Esqueça qualquer ideia de comédia fofa com cachorros. Comer, Rezar, Ladrar, que acaba de chegar à Netflix, usa os animais apenas como pretexto para algo bem menos confortável: expor o completo descontrole emocional de seus donos.
Ambientado em um centro de treinamento nas montanhas, o filme reúne um grupo de tutores que acreditam estar ali para corrigir o comportamento de seus cães. Só que a lógica se inverte rapidamente, e fica evidente que os únicos equilibrados naquele ambiente são justamente os animais. Confira o trailer:
A partir desse ponto, o longa abandona qualquer tentativa de ser “fofinho” e passa a operar no território do constrangimento, onde o humor nasce do desconforto e da incapacidade dos personagens de lidarem com suas próprias falhas.
O espelho da coleira: quando o problema é sempre o dono
O acerto de Comer, Rezar, Ladrar está na forma direta como constrói seus personagens. A política Ursula (Alexandra Maria Lara) não quer um cachorro, quer uma ferramenta de campanha. O casal em crise não busca um pet, mas uma distração para um relacionamento já esgotado. E a jovem incapaz de controlar seu próprio animal revela, na prática, que nunca teve controle sobre si mesma.
O adestrador Nodon funciona menos como treinador e mais como alguém que expõe essas contradições sem muito esforço. Ele não precisa confrontar diretamente ninguém, porque as situações falam por si. E é aí que o filme encontra sua força.
O humor não depende de piadas elaboradas, mas da observação desses adultos tentando manter alguma dignidade enquanto tudo escapa ao controle. Há algo de incômodo nessa exposição, especialmente porque as situações não parecem tão distantes da realidade.
Os cães, nesse contexto, deixam de ser protagonistas e passam a funcionar como espelhos, refletindo o comportamento caótico de seus donos com uma clareza quase cruel.
Entre o constrangimento e a suavização: quando o filme perde a coragem
O problema é que, justamente quando encontra esse tom mais afiado, Comer, Rezar, Ladrar começa a recuar. A direção opta por suavizar o impacto, transformando o que poderia ser uma sátira mais incisiva em uma experiência mais confortável. As arestas são aparadas, os conflitos são amenizados e a narrativa passa a buscar um tipo de reconciliação emocional que não combina com a dureza inicial.
Essa escolha enfraquece o resultado. O filme claramente funciona melhor quando abraça o constrangimento e o ridículo dos personagens. No entanto, ao tentar acolher o espectador no terceiro ato, ele sacrifica justamente a mordida que tornava a proposta interessante.
As atuações ajudam a sustentar o equilíbrio, especialmente Alexandra Maria Lara, que constrói uma personagem tão desconectada da realidade que chega a ser fascinante. Ainda assim, nem o elenco consegue compensar totalmente essa mudança de direção.
Enquanto isso, o restante dos personagens segue orbitando o mesmo padrão: figuras emocionalmente instáveis que poderiam render mais se o roteiro estivesse disposto a ir além.

Nota 6,5/10, porque acerta no desconforto, mas recua na hora certa
Comer, Rezar, Ladrar recebe nota 6,5/10 por acertar ao transformar uma premissa leve em um retrato desconfortável e, em muitos momentos, bastante honesto sobre relações humanas.
O problema é que, quando tem a chance de aprofundar essa proposta e assumir de vez seu lado mais ácido, o filme prefere recuar e buscar um fechamento mais suave, o que reduz seu impacto.
Ainda assim, vale a experiência para quem busca uma comédia diferente, mais baseada em observação e constrangimento do que em piadas diretas. Mas fica a sensação de que poderia ter sido muito mais incisivo.
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