Uma velha unidade de disquete, três televisores empilhados e uma parede cheia de fitas VHS formam o refúgio de Conor Marsh, protagonista de OBEX. O longa, escrito, dirigido e estrelado por Albert Birney, revisita 1987 com um olhar que combina humor, estranhamento e nostalgia tecnológica.
Filmado em preto e branco e ambientado no fim da Guerra Fria, o projeto coloca o espectador dentro de um quarto onde o mundo digital engatinha e cicadas compõem a trilha natural. Quando Conor e seu cão Sandy são “sugados” para dentro de um game em disquete, o cotidiano isolado do programador vira uma jornada que mistura fantasia e ficção científica.
Um retrato nostálgico da era dos primeiros computadores
A trama se passa em Baltimore, 1987, momento de transição em que o computador doméstico promete conectar o planeta, mas ainda carrega mistério e desconfiança. Conor Marsh, aos 36 anos, é agorafóbico e mantém contato com o exterior apenas por meio de sua antiga máquina Macintosh, noticiários gravados e filmes de terror exibidos na TV aberta.
Por cinco dólares, ele oferece um serviço peculiar: converter retratos em arte ASCII, usando letras, números e símbolos para desenhar rostos em papel. Fora isso, a companhia principal é Sandy, a pequena terrier encontrada por acaso na porta de casa. A vizinha Mary (Callie Hernandez) abastece a geladeira, deixa as compras na soleira e conversa sempre do outro lado da porta.
Conor Marsh e sua rotina entre VHS e cigarras
A decoração reflete um apego quase obsessivo ao registro: pilhas de VHS catalogam madrugadas de filmes como A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13, além de gravações de telejornais. À noite, Conor coloca karaokê lo-fi para ninar o cão ou reproduz sons de ondas do mar, tentando driblar o zumbido constante das cigarras que cercam o bairro.
A tranquilidade, porém, perde o equilíbrio quando surgem dois fatores: o possível emprego de Mary em outra cidade, que o deixaria sem ajuda para as compras, e um anúncio da misteriosa “OBEX”, promessa de videogame imersivo que usa “tecnologia de ponta” para inserir o jogador no universo digital.
Direção, atuação e roteiro: a mesma assinatura criativa
Albert Birney acumula funções e transforma OBEX em obra de identidade autoral. Depois de explorar imagens surrealistas em Strawberry Mansion, o cineasta aposta agora em tom mais contido, embora ainda carregado de estranheza. A interpretação dele como Conor reforça a vibe introspectiva: mesmo diante de criaturas luminosas e impressoras que disparam ordens perturbadoras, o personagem reage com uma calma quase anestesiada.
O roteiro, escrito em parceria com Pete Ohs, flerta com o absurdo sem abandonar a linearidade. Quando Sandy some dentro do jogo, Conor decide atravessar a tela para recuperar a amiga canina, iniciando uma espécie de jornada do herói minimalista que mistura fantasia, comédia sombria e ficção científica.
Influências que saltam da tela
Cinéfilos encontram ecos claros de Eraserhead, de David Lynch, principalmente na estética preto e branco, no som diegético desconfortável e no humor irônico que brota dos momentos mais tensos. Há também quem associe a linguagem de montagem à cineasta experimental Maya Deren, famosa pela lógica onírica e cortes associativos.
Essas referências convivem de maneira orgânica com objetos da cultura pop oitentista – de comerciais de TV a revistas de informática – estabelecendo um clima que remete aos primórdios da internet e aos medos que cercavam a então nascente realidade virtual.
Elementos técnicos reforçam a sensação tátil
A fotografia de Pete Ohs utiliza profundidade de campo rasa, aproximando o foco do espectador dos gadgets analógicos que pontuam o quarto de Conor. A falta de nitidez no fundo amplia a impressão de clausura: tudo o que importa está a um palmo de distância do protagonista, seja o teclado mecânico, seja a tela fosca do Macintosh.
Quando o filme transita para dentro do game, os gráficos propositalmente simples remetem à era dos 8 bits. A movimentação pixelada de Conor na tela contrasta com a textura mais granulada do mundo “real”, lembrando ao público que, em 1987, a simulação digital ainda engatinhava.
Imagem: Imagem: Divulgação
Som pontua tensões e alívios
Além do zumbido das cigarras, a trilha alterna gravações caseiras e canções pop de karaokê, sublinhando o isolamento do protagonista. Momentos de humor, como a crise existencial de Conor ao perceber que o queijo comprado é branco em vez de laranja, ganham leveza graças a esses pequenos ruídos cotidianos.
Desenvolvimento do enredo dentro e fora do disquete
O primeiro contato com OBEX decepciona Conor: a “impressão” é pobre, a jogabilidade, mínima. Ele descarta o disquete, mas logo fica claro que o programa tem vontade própria. Um ser de chifres fluorescentes surge pela casa, a quantidade de cicadas aumenta e, de repente, Sandy desaparece. Só resta ao programador atravessar a fronteira digital para salvar a cadela.
A partir daí, o longa assume estrutura de aventura, mantendo o ritmo contido. Conor encara figuras estranhas, como um homem com monitor de computador no lugar da cabeça, e até encontra uma mulher ensanguentada em campo aberto. Cada situação enriquece o contraste entre o universo doméstico inicial e a dimensão de fantasia criada pelo jogo.
Elenco e equipe por trás do projeto
Além de Birney no papel principal, OBEX conta com Callie Hernandez (Mary) e Frank Mosley (Victor) no elenco. A produção reúne James Belfer, Todd Remis, Adam Belfer e Kyra Nicole Rogers, que apoiam a visão autoral do diretor.
Com estreia teatral marcada para 9 de janeiro de 2026 e data oficial de lançamento fixada em 25 de janeiro de 2025, o longa tem 90 minutos de duração e classificação de 7/10 segundo a avaliação divulgada pela produção. O gênero mescla fantasia, comédia e ficção científica, reforçando o tom híbrido que a obra assume desde o início.
Ficheiro técnico resumido
- Título original: OBEX
- Direção: Albert Birney
- Roteiro: Albert Birney e Pete Ohs
- Fotografia: Pete Ohs
- Produtores: James Belfer, Todd Remis, Adam Belfer, Kyra Nicole Rogers
- Duração: 90 min
- Lançamento: 25/01/2025 (data anunciada) / exibição teatral a partir de 09/01/2026
- Gêneros: Fantasia, Comédia, Ficção Científica
Por que OBEX desperta curiosidade entre cinéfilos
O filme conversa diretamente com quem viveu ou admira a cena computacional dos anos 80. Ao recriar disquetes, monitores de tubo e fitas VHS, o projeto estimula o senso de memória afetiva e ainda brinca com a ideia de “imersão” muito antes dos headsets de realidade virtual se popularizarem.
Para o leitor do 365 Filmes, a principal atração está em observar como Albert Birney, à frente de praticamente todos os departamentos criativos, revisita influências de grandes nomes do cinema experimental e injeta humor peculiar em cada situação. Sem depender de efeitos modernos, OBEX entrega uma experiência que se apoia na atmosfera, no design de som e na atuação contida.
Expectativas para a estreia
Com a data teatral já marcada, resta acompanhar a recepção do público quando o longa chegar às salas. A equipe aposta na combinação de nostalgia tecnológica, fotografia artesanal e toques de surrealismo para atrair tanto amantes de cults quanto fãs de narrativas sobre videogames.
Independente do resultado comercial, OBEX já se apresenta como um registro curioso da relação entre homem e máquina em tempos pré-internet, lembrando que, às vezes, basta um disquete para virar o mundo do avesso.
