Sandokan chegou ao catálogo da Netflix com espadas em riste e, em poucas semanas, superou produções consagradas no ranking global da plataforma. O carisma do “Tigre da Malásia”, aliado a um olhar crítico sobre o colonialismo britânico, despertou interesse por narrativas semelhantes.
Para quem não quer desembarcar desse mar de aventuras, selecionamos dez séries de ação e aventura que conversam com a minissérie italiana. A lista foca na performance do elenco, nas escolhas de roteiristas e diretores, e evidencia como cada título aborda impérios decadentes, rebeliões e avanços técnicos de produção.
Sob o jugo de impérios: o peso dramático dos protagonistas
Em Mr. Sunshine (2018), o diretor Lee Eung-bok molda um drama de época no qual Lee Byung-hun entrega uma atuação contida, mas intensa, como um ex-escravo que retorna à Coreia dominada pelo Japão. O roteiro de Kim Eun-sook equilibra romance e crítica política, refletindo o conflito interno de um herói que, assim como Sandokan, aprende a lutar por um povo que já não reconhece.
O clima sombrio de Taboo (2017) deve-se, em grande parte, à interpretação animalesca de Tom Hardy e ao texto dos roteiristas Chips Hardy e Steven Knight. Ambientada em Londres, a trama destrincha negociatas da Companhia das Índias Orientais e expõe a imoralidade imperial. A direção de Kristoffer Nyholm aposta em cenários enevoados e fotografia fria para potencializar o desconforto, estratégia que lembra a selva úmida de Sandokan.
No clássico australiano Against the Wind (1978), Mary Lukinson e Ian Gilmour optam por um realismo cru ao retratar colonos irlandeses sob domínio britânico no século XIX. Os diálogos em tom documental e a entrega de Jon English, que alterna esperança e revolta, mantêm a minissérie relevante, apesar da estética setentista.
Piratas que navegam além dos sete mares
Black Sails (2014-2017) transforma o mito de Long John Silver em estudo de caráter. Toby Stephens investe em nuances para humanizar o Capitão Flint, enquanto Luke Arnold confere leveza ao oportunista Silver. A roteirista Lisa Joyce e o showrunner Jonathan E. Steinberg sustentam quatro temporadas com diálogos densos e batalhas coreografadas com precisão.
A veia cômica surge em Our Flag Means Death (2022-2023), criação de David Jenkins. Rhys Darby compõe Stede Bonnet com afetação e vulnerabilidade, enquanto Taika Waititi usa sua assinatura cômica para um Blackbeard imprevisível. Mesmo sob tom leve, a série acerta ao discutir identidade e poder, abordagens que Sandokan também tangencia.
Em órbita, mas com espírito pirata, Firefly (2002) aplica códigos do western espacial ao contrabando intergaláctico. Nathan Fillion lidera o elenco como o capitão Malcolm Reynolds, cuja bússola moral vacila, porém nunca quebra. A direção de Joss Whedon intercala humor e ação frenética, mostrando que a resistência a governos opressores funciona em qualquer galáxia.
Remakes que superam as versões originais
Shōgun (2024) revisita o romance de James Clavell com esmero visual e ritmo cadenciado. O showrunner Justin Marks valoriza o silêncio e o conflito cultural, enquanto Hiroyuki Sanada domina a tela como o senhor de guerra Toranaga. A fotografia de John Grillo destaca o contraste entre armaduras samurais e paisagens costeiras, recurso que amplia a sensação de choque cultural presente em Sandokan.
Também italiano, Brigands: The Quest for Gold (2024) dialoga diretamente com o “Tigre da Malásia”. A dupla de roteiristas Michele Altieri e Leonardo Valenti aposta em narrativa episódica para contar a saga de corsários calabreses. O elenco liderado por Michela De Rossi se destaca no jogo de alianças e traições, embora o roteiro por vezes se apoie em coincidências.
Imagem: Imagem: Divulgação
Se a comparação visar apenas fidelidade histórica, One Piece (2023-) joga fora o manual. A direção de Marc Jobst investe em cores saturadas e cenários extravagantes, dando ao protagonista Luffy, vivido por Iñaki Godoy, espaço para performance física que mescla inocência e obstinação. A ausência de rigor factual é compensada pelo senso de aventura, aspecto que atraiu jovens manifestantes mundo afora em 2025.
Produções que impressionam pelo design de produção
Shaka Zulu (1986) mantém-se relevante pelo escopo monumental. Henry Cele carrega a série nas costas com presença cênica indiscutível, enquanto a trilha de Dave Pollecutt ancora batalhas coreografadas em grande escala. Se o financiamento do governo do Apartheid gera ruído histórico, a reconstituição de aldeias e uniformes coloniais continua exemplar.
Fechando a lista, Mr. Sunshine, já mencionado pela atuação, exibe cenários detalhados que recriam Hanseong no começo do século XX. Figurinistas apostam em quimonos sutis e fardas norte-americanas, contrastando tradições locais com influência ocidental, dilema que Sandokan também explora ao vestir turbantes malaios e uniformes britânicos.
Nas entrelinhas dessas produções, o espectador percebe o eco de questões contemporâneas, como ocorreu no thriller nacional Passado Violento, que converte trauma colonial em busca pessoal por justiça.
Vale a pena embarcar nessas jornadas?
A variedade de estilos prova que as séries de ação e aventura não se limitam a duelos de espadas ou tiroteios em conveses. Cada título aqui listado investe em caracterizações sólidas: de Nathan Fillion mantendo o timing cômico em meio a perseguições estelares, a Toby Stephens mergulhando na psicologia de um pirata atormentado. O denominador comum é o elenco afinado ao texto, elemento que sustenta batalhas coreografadas e discursos inflamados.
Diretores e roteiristas também elevam o material. Seja no pacing quase contemplativo de Shōgun, seja na montagem acelerada de One Piece, as escolhas de linguagem adaptam o gênero a diferentes públicos. Esse leque demonstra que a fórmula aventureira permanece maleável sem sacrificar tensão ou espetáculo.
Se Sandokan despertou curiosidade pelo embate entre colonizados e colonizadores, essas produções ampliam o debate com nuances regionais e estéticas variadas. Para o leitor do 365 Filmes, trata-se de um convite a cruzar oceanos, selvas e até sistemas solares na companhia de anti-heróis que não se rendem jamais.
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