Os glaciares da Islândia derretem em silêncio enquanto a câmera de Sara Dosa observa cada fissura. Em Time and Water, a diretora de Fire of Love acompanha o escritor Andri Snær Magnason numa jornada dupla: despedir-se das geleiras que moldaram a identidade do país e preservar, em vídeos de família, lembranças que também se desfazem com o tempo.
O resultado é um documentário de 90 minutos apresentado em Sundance 2026 que exibe imagens de cair o queixo, mas assume um tom quase hipnótico. A mesma serenidade que conquista pelo visual acaba roubando a força do discurso ambiental. Em vez de sirene, o filme soa como uma canção de ninar para um planeta febril.
Direção contemplativa de Sara Dosa
Sara Dosa mergulha na paisagem islandesa com a mesma sensibilidade que exibiu ao filmar vulcões em Fire of Love. Aqui, porém, ela troca explosões por lentidão. Longos planos de rios descongelando e nuvens que parecem pinturas reforçam a ideia de passagem do tempo, mas a escolha de ritmo sedativo gera ambivalência: a beleza tira o fôlego e, simultaneamente, anestesia.
A cineasta aposta em montagem minimalista, sem entrevistas cabeças-falantes nem gráficos ameaçadores. A aposta pode ser lida como ousadia estética ou risco calculado — ao dispensar estruturas tradicionais de documentário ambiental, Dosa aproxima o espectador dos sentimentos íntimos de Magnason, mas afasta quem espera dados concretos sobre responsabilidade humana.
Narrativa e roteiro de Andri Snær Magnason
Magnason assume a narração e assina o roteiro, transformando o filme numa extensa carta para os filhos. Ele resgata filmes caseiros, cartas de avós exploradores e até registros de alpinistas da família. Tal estratégia personaliza o impacto da crise climática, lembrando o tom memorialístico visto em Once Upon a Time in Harlem, que também recorre a passados coletivos para discutir perdas contemporâneas.
O problema surge quando a metáfora — “o fim do gelo é o fim da memória” — é repetida exaustivamente. Ao martelar a similitude em cada cena, o roteiro corre em círculos, fazendo o espectador perceber a engrenagem antes da emoção. Falta a Magnason, por exemplo, a acidez sociopolítica de documentários como Who Killed Alex Odeh?, que não hesitam em apontar responsabilidades. Em Time and Water, o diagnóstico do aquecimento global chega só na reta final, quase como nota de rodapé.
Fotografia e ritmo: beleza e lentidão
Pedro Alvarez Mesa, diretor de fotografia, registra detalhes que poderiam ilustrar um livro de arte: texturas de gelo rachado, reflexos azuis em cavernas e a luz dourada que incide sobre vales recém-nascidos. Cada quadro parece pensado para conviver eternamente nas redes sociais e chamar atenção no feed do Google Discover.
Contudo, o ritmo glacial dificulta o engajamento. Sequências de cinco ou seis minutos apenas de gelo derretendo entregam a mensagem, mas também convidam a mente a vagar. Alguns espectadores podem experimentar aqui o mesmo estranhamento que sentem com dramas de andamento pausado, caso de Take Me Home. O risco é que, ao tentar transformar a crise num haicai visual, o filme se torne exercício de estilo e perca o senso de urgência.

Imagem: Imagem: Divulgação
Impacto emocional e comparação com outros filmes climáticos
Quando o foco se desloca da paisagem para o lar de Magnason, Time and Water atinge seu ponto mais potente. A forma carinhosa como o escritor descreve os avós — pioneiros que caminharam sobre os glaciares que ele agora enterra — aproxima público e personagem. Nesse recorte intimista, a dor adquire rosto, tornando-se mais fácil de sentir do que de compreender numericamente.
Ainda assim, a obra esbarra em falta de variedade de tom. Enquanto títulos recentes, como Carousel: Chris Pine e Jenny Slate brilham em drama romântico impressionista, alternam momentos de leveza e tensão, Dosa prefere manter o documentário num registro contínuo de melancolia. Falta, portanto, respiro narrativo que realce os instantes de maior gravidade.
Vale a pena assistir a Time and Water?
Para quem busca cinema contemplativo, Time and Water oferece uma experiência sensorial rara: som de água corrente, camadas de gelo crepitando e uma locução quase sussurrada. A fotografia justifica a ida à sala escura, e o afeto sincero de Magnason pela família cria envolvimento genuíno.
Em contrapartida, espectadores interessados em informações objetivas sobre a crise climática talvez saiam frustrados. O documentário hesita em apontar responsáveis, prefere a elegia à denúncia e termina soando mais como homenagem que como chamado à ação. Ainda assim, ver o primeiro funeral oficial de uma geleira, captado pelas lentes de Dosa, produz impacto difícil de esquecer.
No balanço final, Time and Water cumpre a missão de registrar um mundo em transformação antes que ele desapareça por completo. Não se trata de um alerta estridente, mas de um sussurro bonito e triste — um filme que o 365 Filmes recomenda a quem aprecia a vertente mais poética do gênero documental e está disposto a encarar um ritmo tão lento quanto o derretimento que ele retrata.
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