Em 2022, Damien Chazelle lançou um épico de 189 minutos que recria a transição do cinema mudo para o sonoro com energia frenética e olhar nada nostálgico. “Babylon” recebeu 57% de aprovação no Rotten Tomatoes, tropeçou nas bilheterias, mas conquistou um segmento de cinéfilos que insiste em chamá-lo de obra-prima incompreendida.
Passados três anos, revisitamos o longa para avaliar aquilo que mais chama atenção: as atuações de um elenco estrelado, as escolhas de direção, o texto afiado e o desempenho comercial que ainda parece aquém do investimento. O site 365 Filmes mergulha nos bastidores desse debate.
Elenco de peso sustenta o caos elegante de Babylon
Margot Robbie transforma Nellie LaRoy em um furacão que atravessa o ecrã sem pedir licença. A atriz alterna euforia, vulnerabilidade e autodestruição em cenas que exigem fôlego e precisão, construindo uma figura que reflete várias lendas da Era de Ouro sem jamais se limitar a uma caricatura. Muitos críticos apontam essa entrega como a mais contundente de sua carreira, superando inclusive trabalhos indicados ao Oscar.
Brad Pitt vive o astro veterano Jack Conrad, inspirado em ícones reais do período. Com charme blasé e melancolia discreta, o ator exibe domínio de cena e funciona como bússola emocional quando a narrativa mergulha em festas caóticas ou filmagens arriscadas. Diego Calva, novato em produções de grande porte, amarra a história no papel do assistente Manny Torres; seu olhar crescente de fascínio e desilusão humaniza a jornada ao centro da indústria.
O conjunto ainda conta com Jovan Adepo, Li Jun Li, Jean Smart e uma breve participação de Tobey Maguire, cada qual explorando nuances de raça, gênero e poder na Hollywood de 1926. Essa pluralidade sustenta o dinamismo interno do filme Babylon e impede que a trama se torne mero desfile de referências.
Direção de Damien Chazelle aposta em ritmo jazzístico
Conhecido por “La La Land” e “Whiplash”, Chazelle assume aqui sua obra de maior fôlego. Ele utiliza longos planos-sequência para acompanhar bastidores de gravações sonoras improvisadas, alternados com cortes velozes que lembram improvisos de jazz — uma marca que já apareceu em trabalhos anteriores, mas ganha escala monumental.
O diretor combina câmera na mão, gruas e movimentos circulares para intensificar a sensação de urgência, enquanto a trilha de Justin Hurwitz injeta metais e percussão alucinantes. Ao mesmo tempo, a montagem parece deliberadamente excessiva: “Babylon” não oferece respiro ao espectador, refletindo o turbilhão de mudanças tecnológicas da época.
Essa ousadia chama atenção sobretudo porque parte de um cineasta ainda jovem, disposto a bancar escolhas estéticas pouco convencionais dentro de um drama histórico. Embora a bilheteria não tenha retribuído, a direção comprova a capacidade de Chazelle para comandar elencos numerosos e narrativas que atravessam vários anos.
Roteiro expõe glórias e vergonhas da velha Hollywood
Assinado pelo próprio Chazelle, o texto de “Babylon” funciona quase como relatório jornalístico dos anos 1920, mas com pitadas de sátira. Sequências de filmagem exibem câmeras pesadas, microfones escondidos em vasos de flores e truques de iluminação que colocavam dublês em risco. Ao mesmo tempo, o roteiro não poupa o racismo institucionalizado: Jovan Adepo surge em cena utilizando blackface para agradar investidores, denunciando a hipocrisia dos estúdios.
Imagem: Imagem: Divulgação
Também há referências diretas a casos de crueldade animal, morte em set e festas regadas a drogas, evidenciando que a era dourada possuía tonalidades bem mais sombrias do que a memória popular costuma admitir. Em vez de celebrar o passado, o filme Babylon revela, com laivos de humor ácido, o preço que muitos artistas pagaram para construir a “fábrica de sonhos”.
É essa honestidade que torna o argumento tão relevante: ao confrontar vícios históricos, o longa dialoga com crises atuais da indústria — do assédio moral a disputas trabalhistas — sem resvalar em discursos didáticos.
Recepção fria: números que não contam toda a história
Lançado em 23 de dezembro de 2022, “Babylon” estreou nos Estados Unidos cercado de expectativas e orçado em aproximadamente US$ 80 milhões. O resultado final ficou bem abaixo disso, algo atribuído à duração extensa, classificação indicativa alta e mudanças de hábito decorrentes da pandemia. A pontuação de 57% no Rotten Tomatoes reforçou a ideia de fracasso imediato.
No entanto, análises posteriores mostram crescimento de interesse nas plataformas de streaming e sessões de repertório. Fóruns especializados apontam índice crescente de avaliações positivas, e a obra já circula como exemplo de “cult movie” recente. Em parte, essa reabilitação acontece porque a crítica acadêmica destaca sua metalinguagem, enquanto o público cinéfilo valoriza o espetáculo visual.
Essa disparidade entre dano inicial e reconhecimento tardio não é inédita na história do cinema, mas chama atenção devido à velocidade com que as percepções mudaram. Em apenas três anos, “Babylon” saiu do limbo financeiro para alcançar discussões frequentes em listas de filmes subestimados da década.
Vale a pena assistir a Babylon hoje?
Para quem busca um mergulho intenso nos bastidores da virada tecnológica que moldou Hollywood, o filme Babylon oferece experiência audiovisual rara. Entre momentos de euforia estilizada e críticas contundentes, o longa entrega elenco em estado de graça, direção virtuosa e roteiro que não teme expor feridas. Mesmo com 189 minutos, a narrativa mantém o pulso acelerado e convida o espectador a refletir sobre o preço da inovação artística. Se a curiosidade é maior que o receio da duração, a sessão tende a recompensar.
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