A nova aposta latino-americana do Prime Video, Cometerra, chegou ao streaming cercada de curiosidade e polêmica. Adaptada do romance “Cometierra”, da argentina Dolores Reyes, a produção resgata o realismo mágico para falar de violência de gênero.
Com fotografia onírica, elenco de peso e direção de Daniel Burman, a série acompanha Aylín, adolescente capaz de enxergar pessoas desaparecidas sempre que engole um punhado de terra. Entre visões perturbadoras e críticas sociais, a história busca dar voz a vítimas ignoradas pelo Estado.
Do livro ao streaming: como nasceu a série Cometerra
Lançado em 2019, o livro “Cometierra” se tornou best-seller imediato na Argentina ao narrar, em primeira pessoa, a saga de uma jovem que descobre o dom de “ouvir” a terra. No Brasil, a obra chegou com o título “A Devoradora de Terra” e conquistou leitores ávidos por fantasia temperada com questões sociais.
Quando o cineasta argentino Daniel Burman leu o romance, enxergou potencial para uma adaptação global. A Amazon topou o desafio e encomendou a série Cometerra, mas com uma mudança fundamental: a trama passou da periferia de Buenos Aires para um bairro popular do México, pais que também enfrenta índices alarmantes de feminicídios.
Mistura de gêneros: drama, terror e realismo mágico
Na TV, Aylín (Lilith Curiel) tenta levar uma vida normal até testemunhar o sumiço da professora Ema, vivida pela indicada ao Oscar Yalitza Aparicio. O desaparecimento desencadeia a primeira visão sobrenatural da garota, transformando-a numa espécie de médium e peça-chave de investigações negligenciadas pela polícia.
Cada episódio da série Cometerra combina suspense, terror psicológico e drama juvenil. O tom sombrio se acentua com a fotografia saturada em tons vermelhos, reforçando a sensação de pesadelo permanente. A trilha, assinada por Emiliano González del León e Leo Heiblum, incorpora faixas de Natalia Lafourcade, Bizarrap e Nicki Nicole, criando contrapontos entre esperança e violência.
Personagens que ampliam o debate sobre feminicídio
Aylín, uma heroína vulnerável
A protagonista não veste armaduras nem empunha armas; sua força reside na empatia com as vítimas. O dom, na verdade, é um fardo: a cada punhado de terra, Aylín revive o trauma alheio — e o seu.
Rede de apoio e conflito
Ao lado do irmão Walter (Roberto Aguilar) e do policial cético Ezequiel (Harold Torres), Aylín forma uma improvável equipe de investigação. A tensão cresce quando a comunidade passa a procurá-la em busca de respostas, transformando sua casa em ponto de peregrinação.
Diferenças marcantes entre livro e série
No romance original, a protagonista nunca revela o próprio nome e narra tudo de forma introspectiva. Já na série Cometerra, Daniel Burman dá rosto e passado à heroína, aproximando o público de sua rotina escolar, amizades e conflitos familiares.
Imagem: Netflix.
Outra alteração é o formato procedural: cada capítulo apresenta um caso de desaparecimento que Aylín tenta solucionar. A escolha facilita a maratona no streaming e amplia a tensão policial, mas suaviza parte da brutalidade e da ambiguidade presentes no texto de Dolores Reyes.
Violência de gênero como motor narrativo
Embora use elementos fantásticos, Cometerra mira a realidade nua e crua. A série ecoa o movimento Ni Una Menos, surgido na Argentina e espalhado pela América Latina, ao expor o silêncio institucional diante do feminicídio.
Protestos escolares, marchas de rua e diálogos duros surgem de forma orgânica, sem didatismo. Burman aposta na potência simbólica de Aylín: ao ingerir a terra, ela encarna a memória coletiva das desaparecidas, lembrando que cada corpo soterrado carrega uma história de vida interrompida.
Estética carregada de simbolismo
Visualmente, a série Cometerra abusa de planos fechados e cores quentes, gerando claustrofobia. O uso de câmera tremida em cenários urbanos reforça a urgência das buscas, enquanto efeitos sutis — nunca excessivos — mantêm o foco na dor das personagens.
A trilha latina, às vezes dançante, contrasta com o clima sombrio. Segundo Burman, a escolha musical busca lembrar que, mesmo em contextos violentos, a cultura popular persiste como forma de resistência.
Por que Cometerra merece atenção
Para o público do site 365 Filmes, a produção surge como porta de entrada para narrativas latino-americanas que fogem do eixo hollywoodiano. A habilidade de mesclar suspense sobrenatural com denúncia social posiciona a série Cometerra entre os títulos mais relevantes do Prime Video neste ano.
Ao final, o realismo mágico não é mero artifício estético: ele traduz a urgência de mulheres que lutam para não virar estatística. Entre pedaços de terra e visões sangrentas, Aylín escancara feridas que atravessam toda a região — e convida o espectador a encarar o solo que pisamos todos os dias.
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