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    Pieces of a Woman: atuação arrebatadora de Vanessa Kirby domina drama sobre luto e culpa

    Thaís AmorimPor Thaís Amorimjaneiro 30, 2026Nenhum comentário5 Minutos de leitura
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    Pieces of a Woman
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    Um parto domiciliar filmado em plano-sequência coloca o espectador bem no meio da tragédia que redefine a vida de Martha Weiss. Logo nos primeiros minutos, Pieces of a Woman demonstra por que se tornou um dos dramas mais comentados de 2020 na Netflix.

    Com roteiro de Kata Wéber e direção de Kornél Mundruczó, a produção está ancorada na intensidade das interpretações. Nenhum outro elemento rouba o foco da dor exposta em cena, especialmente quando Vanessa Kirby assume o controle narrativo e emocional da obra.

    Plano-sequência que prende a respiração

    O filme abre com quase 25 minutos sem cortes aparentes. A câmera acompanha Martha, o marido Sean (Shia LaBeouf) e a parteira substituta Eva (Molly Parker) por cada cômodo do apartamento. Essa coreografia minuciosa dispensa a montagem tradicional e cria sensação de urgência, recurso que lembra experimentos anteriores de diretores independentes dos anos 1970, mas atualizado com rigor milimétrico.

    Além de reforçar o caos do parto, o plano-sequência estabelece o tom do resto do longa. Não há espaço para fuga: a perda da criança acontece diante do público, que se torna testemunha involuntária. A estratégia visual de Mundruczó, já vista em seus trabalhos húngaros, encontra aqui uma escala mais íntima, mas igualmente devastadora.

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    Vanessa Kirby transforma dor em performance visceral

    Conhecida pela princesa Margaret em The Crown, Vanessa Kirby alcança outra dimensão em Pieces of a Woman. Sua Martha não grita o tempo inteiro; em vez disso, implode em silêncio com olhares vazios, respirações contidas e movimentos mínimos que carregam toneladas de significado. A atriz não dramatiza o luto: ela o incorpora.

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    Quando Martha encara o berço vazio ou toca as sementes de maçã que decide plantar, Kirby traduz a culpa, a autopunição e a necessidade de reconstrução. Cada gesto sugere algo diferente — às vezes um desejo de continuar, às vezes a vontade de desaparecer. Essa ambiguidade confere à personagem uma humanidade rara.

    O trabalho rendeu à britânica a Coppa Volpi em Veneza, reconhecimento que ecoa até hoje como um dos desempenhos mais potentes da década. A entrega física e emocional remete à radicalidade vista em dramas intensos como Morra, Amor, de Lynne Ramsay, disponível no MUBI (confira o paralelo entre as protagonistas).

    Em 365 Filmes, a impressão é de que Kirby segura o filme nos ombros, mas nunca eclipsa o conjunto; ela deixa espaço para que a câmera registre cada rachadura interna, algo essencial para a proposta hiper-realista de Mundruczó.

    Shia LaBeouf, Ellen Burstyn e Molly Parker ampliam o abismo emocional

    Shia LaBeouf encontra terreno fértil para uma performance contida. Sean alterna ternura e agressividade, revelando fragilidade masculina diante da impossibilidade de “consertar” o que ocorreu. A queda do personagem — física, sentimental e social — acontece em paralelo à decomposição do casamento, e LaBeouf evita caricaturas ao exibir rachaduras no orgulho operário do marido.

    Ellen Burstyn surge como Elizabeth, mãe de Martha, e domina cada diálogo com uma autoridade enraizada no trauma de infância durante o Holocausto. A veterana dosa afeto e crueldade, criando confrontos que exigem nervos de aço da protagonista. Burstyn desenha, com poucas palavras, o retrato de uma geração que acreditou vencer a guerra apenas para enfrentar outra, íntima e silenciosa.

    Molly Parker, por sua vez, injeta humanidade na parteira Eva. Embora apareça pouco, a atriz constrói uma figura complexa: profissional confiante no início, depois um rosto marcado pela culpa. A discussão judicial que se segue ganha peso graças à presença sutil de Parker, que evita vilanização fácil.

    O elenco de apoio se completa com Iliza Shlesinger, Sarah Snook e Benny Safdie, todos alinhados a uma mise-en-scène que privilegia reações genuínas. Como em dramas autorais italianos sobre artistas e suas crises, a exemplo de O Falsário, cada coadjuvante em Pieces of a Woman adiciona novas camadas à narrativa.

    Kornél Mundruczó e Kata Wéber: direção e roteiro em sintonia

    Parceiros de longa data no cinema europeu, o cineasta e a roteirista adaptam para a língua inglesa a própria experiência de perda gestacional. Essa proximidade autobiográfica confere autenticidade ao texto, que dispensa simplificações morais: não há heróis nem vilões absolutos, apenas gente tentando respirar sob escombros emocionais.

    Mundruczó enquadra os personagens com lentes abertas e pouca iluminação artificial, reforçando a sensação de realismo cru. Ele evita música excessiva, o que deixa as pausas e os silêncios tomarem conta. No tribunal, por exemplo, a câmera permanece focada em Martha enquanto o mundo ao redor parece distorcido, como se a realidade fosse um ruído distante.

    Kata Wéber estrutura o roteiro em capítulos que acompanham as estações do ano, espelhando o processo interno de Martha. A metáfora das sementes de maçã atravessa o filme sem soar didática; ela sugere regeneração, mas não promete redenção. Nesse ponto, a escrita se aproxima de thrillers sobre consequências éticas, como O Patrão: Radiografia de um Crime, ao questionar até onde vai a responsabilidade de cada indivíduo.

    Em certos momentos, o diretor flerta com o simbólico, porém sempre retorna ao concreto. O resultado é um equilíbrio raro entre naturalismo e poesia visual, capaz de dialogar tanto com o público de streaming quanto com platéias de festivais.

    Pieces of a Woman
    Imagem: Divulgação

    Pieces of a Woman vale a reprodução na Netflix?

    Para quem busca dramas que mergulham sem medo em temas como luto, culpa e fragilidade familiar, Pieces of a Woman representa experiência difícil, porém recompensadora.

    A combinação de uma direção que assume riscos, roteiro íntimo e atuações surpreendentes eleva o longa além do melodrama convencional. Vanessa Kirby entrega um trabalho que já entrou para o panteão das grandes performances recentes, justificando cada minuto de atenção.

    Este conteúdo foi publicado originalmente no 365Filmes. A reprodução total ou parcial é permitida apenas mediante a citação da fonte, com link direto (dofollow) para o artigo original, garantindo a correta atribuição de autoria e a credibilidade da informação.

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    Thaís Amorim

    Sou formada em Marketing Digital e criadora de conteúdo para web, com especialização no nicho de entretenimento. Trabalho desde 2021 combinando estratégias de marketing com a criação de conteúdo criativo. Minha fluência em inglês me permite acompanhar e desenvolver materiais baseados em tendências globais do setor.

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