O cinema argentino costuma mexer em feridas sociais sem pedir licença, e “O Patrão: Radiografia de um Crime” segue essa tradição com contundência. Disponível no Prime Video, o longa de Sebastián Schindel vai além do drama criminal e destrincha as engrenagens de um sistema que consome carne — a dos bois e a dos empregados.
Ao focalizar a trajetória de um açougueiro oprimido na Buenos Aires contemporânea, o filme entrega um estudo de personagem angustiante. Em uma hora e meia, o espectador observa como a busca legítima por trabalho pode virar armadilha mortal quando atravessada por racismo, exploração e corrupção institucional.
Retrato sufocante do trabalho precarizado
A história se ativa quando Hermógenes Saldívar, migrante do interior, aceita gerenciar um açougue sem contrato formal. A câmera acompanha cada rotina degradante: limpar carnes podres, dormir em cômodo úmido, acumular dívidas com o próprio patrão. Esses detalhes, apresentados em flashbacks, compõem um microcosmo de abuso trabalhista contemporâneo.
Schindel evita discursos didáticos; prefere mostrar o inferno cotidiano. A mise-en-scène usa luz mortiça e enquadramentos apertados para transmitir claustrofobia. Sempre que Hermógenes esfrega peças de carne estragada com água sanitária, o odor quase atravessa a tela. Poucos thrillers sociais recentes alcançaram tamanho nível de desconforto — “O Despertar”, protagonizado por Rebecca Hall e também no streaming da Amazon, provoca sensação parecida ao investigar traumas em espaço fechado neste suspense.
Sebastián Schindel e a radiografia social por trás da câmera
Conhecido por documentários, Schindel leva para a ficção a precisão de quem pesquisa antes de filmar. O diretor adapta o livro homônimo de Elías Neuman com foco na denúncia: exploradores usam brechas na legislação para sugar mão de obra barata enquanto vendem produtos adulterados.
A montagem intercala tribunal e lembranças do crime, recurso que dinamiza o relato sem quebrar o fio emocional. Esse vai-e-vem temporal, executado com cortes secos, reforça a ideia de círculo vicioso: passado e presente se misturam, e o sistema continua engolindo vítimas. O resultado chama atenção de quem costuma acompanhar discussões sociais em 365 Filmes, portal que celebra narrativas contundentes e provoca reflexão no público brasileiro.
Atuações que sangram: Furriel, Ziembrowski e elenco
Joaquín Furriel sustenta o filme nos ombros — literalmente; seu personagem caminha curvado, fruto de um acidente infantil e metáfora do peso que carrega. O ator constrói Hermógenes com fala contida, postura defensiva e olhar sempre em busca de aprovação. A transformação física impressiona tanto quanto a entrega emocional.
Do outro lado do balcão, Luis Ziembrowski encarna Latuada, patrão cínico que mistura gentileza aparente e crueldade sem freio. Cada insulto racial sai com naturalidade arrepiante, expondo décadas de privilégio internalizado. Já Mónica Lairana, como a esposa de Hermógenes, traduz cansaço e esperança no limite, provando que o abuso atinge toda a família.
Esse trio se completa com Germán de Silva, o empregado veterano que ensina golpes de venda de carne estragada. O ator mostra ambiguidade: ora cúmplice, ora sobrevivente. A química do elenco lembra a intensidade vista em “Passado Violento”, thriller da Netflix onde Adrian Brody mergulha em trauma e vingança com entrega semelhante.
Imagem: Imagem: Divulgação
Roteiro e linguagem fílmica elevam a tensão
O texto assinado por Nicolás Batlle, Javier Olivera e pelo próprio Schindel privilegia diálogos curtos, quase sempre pragmáticos. Essa economia verbal contrasta com o volume de informações visuais: balanças desreguladas, facas sujas, paredes mofadas denunciam crimes sem precisar de grandes discursos.
Quando o julgamento entra em cena, a narrativa se desloca para o ambiente forense sem perder ritmo. A defesa de Hermógenes, conduzida por Marcelo Di Giovanni, apresenta argumentos que escancaram falhas do Estado em proteger trabalhadores sem escolaridade. Mesmo flertando com o melodrama, a sequência mantém coesão estética e une crítica social à tensão jurídica.
A fotografia de Alejandro Giuliani reforça o desconforto usando tons esverdeados, remetendo ao mofo das câmaras frias. Já a trilha de Sebastián Escofet investe em cordas graves, recurso que vibra como alerta constante. Resultado: cada minuto parece prenúncio de tragédia iminente.
Vale a pena assistir O Patrão: Radiografia de um Crime?
Para quem procura suspense social que não alivia na exposição de injustiças, a resposta é sim. O longa combina crítica econômica, tensão policial e estudo de personagem, entregando pacote completo em pouco mais de 90 minutos.
O espectador, contudo, deve estar preparado para cenas de abuso psicológico e manipulação que incomodam. A experiência é densa, mas recompensadora: deixa claro como a falta de regulação trabalhista pode empurrar gente honesta para o abismo.
No catálogo do Prime Video, a produção dialoga com outras obras que discutem moralidade e poder, reforçando a vocação do serviço para títulos provocadores. Após acompanhar a trajetória de Hermógenes, talvez você queira explorar séries de fôlego longo — algumas indicadas neste levantamento sobre produções da plataforma que atravessam gerações. O certo é que “O Patrão: Radiografia de um Crime” se mantém atual e merece atenção de quem valoriza cinema que cutuca feridas reais.
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