O documentário Melania, que custou US$ 40 milhões e acompanha a ex-primeira-dama nos 20 dias que antecederam a posse de Donald Trump, viu suas receitas encolherem 67% no segundo fim de semana em cartaz. Mesmo assim, a Amazon MGM garante que o filme segue dentro da estratégia traçada para impulsionar sua vida útil no streaming.
Kevin Wilson, chefe de distribuição do estúdio, divulgou nota enfatizando o valor do lançamento nos cinemas, mesmo com o modesto total de US$ 9,5 milhões arrecadados até agora. Segundo ele, a estreia de US$ 7,2 milhões gerou “momentum” para a futura chegada ao Prime Video e para a série documental derivada já confirmada.
Direção de Brett Ratner marca retorno cercado de controvérsias
Melania é o primeiro longa de Brett Ratner após as denúncias de agressão sexual que o afastaram de Hollywood em 2017. O cineasta reassume a cadeira com uma proposta intimista: mostrar bastidores da futura primeira-dama entre 1.º e 20 de janeiro de 2025, período em que Washington fervilhava de incertezas.
A assinatura de Ratner é visível sobretudo na edição acelerada, com cortes que tentam imprimir urgência política. Entretanto, vários críticos apontaram que o diretor evita questões incômodas à protagonista, optando por cenas de bastidor em que Melania surge sempre controlando a própria narrativa. O resultado foi um índice de apenas 10% no Rotten Tomatoes — pontuação que não se via em um projeto desse porte desde o inusitado retorno de Gore Verbinski às telonas, também alvo de opiniões extremadas.
Roteiro guiado pela participação direta da ex-primeira-dama
Um dos pontos mais questionados é o contrato que deu a Melania Trump controle editorial sobre o material final. O acordo, confirmado pelos produtores Fernando Sulichin e Marc Beckman, limitou o campo de ação dos roteiristas convidados, entre eles o veterano Nick Tylor.
Esse controle ficou claro em passagens que repetem declarações públicas da ex-modelo eslovena. Em vez de entrevistas externas que pudessem contrapor versões, o roteiro opta por depoimentos de assessores e arquivos oficiais da Casa Branca. Críticos classificaram o resultado como “propaganda elegante”, enquanto o público alinhado ao trumpismo premiou o filme com 99% de aprovação verificada.
Atuação diante das câmeras: quando a própria Melania vira personagem
Em um documentário, o termo “atuação” costuma ser substituído por “presença”. Ainda assim, Melania adota posturas que lembram ensaios fotográficos: olhar fixo, sorriso contido e frases milimetricamente calculadas. Há momentos em que a ex-primeira-dama se mostra à vontade, como na visita à Blair House; em outros, parece desconfortável, reforçando a sensação de script.
Donald Trump surge pontualmente, quase sempre em modo coaching, elogiando a “resiliência” da esposa. A dinâmica do casal, tão explorada pela imprensa, permanece filtrada: não há divergências registradas, tampouco comentários sobre escândalos que rondaram a campanha. Para parte da audiência, essa escolha fragiliza o compromisso jornalístico do projeto; para outra, reforça a aura de união familiar que sustenta a base eleitoral republicana.

Imagem: Imagem: Divulgação
Recepção nas salas e na crítica especializada
A Amazon não esconde que esperava um desempenho limitado nos cinemas. Kevin Wilson reforçou que “teatro e streaming são momentos de valor distintos”, ecoando a prática de estender a vida de um filme em janelas múltiplas. O recuo de 67% no segundo fim de semana, porém, colocou Melania atrás de títulos menores, inclusive da comédia estrelada por Zac Efron que voltou ao topo da Netflix, citada pelo 365 Filmes em matéria recente.
Analistas de bilheteria observam que a campanha de marketing — focada em redes sociais conservadoras — não conseguiu romper a bolha política. Ao mesmo tempo, o valor de produção de US$ 40 milhões coloca pressão adicional sobre a performance no Prime Video. Filmes como Colossal ou mesmo a aventura de Brad Pitt em The Adventures of Cliff Booth chegaram ao streaming após ciclos curtos de exibição, mas partiam de orçamentos bem inferiores.
Vale a pena assistir ao documentário Melania?
A resposta depende do olhar do espectador. Quem busca um retrato crítico do período de transição presidencial pode se frustrar com a ausência de contrapontos. Já o público interessado em conhecer, sem filtros externos, a autopercepção de Melania Trump encontrará mais de 100 minutos dedicados justamente a isso.
Do ponto de vista técnico, o filme exibe acabamento primoroso: fotografia elegante, trilha minimalista e acesso privilegiado a bastidores do poder. No entanto, a falta de distanciamento compromete a densidade jornalística, motivo que afasta parte da crítica especializada.
Em resumo, Melania funciona como documento complementar para quem acompanha a política norte-americana, mas carece de pluralidade para convencer os indecisos. A aposta da Amazon é que, no conforto do streaming, o longa encontre seu público e impulsione a futura docussérie. Resta saber se o buzz gerado nas salas será suficiente para transformar a curiosidade inicial em cliques sustentáveis no Prime Video.
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