Enquanto a maior parte da ficção televisiva sul-coreana se apoia no ritmo frenético de Seul, alguns roteiristas e diretores têm encontrado nas vilas, ilhas e povoados o cenário ideal para histórias mais intimistas. Esses dramas coreanos ambientados em cidade pequena exploram-se a partir da coletividade: vizinhos que se conhecem pelo nome, cafés onde todo mundo se reúne e segredos que se espalham na mesma velocidade com que surgem.
Deslocados urbanos, suspense policial e romances inusitados compõem a lista a seguir. Para o leitor do 365 Filmes, o recorte foca em performances, direção e construção de roteiro que justificam o porquê de cada produção ter conquistado público e crítica.
Retratos contemporâneos de rotina e pertencimento
My Liberation Notes (2022) vira do avesso a jornada aparentemente lenta de três irmãos interpretados por Kim Ji-won, Lee El e Lee Min-ki. A direção de Kim Seok-yoon privilegia planos longos, nos quais o silêncio pesa tanto quanto qualquer diálogo, e dá espaço para que o elenco explore vulnerabilidade sem verbalizar tudo. O texto de Park Hae-young articula pequenas frustrações do dia a dia, destacando a exaustão de quem sai da vila para trabalhar na capital.
Já em Diary of a Prosecutor (2019), Lee Sun-kyun e Jung Ryeo-won encarnam promotores obrigados a operar em Jinyoung, cidade fictícia que funciona como laboratório social. A naturalidade dos diálogos cômicos, fruto do roteiro de Park Yeon-seon, mostra que conflitos éticos podem ser debatidos sem perder leveza. A direção de Lee Tae-gon opta por cenários apertados dentro do fórum, reforçando a sensação de “todo mundo conhece todo mundo”.
Mistério policial e fantasia com sotaque rural
Beyond Evil (2021) transforma o pequeno distrito de Manyang em personagem vivo. Shin Ha-kyun e Yeo Jin-goo, guiados pela direção precisa de Shim Na-yeon, conduzem a investigação de um serial killer num jogo de conivência e suspeita. A dramaturgia de Kim Su-jin evita maniqueísmos, enfatizando a pressão adicional de se trabalhar onde o suspeito pode ser o vizinho de infância.
Em Behind Your Touch (2023), Han Ji-min interpreta a veterinária com poderes de psicometria que ajuda o detetive vivido por Lee Min-ki. A roteirista Lee Nam-kyu equilibra humor e suspense, tirando proveito do cotidiano agrícola de Mujin para criar situações inusitadas, enquanto o diretor Kim Seok-yoon — repetindo parceria com Han — mantém a trama ágil, apesar do clima provinciano.
Romances históricos e fantásticos fora da corte
100 Days My Prince (2018) desloca o príncipe interpretado por Doh Kyung-soo para um vilarejo onde ele sequer sabe plantar arroz. A química com Nam Ji-hyun sustenta a narrativa criada por No Ji-seol, que subverte convenções do sageuk ao mostrar nobreza desajeitada diante das tarefas camponesas. A direção de Lee Jong-jae realça a comicidade através de enquadramentos que contrastam vestes reais com palha e lama.
Imagem: Imagem: Divulgação
Prevista para 2025, The Potato Lab coloca Yoon Kye-sang num terno impecável em meio a plantações. O diferencial está na protagonista de Kim Seol-hyun, pesquisadora de batatas que desafia a típica dinâmica chefe-funcionária. O roteiro de Baek Mi-kyoung promete aprofundar a temática agrícola como metáfora de crescimento pessoal, enquanto o diretor Lee Hyung-min aposta em fotografia naturalista para valorizar campos abertos.
Relações familiares e segundas chances
The Good Bad Mother (2023) entrega Ra Mi-ran em performance multifacetada, transitando entre rigidez e ternura enquanto tenta reconstruir o vínculo com o filho interpretado por Lee Do-hyun. O roteiro de Bae Se-young recorre ao ambiente rural para intensificar o isolamento emocional dos personagens, e o diretor Shim Na-yeon usa trilha discreta e cenografia austera, mantendo o foco no trabalho dos atores.
No melodrama gastronômico Chocolate (2019), Ha Ji-won e Yoon Kye-sang se reencontram em Wando. A direção de Lee Hyung-min privilegia closes nos pratos preparados pela protagonista, transformando comida em veículo de memória afetiva. Já o texto de Lee Kyung-hee costura passado e presente sem perder coerência, apoiando-se no silêncio compartilhado pelos protagonistas à beira-mar.
Vale a pena maratonar?
Os dramas coreanos ambientados em cidade pequena evidenciam como o contexto rural pode ampliar conflitos humanos, oferecendo aos atores material para performances mais contidas e, ao mesmo tempo, mais cruas. Se a intenção é fugir da ambientação urbana recorrente, a lista fornece opções que combinam mistério, romance e estudo de personagens, sempre com um senso de comunidade que dificilmente se encontra nos arranha-céus.
