Gravado em agosto de 1972 e finalizado somente agora, Once Upon a Time in Harlem chega ao Festival de Sundance 2026 como um evento histórico. O material, guardado por décadas, volta à cena para testar a força de ideias que, mesmo antigas, ainda soam urgentes.
Dirigido por William Greaves, com acabamento de seu filho David, o filme se firma como vitrine de debates intensos, regados a arte e lucidez política. A sessão não apenas emociona: convida o público a perceber o quanto registrar — e preservar — uma conversa pode ser um ato tão revolucionário quanto a conversa em si.
Direção em família: um diálogo entre gerações
William Greaves, referência de cinema experimental com Symbiopsychotaxiplasm: Take One, já não está entre nós há doze anos. Ainda assim, sua presença transborda no documentário. A câmera, curiosa e quase invisível, observa o cineasta perguntando, cutucando e reagindo aos convidados. Ao lado dele, David Greaves assume a montagem final e prova que o sentimento de continuidade familiar vai além do sobrenome no crédito.
Anne de Mare e Lynn True, responsáveis pela edição, mantêm a veia metalinguística típica de Greaves pai: quem dirige também vira personagem. Quando vemos David orientando a digitalização ou Liani Greaves (neta do diretor) conferindo fotografias de bastidores, a percepção de tempo se dobra sobre si mesma. Passado e presente dialogam e o espectador, sem esforço, passa a fazer parte da festa.
Roteiro espontâneo: intelectuais como protagonistas
Não há script tradicional em Once Upon a Time in Harlem. O argumento se constrói nos próprios debates, gravados na casa de Duke Ellington. Entre drinques e risadas, figuras como o ator Leigh Whipper e o artista Richard B. Moore trocam farpas elegantes. Moore contesta a ideia de Langston Hughes sobre se rotular como “artista negro” ou apenas “americano”, enquanto Whipper, em tom melancólico, questiona se a juventude conhece o sacrifício dos veteranos.
Essa liberdade de conversa confere ao filme ritmo vivo, às vezes febril. Quando a discussão se desloca para o “regresso à África” proposto por Marcus Garvey, opiniões divergem em segundos. O elenco de pensadores se expressa com a energia de quem sabe que o rolo de película é caro — e, por isso, cada minuto importa.
Montagem que mistura poesia e memória
Para costurar horas de filmagem, David Greaves recorre a leituras de Zora Neale Hurston e Claude McKay, sobrepondo vozes e imagens de arquivo. Esse recurso fortalece a sensação de coquetel cultural: literatura, música e política ocupam o mesmo copo. A sutileza gráfica — mapas rápidos, datas na tela, legendas sóbrias — basta para situar o espectador sem distrair do essencial.
Imagem: Imagem: Divulgação
O cuidado editorial reforça a defesa da preservação. Da mesma forma que outros documentários recentes sobre memória e justiça apostam no acervo como arma política, Once Upon a Time in Harlem faz do próprio making of seu principal statement: filmar, guardar e revisitar é, também, resistir.
A força performática dos convidados
Embora seja um documentário, o longa depende do vigor cênico de quem aparece em quadro. Leigh Whipper recita trechos de peças que encenou e demonstra domínio de palco mesmo sentado num sofá. O carisma dele preenche a sala, assim como ocorria com Olivia Colman no delirante romance de Wicker, citado recentemente pelo 365 Filmes. Já Richard B. Moore articula argumentos com precisão de advogado veterano, tornando cada gesto um sublinhado.
Esse empenho de todos os presentes livra o filme do perigo do “talking heads” genérico. A sensação é de teatro improvisado: cada fala provoca a próxima, cada riso corta a tensão. Em certa medida, o resultado lembra como o humor e a violência se equilibram em Send Help, de Sam Raimi, embora aqui o tom seja predominantemente intelectual.
Vale a pena assistir?
Com 100 minutos e classificação impecável no festival (10/10), Once Upon a Time in Harlem funciona como cápsula do tempo e manual de sobrevivência cultural. Quem se interessa por bastidores da Renascença do Harlem encontrará discussões surpreendentemente atuais; quem busca aula de linguagem documental verá metalinguagem executada com elegância. O filme estreia em 25 de janeiro de 2026, e sua relevância — assim como o legado de William Greaves — dificilmente se esgotará após os créditos.
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