Depois de quatro anos de espera, Enola Holmes 3 chegou à Netflix em 1º de julho com uma nova escala: a jovem detetive viaja a Malta para um casamento e acaba investigando o desaparecimento de Sherlock Holmes enquanto tenta recuperar um carregamento de ouro roubado.
A trama se complica quando Moriarty reaparece, mas não da forma esperada. A vilã é libertada da prisão por um sargento britânico que promete uma troca: ela ajuda na busca pelo ouro, ele a deixa livre. E, é claro, ela trai o acordo.
O problema é que a estratégia de Moriarty para se infiltrar em Malta revela uma das inconsistências mais óbvias do roteiro. Ela assume a identidade de uma professora chamada Adeline Rathe, um nome que não é aleatório e que deveria ter levantado bandeiras imediatas para qualquer oficial britânico minimamente atento.
O detalhe pertence à categoria dos furos de roteiro que virou conversinha entre fãs depois da estreia: como ninguém percebeu? E por que a produção deixou isso passar?
O disfarce que deveria ser óbvio demais
A escolha do nome “Adeline Rathe” não é casual. Ele faz referência direta ao navio The Wrath of Adeline, a embarcação ligada ao desaparecimento do ouro que move toda a trama de Malta. Decades antes dos eventos do filme, esse navio e seu carregamento sumiram, deixando um mistério que ainda pesa sobre as autoridades britânicas envolvidas naquele caso.
A lógica fica frágil quando consideramos quem Moriarty estaria enfrentando em Malta. Vários oficiais britânicos que participaram daquela investigação original ainda ocupam cargos importantes na época do filme. Para uma vilã que se apresenta como professora, seria absolutamente natural que alguém reconhecesse a referência do nome. A conexão entre “Adeline Rathe” e o navio desaparecido não é um detalhe tão obscuro que passaria despercebido por investigadores experientes.
Por que ninguém viu a armadilha óbvia?
O filme nunca oferece uma explicação plausível para isso. Não há cena em que um oficial britânico quase descobre a ligação e é desviado. Não há confronto mascarado onde a verdadeira identidade de Moriarty é mantida em sigilo por um fio. A produção simplesmente avança como se ninguém prestasse atenção. Isso enfraquece o jogo de inteligência que deveria existir entre Moriarty e suas adversárias.
Em Enola Holmes 1 e 2, a vilã funcionava porque era um passo à frente de todos. Aqui, ela funciona menos por inteligência e mais porque o roteiro permite que as outras personagens sejam negligentes. A diferença é crucial. Um personagem inteligente que vence inimigos mais fracos é menos interessante que um personagem inteligente que consegue escapar de armadilhas bem construídas.
O padrão de decisões questionáveis em Enola Holmes 3
A identidade de Moriarty não está sozinha nessa categoria. O próprio sequestro de Lady Tewkesbury, futura sogra de Enola, parece desnecessário do ponto de vista narrativo. Moriarty queria informações sobre o ouro, não a personagem em si. Seria mais simples revistar os aposentos de Lady Tewkesbury quando ela estivesse ausente.
Outro problema: Tewkesbury renuncia ao seu título de nobreza no final do filme para “romper com os erros do passado”. Mas nos filmes anteriores, ele usava exatamente esse título para defender reformas na Câmara dos Lordes. Abandonar o poder sem garantia de que seu sucessor compartilhe seus valores parece contraditório.
Há ainda a questão do casamento de Enola, que é celebrado por Eudoria Holmes, que admite não ter autoridade legal para oficializá-lo. O filme nunca confirma se a cerimônia virou oficial depois.

O que Moriarty deveria ter feito?
Se a intenção era criar um disfarce verdadeiramente impenetrável, a produção poderia ter escolhido um nome que não tivesse conexão óbvia com o caso histórico. Ou poderia ter construído cenas que explicassem por que oficiais britânicos falharam em fazer a conexão: talvez eles estivessem operando sob pressão, talvez o caso original fosse tão antigo que os arquivos estivessem perdidos, talvez a informação fosse controlada a ponto de não circular livremente entre os postos.
Essas soluções narrativas existem. Que o roteiro de Jack Thorne, que funcionou bem em Enola Holmes 1 e 2, não as explorasse em 3 é a inconsistência. O filme privilegia a ação sobre a lógica interna, e isso deixa Moriarty, a vilã mais inteligente da franquia, parecendo menos formidável do que deveria ser.
A saga sempre viveu da tensão entre o intelecto de Enola e de seus adversários. No terceiro filme, essa tensão se dilui porque vários conflitos se resolvem por negligência, não por astúcia. Moriarty consegue seus objetivos não porque é mais inteligente, mas porque ninguém a detém com eficiência.
O filme ainda funciona como entretenimento, a ação em Malta é competente, os cenários são bonitos e o mistério do ouro mantém o ritmo. Mas para quem investe na dinâmica intelectual que definiu a franquia, esses furos deixam marcas visíveis. Eles sinalizam que, talvez, a produção estava mais interessada em ampliar a escala do que em garantir que essa escala maior sustentasse as mesmas regras narrativas que fizeram os primeiros filmes funcionar.
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