“Wicker” chegou ao Festival de Sundance 2026 como quem não quer nada e saiu comentado em cada corredor. A produção escrita e dirigida pela dupla Alex Huston Fischer e Eleanor Wilson revisita contos de fadas, mas em tom escancaradamente moderno, abusando de humor estranho e romantismo de quebrar resistência cética.
Com Olivia Colman no centro do palco, o longa mostra quão longe uma interpretação pode levar um roteiro que parece impossível no papel: uma pescadora se apaixona por um marido trançado em vime. Pode soar extravagante, porém a entrega do elenco, somada ao design de produção exuberante, converte o absurdo em emoção real.
Construindo uma fábula: direção e roteiristas costuram o improvável
Alex Huston Fischer e Eleanor Wilson adaptam o conto “Wicker Husband”, de Ursula Wills-Jones, criando uma aldeia que lembra uma Inglaterra elisabetana levemente torta. Neste cenário, todo cidadão carrega no nome sua função ou relação, recurso narrativo que, de início, parece piada, mas logo expõe camadas de crítica social.
A dupla de cineastas não se limita a ilustrar uma anedota bizarra. A mise-en-scène abraça o camp sem perder a elegância: paleta terrosa, figurinos rasgados pelo uso e detalhes luxuosos nas celebrações do vilarejo. A câmera acompanha Colman em planos próximos, enfatizando o contraste entre o cotidiano rude da Fisherwoman e o caráter cerimonial que rege a comunidade.
Olivia Colman no comando: performance que torna crível o incrível
É difícil imaginar outra intérprete tornando verossímil a paixão por um homem feito de ramos. Colman usa seu arsenal completo: olhos arregalados que flutuam entre espanto e esperança, voz trêmula quando a personagem sofre chacota, gargalhadas que explodem em momentos de intimidade.
Existe ainda um desafio físico: a atriz circula com roupas pesadas, carregando peixes, subindo penhascos e, em sequência antológica, partindo uma cama ao meio durante a primeira noite de núpcias. O efeito combina prostéticos de Alexander Skarsgård – irreconhecível sob camadas de vime e resina – e a reação genuína da parceira de cena, algo que lembraria os exageros pastelão de Send Help, o thriller de Sam Raimi citado aqui no 365 Filmes.
Elenco de apoio: Dinklage narra e Debicki faz a vilã brilhar
Peter Dinklage surge como Basketmaker, artesão que constrói o marido de vime e ainda empresta a voz à narração ocasional. Seu timbre dá charme literário à trama e, quando em cena, o ator equilibra ternura e ironia, evitando que a história escorregue para o piegas.
Elizabeth Debicki, por sua vez, interpreta Tailor’s Wife, antagonista obstinada em proteger seu status social. Debicki dosa veneno e vulnerabilidade num registro que ecoa vilões shakespearianos. Entre sussurros insinuando traição e olhares ácidos, a atriz quase rouba o show, criando tensão palpável sem jamais reduzir a protagonista.
Imagem: Imagem: Divulgação
Subtexto e estética: sexo, gênero e arte em discussão
Mesmo embalado em humor absurdo, “Wicker” propõe debate claro sobre estruturas patriarcais. Ao apresentar um relacionamento onde o marido de vime declara “quando ela está feliz, eu estou feliz”, o roteiro vira a lógica de propriedade matrimonial do avesso. A inveja das moradoras – despertada pelos orgasmos estrondosos da Fisherwoman – revela como o prazer feminino se converte em ato revolucionário.
Há ainda reflexão sobre o poder transformador da arte. O próprio cesto humano simboliza criação artística que gera mudança coletiva. Quando o vilarejo percebe que valores rígidos não sustentam a felicidade de ninguém, a narrativa flerta com otimismo, mas sem pontificar. A fotografia quente, as texturas orgânicas e a trilha de cordas reforçam a sensação de uma lenda viva.
Vale a pena assistir ao filme Wicker?
Se você gosta de fantasia romântica temperada com sátira social, “Wicker” oferece experiência singular. A direção firme de Fischer e Wilson mantém o ritmo ágil ao longo de 105 minutos, enquanto o elenco segura a barra do nonsense com convicção.
Olivia Colman entrega uma das performances mais ousadas da carreira, Dinklage e Debicki adicionam camadas e Skarsgård, mesmo escondido, convence como parceiro ideal. O longa ainda dialoga com quem procura narrativas que desafiam convenções, tal qual “Carousel”, drama impressionista de Rachel Lambert que discute relações de forma igualmente inusitada e que você encontra analisado em outra crítica do site.
No fim, “Wicker” mostra que contos de fadas podem ganhar nova vida quando entregues a mãos criativas e intérpretes destemidos. Para quem acompanha o circuito de festivais ou simplesmente busca cinema audacioso, vale reservar um lugar nesta celebração de amor, vime e transgressão.
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