhos, a voz que alterna arrogância e fragilidade na mesma frase. O ator cria um veterano vaidoso que, mesmo antipático, desperta pena exatamente por ser real.

Baumbach usa planos fechados para destacar o desconforto que o patriarca gera. Hoffman preenche cada um deles com insegurança mascarada de superioridade, lembrando o espectador de que o filme é, em essência, um estudo sobre ego e frustração. O resultado é um desempenho que, sem recorrer a grandes explosões de emoção, sustenta o eixo dramático da narrativa.

Emma Thompson e Grace Van Patten iluminam o caos familiar

Emma Thompson surge quase irreconhecível como Maureen, a quarta esposa de Harold. Entre taças de vinho e comentários fora de hora, a atriz constrói uma figura excêntrica, porém sensível, que observa a briga do clã como quem vigia um incêndio doméstico. A leveza aparentemente etérea de Maureen contrasta com o rancor enrijecido dos enteados, rendendo momentos de humor que impedem o filme de descambar para o desespero puro.

Já Grace Van Patten, como Eliza, conduz a narrativa a um ponto de esperança. A jovem diretora de curtas decide sair de casa para estudar cinema, gesto que espelha o sonho sufocado do pai Danny. Van Patten dosa inocência e maturidade, funcionando como bússola moral da história; seu olhar de quem ainda acredita no futuro oferece descanso ao espectador em meio a diálogos repletos de acusações veladas.

Adam Sandler e Ben Stiller mostram versatilidade fora do território da comédia

Conhecido por papéis pastelões, Adam Sandler entrega aqui um Danny vulnerável, músico falido que nunca se libertou da sombra paterna. O ator aposta em silêncio e melancolia, evitando o histrionismo que marcou boa parte de sua carreira. A sensibilidade de Sandler faz o público sentir o peso de cada concessão que o personagem precisou fazer.

Ben Stiller, por sua vez, interpreta Matthew, corretor de imóveis que tentou distância do pai a todo custo. Diferente das neuroses expansivas de seus filmes anteriores, Stiller assume contenção. Em uma das melhores cenas – o jantar em que Harold o humilha – o ator reage com olhos marejados e respiração pesada, sem levantar a voz. A tensão é quase física, provando que Stiller também domina o drama quando a piada sai de cena.

Noah Baumbach afia roteiro e direção para dissecar laços familiares

O cineasta, que assina texto e direção, emprega estruturas capitulares para acompanhar cada filho, criando episódios que funcionam como curtas interligados. A abordagem reforça a ideia de que, embora compartilhem o sobrenome, os Meyerowitz vivem realidades paralelas, colidindo apenas quando o ego do pai os puxa de volta à órbita dele.

Baumbach utiliza diálogos sobrepostos, interrupções e pausas incômodas, recurso que aproxima o espectador da sensação de estar à mesa junto com a família. A fotografia de Robbie Ryan recusa glamour; opta por tons neutros, quase lavados, sublinhando a falta de idealização. A trilha minimalista de Randy Newman aparece em momentos estratégicos, realçando o humor mordaz sem abafar o desconforto.

Vale a pena assistir a “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe”?

Para quem procura um drama que combina humor ácido, personagens complexos e atuações inspiradas, a resposta é sim. A crueldade íntima à la Bergman encontra-se aqui filtrada pela ironia de Baumbach, em um filme que lembra que nenhum laço familiar é simples. Disponível na Netflix, “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe” também reforça a versatilidade de Adam Sandler, Dustin Hoffman e Emma Thompson, e confirma o diretor como cronista afiado da vida cotidiana. No 365 Filmes, a produção ganha destaque justamente por expor, sem pudor, o que tantas vezes preferimos esconder.

Thaís Amorim

Sou Thais dos Santos Amorim, redatora profissional e co-fundadora do portal 365 Filmes. Formada em Marketing, especializei-me na criação de conteúdos estratégicos e curadoria de entretenimento, unindo a análise crítica de séries e filmes às melhores práticas de comunicação digital. Com uma trajetória de mais de 5 anos no mercado, consolidei minha experiência editorial no portal MasterDica, onde desenvolvi um olhar apurado para as tendências do streaming e comportamento da audiência. No 365 Filmes, atuo na intersecção entre a técnica narrativa e a experiência do usuário, garantindo informações de alta relevância e credibilidade para o público cinéfilo.

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