Entre 2 e 6 de fevereiro, o catálogo da Netflix reúne três longas-metragens que chamam atenção pela força do elenco e pela assinatura de seus realizadores. A lista mistura um documentário esportivo recém-lançado, uma comédia clássica em formato de mockumentary e um thriller policial estrelado por dois nomes intimamente ligados ao Oscar.
Nas linhas abaixo, o 365 Filmes detalha como cada produção se sustenta em atuações marcantes, escolhas de direção inteligentes e roteiros que fogem do lugar-comum. A seleção é variada, mas o critério é o mesmo: a performance dos atores em cena.
Miracle: The Boys of ’80 – quando a câmera encontra o gelo
Lançado estrategicamente às vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno, Miracle: The Boys of ’80 resgata um episódio que marcou gerações: a vitória da equipe norte-americana de hóquei sobre a então imbatível União Soviética. Dirigido por Sarah Nguyen, a cineasta mescla imagens de arquivo com entrevistas inéditas, conferindo ritmo de thriller a um enredo que o público conhece de cor.
O grande mérito do filme, no entanto, está nos próprios entrevistados. Os ex-jogadores assumem o papel de narradores e, ao reviver o vestiário, contaminam a tela com emoção genuína. Não há atores profissionais, mas a maneira como cada depoimento é captado — enquadramentos fechados e uso generoso de silêncio — transforma anônimos em protagonistas carismáticos. A montagem de Carlos Ortega repete a lógica de um power play: acelera nos momentos de tensão e desacelera quando a história pede fôlego.
Nguyen também se arrisca ao ampliar o contexto histórico. Ao conectar a campanha olímpica a tensões da Guerra Fria, o roteiro oferece uma visão macro, evitando o rótulo de filme “para iniciados”. Essa costura tem ecos dos grandes clássicos sobre a Era de Ouro, como aqueles listados no artigo sobre joias do horror na era dourada de Hollywood, que também recorrem a camadas históricas para enriquecer o enredo.
Best in Show – a arte do improviso e o humor de Catherine O’Hara
Exibido pela primeira vez em 2000, Best in Show voltou ao centro das atenções após a morte de Catherine O’Hara. O longa, dirigido por Christopher Guest, usa o formato de falso documentário para acompanhar participantes de um prestigiado concurso canino. É terreno fértil para a improvisação — marca registrada de Guest — e um presente para o elenco recheado de veteranos da comédia.
O’Hara, que interpreta a ansiosa Cookie Fleck, domina a tela com pequenas sutilezas: o olhar sempre em busca de aprovação, o sorriso que oscila entre orgulho e pavor, a voz que falha quando a personagem tenta disfarçar insegurança. Eugene Levy, parceiro frequente da atriz, surge como contrapeso ideal, oferecendo respiros cômicos que evitam que a trama descambe para o pastelão.
O roteiro foi escrito a quatro mãos pelo próprio diretor e por Levy, mas grande parte dos diálogos nasceu em cena. Esse método orgânico se revela nos cortes minimalistas e nos planos longos, que permitem aos atores experimentar. O resultado é uma comédia de baixo risco narrativo, perfeita para revisitar quando se deseja algo reconfortante, assim como outras obras-primas da comédia que moldaram 100 anos de cinema.

Imagem: Imagem: Divulgação
The Rip – Damon e Affleck de novo no olho do furacão
Maior aposta original da Netflix em 2026, The Rip coloca Matt Damon e Ben Affleck como policiais de Miami que encontram uma fortuna em dinheiro durante uma investigação. A descoberta acende a ganância e, aos poucos, corrói a amizade forjada nos tempos de academia.
Dirigido por Ava Brooks, o thriller se apoia na química comprovada dos dois protagonistas. Damon apresenta um oficial metódico, quase obsessivo, cuja moralidade se desfaz em câmera lenta. Já Affleck encarna o parceiro impulsivo, responsável por puxar o fio da corrupção. O contraste de perfis, tão comentado desde Gênio Indomável, aqui ganha contornos mais sombrios graças ao texto afiado de Marcus King.
O suspense se beneficia ainda da participação de rostos em ascensão, entre eles Kiara Morales, que rouba a cena ao viver uma detetive de assuntos internos. A atriz sustenta olhares desconfiados que colocam pressão extra sobre a dupla principal. A fotografia de Warrick Page, por sua vez, mergulha a narrativa em tons quentes, quase sufocantes, criando uma Miami que vai muito além das cores vibrantes vendidas aos turistas.
Direção e roteiro: o elo invisível que impulsiona as atuações
Os três filmes destacam como escolhas de bastidor interferem no trabalho em frente às câmeras. No documentário esportivo, a opção por depoimentos crus e ausência de narração externa devolve o protagonismo aos atletas, fazendo do elenco não profissional o centro emocional. No mockumentary, a liberdade para improvisar exige que os atores dominem timing, construindo humor a partir de pausas e olhares — algo impensável sem a mão leve de Christopher Guest.
Já no thriller policial, o roteiro conciso de King utiliza diálogos enxutos para alimentar a paranoia. Brooks, ciente da sintonia natural entre Damon e Affleck, favorece planos médios que capturam reações ínfimas, muitas vezes mais eloquentes que qualquer fala. Esse cuidado lembra a discussão sobre atuações premiadas no artigo sobre as vitórias de Melhor Atriz no Oscar que seguem inquestionáveis, onde a direção costuma moldar performances memoráveis.
Vale a pena assistir?
Para quem busca variedade, o trio cobre extremos bem distintos dentro do catálogo da Netflix. Miracle: The Boys of ’80 entrega um mergulho emocional no esporte, sustentado por depoimentos que funcionam como monólogos dramáticos. Best in Show segue leve, quase terapêutico, lembrando ao público a maestria de Catherine O’Hara em provocar risadas usando silêncios. The Rip, por fim, oferece tensão crescente e comprova que Damon e Affleck continuam afiados, tanto juntos quanto separados.
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