Roger Ebert jamais escondeu suas opiniões; quando gostava de um filme, elogiava sem pudor, mas, quando detestava, atacava com a mesma força. Entre todos os longas que viu, nenhum provocou tanta ira quanto a franquia Friday the 13th, marco absoluto dos slashers dos anos 1980.
Do primeiro capítulo, lançado em 1980, até as continuações seguintes, o crítico do Chicago Sun-Times achou tempo para esmiuçar cada detalhe que, segundo ele, tornava a série “imoral e repreensível”. A trajetória dessa ojeriza ajuda a entender o olhar de Ebert sobre o horror — e, por tabela, mostra como a crítica pode influenciar (ou tentar influenciar) o público.
O estopim: a estreia de Friday the 13th em 1980
No auge da explosão dos filmes de terror independentes, Friday the 13th estreou lucrando alto e atraindo curiosos com seu mistério sanguinolento. Mesmo sem pretensão de Oscar, a produção conquistou bilheterias robustas e garantiu espaço para continuações.
Foi nesse momento que Roger Ebert, ao lado do colega Gene Siskel, dedicou um episódio inteiro do programa At the Movies a esculhambar o longa. Eles chamaram o roteiro de “preguiçoso” e criticaram o apelo à violência gráfica, um ponto que, segundo os dois, servia apenas para explorar o medo do espectador sem oferecer conteúdo significativo.
Do desprezo à militância: críticas cada vez mais duras
Com o sucesso comercial do primeiro filme, a Paramount acelerou continuações anuais. A cada estreia, a franquia Friday the 13th virava alvo de novos ataques de Ebert. Em 1984, ao avaliar Friday the 13th Part IV: The Final Chapter, ele elevou o tom, chamando o título de “lixo imoral, feito para lucrar às custas da violência gratuita”.
Diferentemente de outras obras que simplesmente não agradavam, esses slashers despertavam nele um sentimento moral. Para Ebert, a série teria transformado a violência em espetáculo vazio, reforçando o que chamou de “falhas fundamentais da sociedade” — argumentos que ele repetia sempre que Jason Voorhees voltava às telas.
Ebert versus o gênero de terror
A franquia Friday the 13th não foi a única a sofrer. Hellraiser, por exemplo, recebeu apenas meia estrela do crítico, que classificou o filme como “sequência lúgubre de cenas que se repetem”. A raiz do descontentamento estava menos no enredo específico e mais na forma como o terror pessimista contrariava a visão de mundo de Ebert, acostumado a buscar esperança e humanidade nas histórias que via.
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Ao confrontar títulos conhecidos pela brutalidade, o jornalista mostrava receio de que tais narrativas normalizassem a violência ou distorcessem a empatia do público. Assim, qualquer produção que seguisse a cartilha do gore era, para ele, culpada por antecipação.
O impacto do posicionamento de Ebert
Embora as críticas fossem impiedosas, a franquia Friday the 13th seguiu lucrativa. Ainda assim, os comentários de Ebert ganharam eco nos jornais e na televisão, reforçando a fama de “cinema descartável” atribuída aos slashers. Boa parte dos espectadores mais jovens ignorava as análises e corria às salas pelo susto fácil, mas parcelas do público mais velho passaram a ver a série com desconfiança.
Para estudiosos de cinema, o embate exemplifica como a opinião de um crítico renomado pode criar estigma duradouro. Décadas depois, muitos fãs de terror citam Ebert quando defendem que o gênero merece ser levado a sério, justamente por discordarem da postura dele.
Memória e legado
Ebert, falecido em 2013, deixou registro de mais de quatro décadas de cobertura cultural. Mesmo com os incômodos pessoais, reconhecia quando encontrava qualidade no horror — O Iluminado que o diga —, mas a franquia Friday the 13th permaneceu como símbolo máximo do que ele considerava oportunismo.
No site 365 Filmes, sempre lembramos que o olhar crítico faz parte da experiência de quem consome cinema. As opiniões mordazes de Roger Ebert sobre Jason Voorhees seguem vivas, convidando novas gerações a revisitar os filmes e decidir, por conta própria, se o veredicto do crítico se sustenta ou não.
