Emerald Fennell retorna aos holofotes com sua leitura livre de Wuthering Heights, agendada para 13 de fevereiro de 2026. O longa, de 136 minutos, exibe um espetáculo visual repleto de cores intensas e figurinos anacrônicos, porém sacrifica boa parte da carga social que ergue o clássico de Emily Brontë.
Nesta crítica, o 365 Filmes analisa como o elenco liderado por Margot Robbie e Jacob Elordi tenta sustentar um roteiro que prefere sensações táteis a conflitos de classe ou raça, centrais no livro. A seguir, investigamos performances, escolhas de direção e o impacto de um design de produção que divide opiniões.
Atuações: química evidente, conflito diluído
Margot Robbie incorpora Catherine Earnshaw com energia, alternando impulsividade adolescente e gula materialista. Mesmo assim, sua composição raramente convence como uma jovem de 19 anos. A atriz brilha nos momentos de desespero — especialmente quando Cathy pondera entre paixão e segurança financeira —, mas o texto reduz sua tormenta a um dilema de status, deixando a intérprete sem o arco trágico que o romance exige.
Jacob Elordi, escalado como Heathcliff, exibe presença física e leveza de gestos que contrastam com a tradicional ferocidade do anti-herói brontëano. A câmera de Linus Sandgren destaca o porte do ator com close-ups de cicatrizes e suor reluzente, porém a persona brutal nunca se consolida. Sem o histórico de discriminação racial descrito no livro, a amargura do personagem parece vinda do nada, e Elordi se vê preso a um ciúme genérico que pouco ameaça.
Direção de Emerald Fennell: atmosfera sobre substância
Fennell abandona o lirismo soturno das charnecas por um ambiente quase pop. Tons de rosa-chiclete, vermelho sangue e seguido uso de objetos plásticos dão ao longa o aspecto de um romance de banca de aeroporto — escolha que remete ao exagero de Popeye, cujo caos de bastidores também rendeu visuais memoráveis.
Ao priorizar texturas — ovos quebrados em lençóis, unhas rasgando paredes forradas — a diretora enfatiza sensualidade contida e repressão sexual, mas acaba subtraindo a crítica de classe e o componente de violência racial que movem a trama original. A abertura com um enforcamento público sugere ousadia, contudo o filme logo se acomoda em montagens luxuosas embaladas por Charli XCX, carecendo de ameaça real.
Roteiro: reinterpretação que esvazia temas de Brontë
Assinado pela própria Fennell, o texto altera pontos-chave: Hindley desaparece, Cathy renomeia Heathcliff e o preconceito racial some do radar. Consequência direta: a rivalidade social se reduz a mera disputa por dinheiro. Quando Cathy aceita Edgar Linton (Shazad Latif), a tensão não nasce do risco de degradação, mas da pilha de contas vencidas. O espectador perde a dimensão de tragédia coletiva, recebendo um romance frustrado por motivos quase comezinhos.
Além disso, personagens secundários — Nelly (Hong Chau) e Isabella (Alison Oliver) — surgem como vozes irônicas, porém sem profundidade. Oliver, com intensidade quase caricata, entrega o único contraponto vivo à sisudez dos protagonistas, lembrando a vitalidade que se encontra em clássicos de crime listados em filmes impecáveis revistos recentemente.
Imagem: Imagem: Divulgação
Design de produção e trilha: luxo que distrai
O departamento de arte investe em interiores que remetem a casas de boneca, repletas de espelhos e tecidos brilhantes. A fotografia acentua essa plasticidade com névoa artificial nas charnecas, reforçando o contraste entre a natureza crua e o consumismo que seduz Cathy. O resultado é visualmente hipnótico, mas pouco a pouco distancia a narrativa de qualquer realismo emocional.
As músicas originais de Charli XCX sublinham a rebeldia, mas a insistência em letras literais — “I shouldn’t feel like a prisoner” ecoa enquanto Cathy desfila com joias — quebra aquilo que poderia ser uma tensão implícita. A sensação é de videoclip estendido, algo que, curiosamente, dialoga com a abertura sangrenta de Blade, analisada em outra crítica pela forma como o horror moderno usa música para definir tom.
Vale a pena assistir a Wuthering Heights?
Quem busca uma leitura fiel do clássico encontrará aqui uma obra elegante, porém rasa. O enfoque na estética, aliado à diluição dos conflitos sociais, transforma a tragédia gótica em um romance de superfície. Mesmo assim, admiradores do estilo de Emerald Fennell talvez apreciem a ousadia cromática e a fotografia tátil.
O elenco entrega momentos de combustão isolada, especialmente quando Robbie e Elordi dividem a tela. Mas falta ao roteiro a densidade que sustente o turbilhão emocional característico de Brontë. Sem o peso do contexto histórico, a paixão do casal soa como fuga adolescente — impressiona no primeiro olhar, dissipa-se logo depois.
Se o espectador estiver disposto a encarar Wuthering Heights como experimento visual pop, o filme pode entreter. Entretanto, para quem espera a tormenta moral e social do romance original, a adaptação se mostra, como já apontaram algumas análises, “um abject snooze” — bela, porém surpreendentemente inofensiva.
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