Hollywood nunca resistiu ao apelo de Lara Croft. Desde que a arqueóloga invadiu a cultura pop nos anos 1990, qualquer estúdio que se depara com a franquia Tomb Raider tenta levá-la de volta à tela grande. Ainda assim, passadas mais de duas décadas, todas as versões live-action insistem em ignorar o material que tornou o nome da heroína mundialmente conhecido.
Angelina Jolie, Alicia Vikander e, em breve, Sophie Turner vestiram – ou vão vestir – o icônico top verde, mas nenhuma adaptação mergulhou de verdade nos dois primeiros games, lançados em 1996 e 1997. O resultado é um ciclo de filmes tecnicamente competentes, mas sempre criticados pela mesma lacuna: a ausência das histórias que consagraram Lara.
Angelina Jolie: carisma dominante, roteiro distante dos games
Lara Croft: Tomb Raider (2001) marcou a estreia de Jolie como a aventureira, sob direção de Simon West e roteiro de Patrick Massett e John Zinman. A produção acertou ao destacar o magnetismo físico da atriz, treinada em artes marciais e acrobacias que transformaram sequências de ação em momentos espetaculares. Contudo, os roteiristas preferiram inventar uma narrativa própria envolvendo um artefato cósmico chamado Triângulo da Luz, sem relação direta com a Atlântida ou com o Scion, ponto central do primeiro jogo.
No segundo filme, Lara Croft – Tomb Raider: A Origem da Vida (2003), Jan de Bont assumiu a direção. Jolie continuou entregue ao papel, exibindo segurança com pistolas duplas e humor sarcástico, porém o enredo sobre a mítica Caixa de Pandora desviou novamente do cânone inicial. A crítica reconheceu a presença hipnótica da atriz, mas apontou a falta de conexão com os adversários Natla e Larson, vilões originais que jamais deram as caras.
Alicia Vikander: realismo físico que não bastou
Quinze anos depois, Tomb Raider (2018) chegou sob comando do norueguês Roar Uthaug. O roteiro de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons bebeu ligeiramente da trilogia de jogos reiniciada em 2013, reimaginando Lara como uma jovem sem experiência. Alicia Vikander se destacou pelas cenas intensas de parkour e pelo esforço físico palpável, distanciando-se da figura quase super-heroica de Jolie.
Ainda assim, a produção preferiu recontar a lenda da Rainha Himiko em vez de explorar a corrida contra mafiosos pelo Dagger of Xian ou a disputa contra Natla. Críticos elogiaram a vulnerabilidade de Vikander, mas classificaram o roteiro como derivativo. Sem a mítica Atlântida ou o dragão escondido sob a Grande Muralha, o longa não ofereceu o senso de maravilha presente nos cenários dos games originais.
Sophie Turner e a terceira chance em série da Prime Video
Agora, a Amazon prepara uma produção seriada com Sophie Turner no papel principal, roteiro de Phoebe Waller-Bridge e foco em exibir Lara Croft sob nova ótica. A presença de personagens como Zip e Atlas DeMornay, vindos de fases posteriores dos jogos, indica que a adaptação deve repetir a tendência de pular a origem clássica. Se a ideia é abraçar a nostalgia dos anos 1990, causou estranheza entre fãs ver a trama começar já nos estágios intermediários da cronologia.
Imagem: Imagem: Divulgação
Nesse cenário, a participação de Waller-Bridge promete diálogos afiados e ritmo televisivo moderno, mas resta saber se veremos, finalmente, a Atlântida ou a famosa passagem de Veneza, onde Lara pilota um barco em alta velocidade. Caso contrário, o seriado corre o risco de repetir a fórmula que manteve as produções anteriores longe de aclamação crítica consistente.
Por que os primeiros jogos seguem ignorados?
O primeiro Tomb Raider apresenta Jacqueline Natla, líder caída de Atlântida, rival à altura de Lara graças à combinação de charme e ambição desmedida. A narrativa envolve ruínas ancestrais, dinossauros e experimentos genéticos que resultam em mutantes, ingredientes cinematográficos prontos para set pieces exuberantes. Bastaria expandir motivações de Natla e aprofundar o conflito com Larson para preencher um longa ou temporada inteira.
Já em Tomb Raider II, Lara disputa com mafiosos pela posse do Dagger of Xian. O roteiro do game atravessa a Grande Muralha, um palácio veneziano e plataformas de petróleo abandonadas, culminando numa batalha contra um dragão lendário. O jogo oferece locações variadas, vilões carismáticos e escala épica, tudo inerentemente “filmável”. Ao preferirem tramas autônomas, roteiristas de cinema abriram mão desse pacote completo, prática que o mercado repete há 25 anos.
Vale a pena assistir?
O trabalho de Angelina Jolie permanece referência pela entrega física da atriz e pela criação de uma ícone live-action, apesar do roteiro distante dos games. A versão com Alicia Vikander traz realismo e intensidade, mas não supera o fôlego limitado da narrativa. A série com Sophie Turner carrega expectativas altas, sobretudo pelo envolvimento criativo de Phoebe Waller-Bridge; entretanto, a hesitação histórica em adaptar as primeiras aventuras ainda é o maior obstáculo para conquistar de vez o público e a crítica.
Enquanto isso, a cultura pop mostra apetite contínuo por reinterpretações. Basta observar iniciativas como The Wrecking Crew, que atualiza o espírito de Máquina Mortífera com novos astros. Se Tomb Raider aprender com a própria história e abraçar finalmente os títulos de 1996 e 1997, talvez Lara Croft ganhe a adaptação definitiva que fãs aguardam desde o começo, algo que o site 365 Filmes acompanhará de perto.
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