Selton Mello no meio de Jack Black, Paul Rudd e uma cobra gigante já seria motivo suficiente para chamar atenção. Só que o novo Anaconda, que estreou na HBO Max em 27 de março, quer mais do que isso. Ele pega a franquia de 1997, joga fora a obrigação de repetir o terror e abraça o caos como linguagem. E isso vai irritar muita gente.
Quem entrar esperando um sucessor direto do original filme da década de 90 pode se frustrar rápido. O filme de Tom Gormican não quer te dar medo o tempo inteiro. Quer rir da obsessão por reviver o passado, da crise de meia-idade masculina e do desespero de gente que acha que nostalgia ainda resolve alguma coisa.
A nota 5,6 no IMDb pode assustar num primeiro olhar, mas ela também esconde um detalhe importante: o longa sabe exatamente que tipo de bagunça quer ser.

O novo Anaconda troca o susto pela humilhação, e isso tem seu valor
A premissa já entrega o espírito da coisa. Um grupo de amigos decide refazer o filme favorito da juventude e trata essa ideia como homenagem, reencontro e chance de voltar a se sentir vivo. Parece simpático.
Também parece uma péssima ideia. E o roteiro entende isso desde o início. Em vez de romantizar o retorno ao passado, ele transforma essa nostalgia em armadilha. A selva entra justamente para destruir essa fantasia.
O que era para ser um “remake entre amigos” vira teste de realidade. A floresta tropical não serve de pano de fundo bonito. Serve de corretivo. O ambiente hostil, os fenômenos extremos, os criminosos violentos e, claro, as cobras gigantes empurram o filme para um terreno em que o humor nasce do fracasso e do pânico, não da fofura.
- Veja também: Anaconda chegou ao HBO Max e transforma nostalgia de meia-idade em aventura caótica na selva
Esse é o ponto em que Anaconda começa a funcionar de verdade. Quando ele para de se vender como releitura espirituosa e assume que quer ver adultos em colapso tentando negociar com um passado que não volta. O original de 1997 tinha medo, exagero e cara de filme B assumido. Esse aqui prefere a vergonha, o autoengano e a piada amarga. Não é a mesma experiência. Nem tenta ser.
Confesso que essa mudança de tom parecia mais esperta no papel do que nos primeiros minutos de tela. Mas o filme cresce quando entende que a graça não está em homenagear a franquia com reverência. Está em desmontar a reverência no meio do mato.
Selton Mello, Jack Black e Paul Rudd entendem melhor a piada do que muita gente vai admitir
O elenco é metade da piada e quase toda a energia do longa. Jack Black e Paul Rudd carregam muito bem essa ideia de homens que já passaram da idade de certas decisões, mas continuam insistindo nelas como se o tempo fosse elástico.
Steve Zahn entra na mesma frequência, e o grupo ganha uma cara de desastre anunciado que combina com a proposta. Mas, no Brasil, o nome que muda o jogo é Selton Mello.
E não só porque ele é um gatilho óbvio de clique. A presença dele ajuda a dar outra textura ao filme. Segundo a cobertura brasileira sobre a estreia no streaming, Selton interpreta Santiago Braga, um biólogo e guia da equipe improvisada, o que reforça a ligação do filme com o cenário da Amazônia e dá ao elenco um ponto de apoio menos caricato no meio do caos.

O resultado é um filme que provavelmente vai dividir o público. Quem queria terror puro pode achar leve demais. Quem topar a proposta encontra uma aventura que prefere o ridículo ao susto e a crise ao heroísmo.
E, sinceramente, isso tem mais personalidade do que tentar copiar o original plano por plano e fingir que a franquia ainda vive no mesmo tempo. A própria imprensa internacional já destacou esse Anaconda como uma releitura metalinguística e cômica da marca, ainda que nem todo mundo tenha comprado a execução.
Para quem acompanha nossa editoria de streaming, esse é o tipo de lançamento que merece atenção justamente porque não joga no seguro.
Ele erra aqui e ali, claro. Mas erra tentando fazer alguma coisa diferente.
E isso já coloca o longa acima de muita produção automática que passa pelo catálogo sem deixar rastro. Também é um prato cheio para quem gosta de acompanhar cinema, nossas críticas e até pautas de curiosidades quando um reboot resolve brincar com a própria ruína.
Anaconda não revive a franquia pelo susto.
Revive pela ironia de ver adultos brincando de passado até a selva cobrar o preço.
Não é um grande filme.
Mas sabe se divertir com a própria loucura, e isso já vale bastante.
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