Uma estrada escura na Toscana, um carro parado e um casal atacado sem aviso. Entre 1968 e 1985, esse cenário se repetiu oito vezes e deixou dezesseis vítimas, no caso que a imprensa italiana batizou de O Monstro de Florença.
A nova minissérie da Netflix revive cada etapa da investigação e coloca no centro da discussão o nome de Salvatore Vinci, suspeito que chegou a ser julgado, absolvido e depois desapareceu.
Ataques em série abalam a Itália de 1968 a 1985
O primeiro crime atribuído ao Monstro de Florença ocorreu em 21 de agosto de 1968, quando Barbara Locci e Antonio Lo Bianco foram encontrados mortos a tiros em Signa. O filho da vítima, Natalino, dormia no banco de trás e sobreviveu.
Ao todo, a polícia registrou oito ataques semelhantes nas proximidades de Florença, sempre contra casais em carros, geralmente em áreas isoladas. As mortes geraram pânico na Toscana e incerteza sobre a identidade do agressor.
1982 marca o retorno das suspeitas antigas
Em 19 de junho de 1982, Paolo Mainardi e Antonella Migliorini foram baleados em Montespertoli. Para conter a pressão popular, a promotora Silvia Della Monica declarou que Paolo teria visto o rosto do assassino — informação falsa usada para impulsionar novas linhas de investigação.
Essa estratégia levou as autoridades a reabrirem o dossiê de 1968, fazendo o nome de Stefano Mele, marido de Barbara Locci, voltar aos holofotes. Ele havia confessado o primeiro duplo homicídio, embora depois mudasse de versão.
Família Mele e irmãos Vinci entram na mira
No depoimento inicial, Stefano afirmou ter cometido o crime sozinho com uma pistola Beretta .22, jamais recuperada. Já em 1982, mudou o discurso e culpou Francesco Vinci, irmão de Salvatore, alegando um plano motivado por ciúme.
A polícia prendeu Francesco, que possuía arma semelhante à usada nos ataques. Contudo, outro duplo homicídio em setembro de 1983 — enquanto ele estava detido — invalidou a acusação, e o suspeito foi libertado.
Prisões que não encerram o terror
Sem Francesco, a investigação apontou para Giovanni Mele. Revistas pornográficas, cordas e lâminas encontradas em seu carro, além da ausência de álibi, reforçaram a suspeita. Mesmo assim, um novo ataque em julho de 1984 — com Giovanni atrás das grades — novamente desmontou a tese policial.
As detenções fracassadas expuseram a dificuldade de conectar um único indivíduo a todos os assassinatos, aumentando ainda mais a pressão por respostas definitivas.
O foco se volta para Salvatore Vinci
Com as demais pistas esgotadas, Salvatore Vinci ganhou destaque. Ele já havia sido investigado pela morte da primeira esposa, classificada como suicídio por inalação de gás. A docussérie O Monstro de Florença mostra também relatos da segunda esposa, Rosina Massa, sobre comportamentos abusivos e jogos sexuais envolvendo terceiros, coincidindo em datas com parte dos crimes.
Investigações apontaram ainda uma suposta relação íntima entre Salvatore e Stefano Mele, fator que, segundo depoimentos, teria motivado violência contra Barbara Locci. Nada, porém, forneceu prova material direta.
Imagem: Netflix.
Julgamento de 1988 e absolvição de Salvatore Vinci
O ápice ocorreu após o assassinato dos franceses Jean Kraveichvili e Nadine Mauriot, em 1985, quando a promotoria recebeu uma carta com parte do tecido humano da vítima. Salvatore foi preso e levado a julgamento em 1988, acusado de ser o Monstro de Florença.
A acusação dependia de ligar o histórico da primeira esposa a uma escalada de crimes. No tribunal, Stefano Mele declarou não lembrar de ter ouvido Salvatore confessar o crime de 1968, enfraquecendo o caso. Sem conexão sólida entre os episódios, o júri absolveu o réu.
Desaparecimento e fim dos ataques
Pouco depois do veredito, Salvatore Vinci sumiu do radar. A minissérie indica que ele poderia ter adotado nova identidade, mas não há confirmação oficial. Coincidência ou não, desde então não se registram mais assassinatos com o mesmo modus operandi na região.
Apesar desse detalhe intrigante, as autoridades italianas jamais apresentaram provas definitivas que ligassem Salvatore a todos os oito ataques. O caso permanece arquivado sem autoria reconhecida.
Outros suspeitos nunca conectados a todos os crimes
A produção da Netflix cita ainda Pietro Pacciani, Mario Vanni, Giancarlo Lotti e Francesco Calamandrei. Alguns chegaram a ser condenados em julgamentos específicos, mas absolvidos em instâncias superiores, incapazes de explicar a totalidade dos assassinatos.
Sem a arma do crime — a Beretta .22 — nem evidência física conclusiva, a investigação esbarrou em contradições de testemunhas, pressão midiática e, como destaca O Monstro de Florença, um ambiente social marcado pelo machismo da época.
Por que o mistério persiste?
Mais de três décadas após o último ataque, a Polícia italiana guarda um dossiê volumoso, porém inconcluso. Documentos revelam versões conflitantes de envolvidos, pistas descartadas e suspeitos liberados quando novos crimes ocorreram.
De seitas a ligações com o assassino do Zodíaco, várias teorias surgiram, mas nenhuma ganhou suporte factual suficiente. Para o público do 365 Filmes, a mensagem final da docussérie é clara: o enigma do Monstro de Florença continua sem solução, e Salvatore Vinci, embora suspeito central, jamais foi legalmente considerado culpado.
Quer saber mais?
A minissérie O Monstro de Florença, disponível na Netflix, reconstitui investigação, julgamentos e reviravoltas. Para quem acompanha true crime, é uma oportunidade de revisitar um dos casos mais complexos da história criminal europeia e tirar as próprias conclusões — ainda que a justiça, até hoje, não tenha conseguido fazê-lo.
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