A relação de Stranger Things com a obra de Stephen King vai muito além de referências espalhadas por Hawkins. Antes mesmo de escrevem uma linha sobre o Mundo Invertido, Matt e Ross Duffer bateram na porta da Warner Bros. para dirigir uma nova versão de It: A Coisa.
O estúdio recusou a proposta, alegando que a dupla ainda não estava preparada para um projeto tão grande. O “não”, porém, virou combustível criativo: em vez de Pennywise, nasceram Demogorgons, bicicletas empoeiradas e um fenômeno global da Netflix.
Quando tudo começou
No início da década passada, os irmãos Duffer chamaram atenção em Hollywood graças ao roteiro do filme Hidden, disputado em leilão por vários estúdios. Embalados pelo sucesso do texto, eles enxergaram It como o passo ideal para se firmarem como diretores.
Ao saber que a Warner planejava uma nova adaptação do clássico de terror, a dupla se ofereceu imediatamente. Os executivos ouviram a proposta, mas preferiram alguém com currículo mais robusto. A vaga acabou preenchida por Cary Fukunaga, recém-elogiado por True Detective.
Por que a Warner disse não
Segundo fontes próximas à negociação, a principal preocupação do estúdio era o orçamento. Fukunaga já tinha experiência em produções grandes; os Duffer, não. A decisão parecia lógica na época, mas viria a moldar o entretenimento nos anos seguintes.
A pergunta que virou ponto de virada
Mesmo derrotados, Matt e Ross continuaram refletindo sobre a história de Stephen King. Uma dúvida não largava o pensamento deles: como condensar um livro de mais de mil páginas em apenas duas horas de filme?
A resposta foi simples e, ao mesmo tempo, revolucionária para a carreira dos dois: não é possível. Para fazer jus à uma narrativa tão extensa, o melhor formato seria uma minissérie de oito ou dez horas. Essa conclusão plantou a semente de Stranger Things.
Estrutura seriada e crianças vulneráveis
A dupla percebeu que poderia conservar o que mais amava em It – um grupo de crianças vulneráveis enfrentando forças sobrenaturais – e, ao mesmo tempo, criar uma trama original. Bastava trocar Derry por Hawkins e Pennywise por uma criatura saída de um universo paralelo.
Nasce Stranger Things
Livres da responsabilidade de adaptar fielmente Stephen King, os irmãos Duffer ganharam autonomia total para inventar regras próprias. Surgiram o Mundo Invertido, o Laboratório de Hawkins, Eleven e uma atmosfera carregada de nostalgia dos anos 80.
Imagem: Netflix
Quando o roteiro chegou à Netflix, a plataforma aprovou rapidamente. Em 2016, Stranger Things estreava e se transformava em uma das produções mais assistidas da história do streaming, cenário que hoje qualquer leitor do 365 Filmes conhece bem.
Finn Wolfhard: elo improvável entre os dois universos
A ligação Stranger Things–It se tornou ainda mais curiosa graças ao ator Finn Wolfhard. O jovem foi escolhido para interpretar Mike Wheeler na série e, pouco depois, escalado como Richie Tozier no filme de Andrés Muschietti.
O cronograma apertado quase fez Finn abandonar Hawkins, porque o projeto de Fukunaga já estava meses adiantado. Quando o diretor saiu e o filme foi reorganizado, as agendas se ajustaram: o ator pôde continuar na série e, mais tarde, enfrentar Pennywise nas telonas.
O impacto da recusa da Warner
Com o sucesso de Stranger Things, fica evidente que a negativa da Warner mudou o rumo da cultura pop. Se o estúdio tivesse apostado nos Duffers, provavelmente não haveria Demogorgon, Eleven ou a popularização do termo “Mind Flayer” fora dos livros de RPG.
Ao mesmo tempo, a série da Netflix virou uma homenagem involuntária a Stephen King. Sem adaptar uma página do autor, os criadores capturaram a essência de suas histórias e levaram esse espírito a uma nova geração.
Do ponto de vista do mercado
A trajetória também sinalizou para Hollywood que projetos seriados poderiam suprir lacunas deixadas pelo formato cinematográfico. Hoje, minisséries de oito a dez episódios são comuns para obras longas, padrão influenciado pela discussão iniciada pelos Duffers.
Conclusão inevitável, mas sem moral da história
A Warner considerou arriscado colocar It nas mãos de dois roteiristas estreantes. Eles, por sua vez, transformaram a frustração no grande trunfo da Netflix. A ligação entre Stranger Things e It, portanto, não é apenas temática: está gravada no DNA de ambas as produções e na própria história recente do audiovisual.
