Uma das produções mais comentadas do catálogo da Netflix neste mês é Dissociação, drama que mergulha na mente de um assassino em série e promete chocar o público.
O que muita gente talvez não saiba é que o roteiro se baseia no massacre de Pozzetto, ocorrido em Bogotá, em 1986. A seguir, veja como os eventos reais foram transportados para a TV e quais liberdades criativas a equipe tomou ao adaptar a tragédia.
Origem da história: quem foi Campo Elias Delgado
O ponto de partida da história real de Dissociação é a figura de Campo Elias Delgado. Ex-integrante do Exército colombiano, ele já carregava um histórico de instabilidade emocional antes de protagonizar a chacina de 4 de dezembro de 1986. Na data, após discutir em casa, Delgado esfaqueou a própria mãe, cobriu o corpo com jornais e tentou incendiar o apartamento para apagar vestígios do crime.
A violência explodiu em sequência: três vizinhas que tentavam socorrer a mulher também foram assassinadas. Já em surto, Delgado seguiu para o restaurante Pozzetto, no centro da cidade, com um revólver recém-comprado e munição suficiente para uma matança em larga escala.
O ataque ao restaurante Pozzetto
No estabelecimento, onde costumava almoçar, Delgado se sentou em posição estratégica, observou cada movimento dos clientes e então foi ao banheiro. Ao retornar, começou a atirar sem distinção. Dezenove pessoas morreram na hora, enquanto pelo menos doze ficaram gravemente feridas, transformando o local em cenário de pânico sem precedentes na capital colombiana.
Cerco policial foi montado rapidamente. As versões sobre como o atirador morreu divergem: alguns relatórios apontam um disparo da polícia, outros sugerem suicídio quando percebeu que não escaparia.
Jeremias Salgado, o alter ego criado para a série
Em Dissociação, o ex-militar ganha o nome de Jeremias Salgado. A essência dos acontecimentos permanece, mas a produção precisou preencher lacunas sobre a vida privada do criminoso. Assim, traumas de guerra, surtos psicóticos e episódios de violência doméstica são destacados para contextualizar a explosão final de brutalidade.
Para ampliar o ponto de vista narrativo, os roteiristas introduziram Camilo León, jovem com amnésia dissociativa que nunca existiu de fato. O personagem funciona como ‘espelho’ psicológico, recurso que ajuda o público a enxergar a mente fragmentada do assassino.
Quais fatos permaneceram fiéis na adaptação
Alguns elementos foram retratados praticamente sem alterações. Entre eles estão:
- O assassinato da mãe, renegociada na ficção como Carmenza.
- O incêndio no apartamento para destruir provas.
- A morte de três vizinhas que tentaram intervir.
- O ataque com arma de fogo dentro do restaurante Pozzetto.
A série também conserva a incerteza sobre o desfecho de Delgado: Jeremias morre no cerco, mas o roteiro mantém aberta a causa exata do óbito, assim como ocorreu nos relatórios oficiais.
Imagem: Divulgação.
Divergências entre a vida real e a ficção
Embora a narrativa siga de perto os principais fatos, há liberdades criativas claras. A relação com estudantes universitários, mostrada no seriado como uma cadeia de manipulação psicológica, nunca foi documentada. Não há provas de que Delgado tenha formado laços profundos durante sua passagem pela Universidad Javeriana.
Da mesma forma, a teoria de que o assassino citou o filme Taxi Driver, estabelecendo um paralelo com Travis Bickle, é mais lenda urbana do que fato confirmado. A produção usa a referência como pista de premeditação, mas documentos oficiais não comprovam qualquer menção ao longa de Martin Scorsese.
Motivações ainda nebulosas
Na vida real, os investigadores nunca chegaram a um consenso sobre o gatilho final do massacre. Teorias variam entre transtorno de estresse pós-traumático, misoginia extrema e psicopatia. O que se sabe é que Delgado sacou todo o dinheiro da conta e comprou a arma no dia anterior, gesto que indica planejamento frio.
A série da Netflix explora esses indícios para criar uma narrativa de crescente paranoia. Mesmo assim, reconhece que a motivação exata permanece sem resposta – um detalhe que adiciona camada extra de suspense.
A repercussão histórica na Colômbia
O massacre de Pozzetto deixou marcas profundas na sociedade colombiana. O episódio intensificou debates sobre porte de armas, saúde mental e a dificuldade em detectar indivíduos propensos à violência extrema. Até hoje, o caso é lembrado como um exemplo sombrio de como múltiplos fatores – militares, psicológicos e sociais – podem convergir para um crime em massa.
Dissociação resgata essa memória coletiva, transportando-a para a ficção, mas sem amenizar o impacto dos fatos. O resultado, segundo o público do 365 Filmes, é uma produção angustiante, porém necessária para compreender a linha tênue entre trauma pessoal e tragédia pública.
Por que a história real de Dissociação continua relevante
Quase quatro décadas depois, o massacre ainda serve de alerta sobre a importância da prevenção em saúde mental e do acompanhamento de veteranos de guerra. Além disso, convida a sociedade a refletir sobre o poder destrutivo de armas em mãos erradas.
Ao dramatizar esses eventos, a Netflix reacende discussões fundamentais, aproximando uma nova geração de um capítulo doloroso que não pode ser esquecido. Essa é, sem dúvida, a força da história real de Dissociação.
