Anne Hathaway quer que o público finalmente conheça o lado mais esquisito de sua filmografia. A comédia sombria “Colossal”, lançada em 2016 e pouco vista nos cinemas, acaba de entrar no catálogo da Netflix e volta a movimentar discussões sobre criatividade no cinema independente.
Com classificação indicativa para maiores, o longa mistura drama sobre alcoolismo e criaturas gigantes em um dos cruzamentos de gênero mais ousados da última década. A produção é escrita e dirigida pelo espanhol Nacho Vigalondo, cineasta cultuado por “Cronocrimenes” e conhecido por abraçar premissas fora da curva.
Anne Hathaway encara vícios e monstros em atuação visceral
Fugindo dos papéis mais glamourosos que lhe renderam fama, Hathaway vive Gloria, redatora desempregada e alcoólatra que retorna à cidade natal depois de ser expulsa do apartamento pelo namorado Tim, interpretado por Dan Stevens. A atriz não suaviza os recortes mais ásperos da personagem: tremores matinais, lapsos de memória e uma vergonha constante moldam cada cena.
Hathaway também acerta ao equilibrar humor autodepreciativo e dor genuína. Quando Gloria descobre que seus passeios noturnos em um parquinho viram reflexos kaiju que destroem Seul, a surpresa não se apoia em gritos ou histeria, mas em um desespero silencioso. Essa escolha sublinha o subtexto sobre responsabilidade enquanto reflete, de forma física, os estragos internos causados pela dependência.
Jason Sudeikis expande a comédia para territórios sombrios
Conhecido pela veia humorística, Jason Sudeikis assume risco semelhante e entrega um Oscar muito diferente do treinador carismático de sua série de TV. O personagem começa como antigo colega bonachão, mas lentamente revela traços controladores. Essa virada, conduzida sem caricatura, faz o roteiro testar os limites da amizade e do abuso emocional.
A tensão entre Hathaway e Sudeikis sustenta o coração dramático de “Colossal”. Em diálogos carregados de passividade agressiva, os dois mostram química pontuada por incômodo. Quando a disputa simbólica entre eles ganha escala monstruosa, Vigalondo traduz ressentimentos para um espetáculo visual de prédios desmoronando, mantendo o foco nas microexpressões dos atores.
Nacho Vigalondo combina terapia e destruição em roteiro de autor
Assinando texto e direção, Vigalondo mergulha em elementos autobiográficos, como já declarou em entrevistas durante o SXSW. O cineasta usa a figura do kaiju para encenar um combate interno: a parte de si que precisa de ajuda versus a faceta que sabota qualquer progresso. O roteiro faz isso sem discursos didáticos, utilizando humor ácido para expor culpa e recaída.
O controle de tom impressiona. Entre uma piada sobre ressaca e um pisão de monstro que deixa centenas de vítimas fictícias, o filme transita por gêneros sem parecer fragmentado. A fotografia de Eric Kress adota cores frias na pequena cidade e luz saturada nas cenas ambientadas na Coreia do Sul, reforçando a distância entre ação real e consequência simbólica.

Imagem: Roger Wg/INSTARs
Recepção desigual e chance de redescoberta no streaming
Exibido pela primeira vez no Festival de Toronto, “Colossal” saiu ovacionado pela crítica especializada, mantendo hoje 82% de aprovação no Rotten Tomatoes. Ainda assim, a passagem pelos cinemas em 2017 foi discreta, longe de quebrar recordes de bilheteria. A mistura de gêneros, embora elogiada, dificultou a comunicação com o público amplo.
A chegada a plataformas on-demand costuma reverter esse panorama para filmes de nicho. Hathaway publicou em suas redes que “ninguém viu” a produção na época e incentiva uma segunda vida no streaming. A divulgação boca a boca já fez outras comédias voltarem ao radar, como ocorreu recentemente com a produção estrelada por Zac Efron que reapareceu no topo da Netflix (confira os detalhes). Se a curiosidade sobre a atriz vencedora do Oscar somar-se ao algoritmo da plataforma, “Colossal na Netflix” pode finalmente atingir seu público-alvo.
Vale a pena assistir?
Para quem procura um estudo de personagem embrulhado em espetáculo kaiju, “Colossal na Netflix” oferece frescor raramente visto no circuito comercial. A entrega sem filtros de Anne Hathaway justifica cada minuto, enquanto Jason Sudeikis desconstrói seu timing cômico em favor do desconforto.
O roteiro de Nacho Vigalondo mantém ritmo enxuto em 109 minutos, sem abandonar o caráter intimista nos instantes de destruição. Já a trilha de Bear McCreary costura tensão com ironia, lembrando que o longa é, antes de tudo, uma metáfora sobre assumir culpas e cortar ciclos tóxicos.
Leitores do 365 Filmes que apreciam propostas autorais, mas não abrem mão de entretenimento visual, encontram aqui um exemplar que debate vício, amizade e autopunição sem perder o senso de diversão macabra. “Colossal” está disponível no catálogo brasileiro da Netflix.
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